Este é um daqueles títulos que poderia ser clickbait. Mas não. A ideia pode parecer disruptiva, mas nem é. Até é verdadeiramente simples. Passo a explicar.

Numa altura em que se triplicam as referências ao uso do vídeo nas redes sociais como a última forma das marcas comunicarem de forma sexy com os seus seguidores, eis que convém refletir nesse outro média, o clássico livro, com quem temos tanto para aprender na web.

A propósito desta reflexão e para que me possam acompanhar nela, convém afastarmo-nos e ver de longe os dois ecossistemas em comparação com a rádio e a TV. Nestes, o acesso é condicionado e a oferta escassa. No espectro de sinal cabem apenas algumas dezenas de propostas. 100 canais? 200? E então? A cada momento em que ligamos “para ver o que está a dar” tocam sempre as mesmas 10 ou 15 estações no “top of mind“. Nada mais passa de relevante no “pipe“. Zapping para um lado. Zapping para o outro. E nos livros? Nada tão mais distante…

Nas prateleiras da biblioteca milhares de opções. Nas pesquisas pela Amazon, milhões de títulos. Nos livros a oferta é gigantesca. E mais, há arquivo. Pilhas de arquivo. Intemporal. Obras que se enfileiram e de onde tentamos obter uma lógica para escolher apenas um… como em qualquer pesquisa da web… por onde começar? Qual escolher? Onde está o algoritmo que me diz o mais relevante?

A híper fragmentação da híper oferta. Assim é o mundo dos livros. Assim é o mundo da web. A cada momento quando nos ligamos, ao contrário da Tv e da rádio, é uma miríade de opções que mais do que nos tranquilizar, assusta-nos, confunde-nos, baralha-nos, agradecendo quando o algoritmo nos diz elucidar. Ou, como nos livros, quando a curadoria do empregado de loja nos escuta e recomenda o melhor, e se tem, ou se não tem; ou se o push marketing nos coloca o título à frente dos olhos, nas pesquisa da web, na montra da loja, ou no artigo do influenciador…

Também como na web o peso dos grandes “hubs” de distribuição é hoje um tema. Os hipermercados. Os supermercados. As grandes lojas internacionais de cultura nos centros comerciais. Ao contrário da rádio e da Tv a oferta são montras e montras, físicas umas, digitais outras, otimização de pesquisa ainda mais outras. Porque lá está, a cada pesquisa acumula-se uma oferta gigantesca. E o segredo, tão importante como ter obra, é ter boa distribuição e promoção.

Se na Tv há uma lógica linear, de fluxo, os livros são uma obra solta, de onde podemos saltar para outro cujo conteúdo nada tem a ver. E voltar onde estávamos. E partir para outro. Tal como usando o hiperlink na web, entre conteúdo e conteúdo.

Neste desafio da captação de audiência estamos plenamente unidos, entre conteúdos na web e os livros a querer chegar ao leitor. Se de um lado estão hoje em dia o Facebook e o Google, nos livros estão os grande retalhistas. E a “long tail”, afinal, é quem manda. Onde conseguir um pequeno espaço, uma janela aberta, pode significar o princípio da onda, pequena, subtil, de início tímida, mas de entre o passa a palavra quiçá dali a algum tempo referência incontornável, obrigatória – como se diz: viral.

Entre os desafios da distribuição de conteúdos na web e da distribuição de livros há muito que une estes dois mundos. Entre Gutenberg e o Google, quem diria, 580 anos depois, que estão afinal tão próximos hoje na luta pela atenção de nós, leitores.

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Sobre o autor

Ricardo Tomé

Ricardo Tomé é Diretor-Coordenador da Media Capital Digital, empresa do grupo que gere a estratégia e operação interativa para as várias marcas – TVI, TVI24, IOL, MaisFutebol, AutoPortal, etc. – com foco especial na área mobile (Rising Star, MasterChef, SecretStory) e Over-The-Top (TVI Player), bem como ativação de conteúdos multiscreen em todas as plataformas e realizando igualmente a ponte com o grupo PRISA nas várias parcerias: Google & YouTube, Facebook,... Ler Mais