“Pessoa íntegra é alguém cujos comportamentos e acções demonstram rectidão e honestidade.”

A escolha para este texto da “integridade” e dos seus sinónimos, entre outros, a seriedade, honradez, honestidade, decência, decoro ou dignidade, deve-se à reflexão que venho fazendo, fruto de uma vivência em muitas organizações e geografias, e do contacto com muitas pessoas em cargos de liderança empresarial, associativa, académica, pública e política. Resulta também do facto de ter já passado por “ciclos económicos” diversos, alguns positivos, em que era grande a esperança, outros negativos, em que era generalizada a descrença. E ter visto, repetidamente, pessoas que considerava correctas e corajosas, perante a pressão e o medo do desconhecido, a abandonar a ética e princípios, na tentativa de salvarem a sua posição.

Muitas vezes me perguntei se essas pessoas seriam más, se não teriam princípios, e fui chegando a uma conclusão: há sem dúvida pessoas más, algumas com um nível de requinte na sua perfídia que chega a surpreender, mas a maior parte são boas pessoas. O problema é que o são essencialmente enquanto tudo lhes corre bem. Porque, quando lhes corre mal, ou temem que possa vir a correr mal, vem ao de cima o seu instinto de sobrevivência e fazem o que consideram dever fazer para se “salvarem” a si próprias. E convencem-se de que fazem o que qualquer um faria em circunstâncias similares. O ser humano é complexo. E, muitas vezes, à face de tudo o que está em jogo e das múltiplas implicações das decisões que se tomam, nem sempre é fácil distinguir o certo do errado. Inclusive, ninguém pode dizer que nunca tratou outrem como não gostaria de ser tratado, que não fraquejou nos seus princípios, que nalgum momento não agiu contrariamente às suas crenças, traindo-se a si próprio. Muitas vezes, encontra mesmo uma explicação para o ter feito, mas a verdade é que quase sempre havia alternativa. Tê-lo feito tem um custo, que se paga ou pagará, mais cedo ou mais tarde.

Mas a vida também nos ensina que há pessoas que raramente divergem da sua “linha ética”, a que definiram para a sua vida, pessoas que em todos os momentos, nos bons, mas em especial nos maus, perante situações muito difíceis, quase sempre tomam as decisões certas, as que não chocam com os seus princípios. Pessoas que mantêm a dignidade perante si próprios e perante os outros, sendo íntegros, mesmo quando as circunstâncias os pressionam para que não o sejam. Porque acreditam que só assim conseguem continuar a “olhar-se ao espelho” e a gostar do que vêem.

Num outro registo, mais leve, vivenciei também em muitas formações, conferências e workshops, e em organizações, o debate dos, à data, mais actuais temas da gestão. Temas que, por vezes, eram posteriormente implementados sem grande reflexão sobre a sua razão de ser e a sua importância para a organização. Temas e princípios de gestão que, sendo bons quando aplicados no momento e na dose certa, se tornavam irrelevantes, quando não mesmo prejudiciais, quando copiados e transformados em múltiplas reuniões estéreis e documentos infinitos a que, após “finalizados”, ninguém mais liga, terminando numa qualquer prateleira, “física” ou “digital”.

Em Portugal, país de uma das línguas mais ricas e bonitas, só é conferida importância a muitos temas, infelizmente, quando em estrangeiro. Desde a “Business Strategy” que, depois de amplamente debatida, acaba num Documento “Estratégico” que não se internaliza na organização e nas pessoas que nela trabalham, ou “não se inscreve”, como bem dizia o José Gil no seu livro “O Medo de Existir”, aos “líderes” que, apetrechados das melhores ferramentas teóricas de “leadership”, nunca chegam realmente a liderar. Que, de tanto falarem de “empowerment”, esquecem que não é centralizando tudo neles próprios que alguém cresce e a organização se desenvolve. Que, de tanto “mentoring” na teoria, o que praticam é o autoritarismo – não a autoridade – e o que promovem é “yes-man” e não profissionais autónomos e competentes.

Pois é, a “strategy” é muito importante, mas é-o muito mais quando se trata de estratégia definida e, principalmente, implementada nas organizações em coerência e em respeito pelos princípios, com integridade.

Nota: Este artigo segue a antiga ortografia por vontade expressa do seu autor.

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Sobre o autor

Ricardo Luz

Ricardo Luz é empresário, sócio da Gestluz Consultores e Membro do Risk Finance Advisory Group for Horizon 2020 da Comissão Europeia. Foi administrador executivo da Instituição Financeira de Desenvolvimento (IFD) entre 2015 e 2017. Foi board member da EBAN, a The European Trade Association for Business Angels, Seed Funds, and other Early Stage Market em Bruxelas, entre 2014 e 2016. Foi co-fundador, em 2007, da FNABA, a Federação Nacional de... Ler Mais