Vivemos um período de rápidas e importantes mutações nas dimensões social, económica e ambiental … as quais encerram novos desafios, requerem ajustamentos cada vez mais urgentes e carecem das adequadas respostas.

Os horizontes e responsabilidades expandiram-se. A complexidade das organizações, dos sistemas e dos modelos aumentou. O grau de exigência é maior. As estratégias e instrumentos disponíveis estão em permanente evolução.

Neste contexto, gerador de crescentes e múltiplas “fraturas sociais” necessitando de ponderação e intervenção, o desenvolvimento sustentável das comunidades é atualmente um elemento fulcral no imprescindível debate sobre o evoluir do indivíduo e da sociedade, em que dois elementos transversais se apresentam em permanência: a coesão e a inclusão social. Estas são preocupações centrais de projectos públicos, privados e público-privados e das quais derivam um conjunto diversificado de temas a considerar quando se aborda a temática do desenvolvimento social sustentável.

Neste processo, qual o papel a desempenhar pela Arte e pela Criatividade?

Art is at the heart of Creativity and Innovation
As atividades artísticas representam oportunidades de exploração de vias alternativas de construção de conhecimento, incentivar perspetivas diferentes, animar livremente a imaginação, ultrapassar limitações e barreiras, fomentar o pensamento divergente. E estas são as caraterísticas-base para o desenvolvimento das capacidades individuais de inovar.

A arte enquanto catalisador de mudanças, de abertura a novos paradigmas, é assim um agente de inovação multifacetado que respira e vive de processos de experimentação criativa individual e coletiva, inspira e transforma o indivíduo e o meio social envolvente. A arte questiona e suscita a curiosidade, a reflexão e a expressão, elementos génese da inovação.

Além do supra referido, a arte, enquanto linguagem universal, pode e deve desempenhar um papel de ligação entre os vários domínios relevantes no desenvolvimento da sociedade: social, cultural, política e económico, revelando-se como um instrumento de ativismo social e político que constrói pontes, fomenta debates, abre caminhos e alimenta soluções.

A criatividade, ou a produção de novos conceitos, ideias úteis em qualquer domínio é reconhecida como indutora de valor acrescido, como elemento que permite incrementar a probabilidade de enfrentar com sucesso desafios (sociais) de natureza e impacto muito distintos. Tanto inserida num registo individual como no das instituições. A criatividade faz parte do quotidiano e o seu importante papel não é meramente nos domínios mais tipicamente a que é associada como o das artes, da tecnologia ou da investigação mas também ao nível individual no desenvolvimento de capacidade de resolução de problemas, adaptação a novas circunstâncias, autoconhecimento e mesmo saúde física e mental.

Fica assim claro, que a inovação e os processos criativos constituem-se como ingredientes imprescindíveis num quadro de ponderação de iniciativas a promover quando as instituições se vêm confrontadas com as inúmeras questões que se colocam no aludido domínio do desenvolvimento social sustentável. E as necessidades são muitas e os recursos tipicamente são escassos. Daí a importância acrescida na pesquisa de soluções que, de forma inovadora, permitam uma aplicação dos meios disponíveis mais eficiente e eficaz.

O papel da criatividade na busca de soluções inovadoras é, deste modo, incontornável e só adquire verdadeiro sentido, expressão e significado com a evolução e inovação social. De outra forma será estéril …

A inovação social refere-se então a novos conceitos, ideias e práticas que permitem lidar com as questões e problemas da sociedade aplicando novos meios, aprendizagens e estratégias. Instrumentos como plataformas colaborativas, redes, hubs, clusters e colaboração formal inter-setorial surgem como determinantes no processo de inovação social. Assim como o grau de compromisso, as estratégias, os processos e os meios afectos pelas diversas instituições e cidadãos envolvidos. Assim como também o nível de conhecimento e consciência da realidade e do quão importante é assegurar equidade, justiça e dignidade humana no seio da comunidade.

É identicamente fundamental um maior conhecimento e uma partilha de experiências mais alargada de projetos de inovação social para inspiração e o estímulo de novas iniciativas. A projeção de organizações como o Impact Hub assumem um relevo e uma responsabilidade particulares, nomeadamente dadas as suas competências, as suas caraterísticas de multiculturalidade (radicando também na sua excecional dispersão geográfica) e o seu conhecimento concreto dos projetos a que está associado.

O fazer diferente, promovendo a eficiência na aplicação de recursos das instituições tem ganho expressão e inúmeros exemplos surgem, constituindo-se assim, conforme referi, como referências e fontes de estímulo e de inspiração. Urge encorajar Programas de Cidadania e Inovação Social em empresas, os quais têm vindo a comprovar a efetividade da sua ação (além dos efeitos “colaterais” de incremento de performance individual e coletiva dos colaboradores envolvidos, o acréscimo do “sentido de pertença” e uma maior fidelidade para com a instituição, com todos os benefícios que daí advêm).

De igual modo, a existência de projetos coletivos de criatividade comunitária na inovação social que são atualmente promovidos por diversos municípios em vários países como forma de contribuir para o seu desenvolvimento sustentável são de salientar. O respetivo impacto económico potenciando a regeneração urbana, tem também permitido novas soluções de mobilidade, uma maior abertura ao debate de ideias e de intervenção individual contribuindo para uma maior consciencialização coletiva e reforço da cidadania.

A criação de áreas das cidades que se afirmam como polos culturais ou de inovação por excelência, torna-se mais frequente não só fruto dos resultados alcançados com experiências conhecidas mas também pelo apelo que tais estratégias gera junto dos cidadãos.

Em conclusão: muito tem vindo a ser feito, e disso há inúmeros exemplos, mas muito permanece por realizar … particularmente no domínio da consciencialização e na mobilização de recursos, terrenos particularmente férteis para a criatividade e inovação se poderem manifestar em todo o seu potencial.

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Sobre o autor

João Lopes Raimundo

João Lopes Raimundo é empresário, envolvido em diversos projetos e em setores de atividades distintos. Interessado em intervenções no domínio das artes plásticas e da economia social, é sócio fundador do Lisbon Art Center & Studios (LACS). Anteriormente foi membro do Conselho de Administração Executivo da Caixa Económica Montepio Geral (CEMG) e Presidente do Conselho de Administração do Montepio Investimento, S.A. Integrou os Conselhos de Administração da SIBS, SGPS, S.A.... Ler Mais