Vivemos num mundo em transformação permanente: na forma como trabalhamos, nos divertimos, interagimos, compramos e pensamos.

Todas as inovações que foram vingando no mercado e que fazem parte do nosso dia-a-dia representam perto de apenas 5% daquelas que se tentaram desenvolver. Porque os mercados são mais criteriosos, porque o time to market é crucial e, sobretudo, porque é preciso aguentar um tempo largo de investimento permanente, sem conhecer retorno imediato.

Todas as grandes marcas dos nossos dias atravessam estes contextos. Algumas ainda registam prejuízos acumulados, mas são capazes de gerar um goodwill superior. E é óbvio que são poucas as marcas que conseguem percorrer esta maratona infindável, sem desistir.

Antevê-se que daqui por 10 anos os robôs façam parte do nosso dia-a-dia e se tornem nossos companheiros fiéis de jornada. Que a grande maioria dos veículos automóveis serão elétricos, autónomos e partilhados. Que a sustentabilidade será um desígnio mundial, colocando de parte as empresas não eficientes e responsáveis. Que o local e horário de trabalho serão variáveis a todo o momento. Que teremos implantes tecnológicos no corpo que nos permitem libertar dos diversos suportes manuais de hoje. Que poderemos perpetuar (para quem tenha capacidade financeira) uma imagem jovem durante toda a vida. Que o mundo terá acesso à internet de forma ilimitada e gratuita. Ou que as cidades e a mobilidade urbana viverão assentes e dependentes da inteligência artificial.

Quando lá chegarmos tudo será percecionado como normal e todos os nativos digitais deixarão de perceber como foi possível viver nos dias de hoje sem esses recursos e faculdades. Ainda estamos longe desse contexto, mas há empresas e marcas que estão a tomar as rédeas desse desbravar constante do caminho a prosseguir. São empresas que registam uma atitude de inovação constante e visão holística de qualquer negócio.

Escolhi a Apple e a Netflix como bons exemplos de quem sabe exatamente o que fazer para conquistar os nossos euros e corações nos tempos mais próximos.

Quando, em 2002, Steve Jobs lançou o iPod fez um aviso ao mercado sobre a catadupa de inovações que se lhe iriam suceder, dos quais se destacou o iPhone, 5 anos mais tarde. E se, em 2007, a marca Apple estava valorizada em 11 mil milhões de dólares e tinha 17 mil trabalhadores, a verdade é que em 2018 atingiu os 214,5 mil milhões (quase 15 vezes mais no prazo de 11 anos) e 132 mil trabalhadores. Ora, neste preciso momento, o discurso parece repetir-se: o atual CEO, Tim Cook, face a uma estagnação no mercado de smartphones, anuncia uma nova catadupa de inovações, chamando a si o epíteto da empresa mundialmente mais inovadora (14,2 mil milhões de dólares em I&D em 2108).

Veremos em breve qual será o seu desempenho no mercado automóvel, música, telemóveis dobráveis, TV, óculos inteligentes ou serviços de entretenimento. Há quem anteveja que um dia todos seremos clientes de, pelo menos, uma das áreas de negócio Apple, ao mesmo tempo que alguns críticos temem por um desenrolar de uma história semelhante à Nokia, por incapacidade de assegurar tanta diversificação.

A Netflix, que em 2018 quase dobrou o seu valor de marca para 8 mil milhões de dólares, é uma marca que olha para a inovação como se de uma espiral se tratasse. A compra e produção de conteúdos evolui de forma estonteante, alocando investimentos avultadíssimos que parecem não ter fim (em 2018 investiu em conteúdos 13 mil milhões de dólares). Mas os resultados também: no último trimestre de 2018, angariou quase mais 10 milhões de subscritores, ganhou 5 prémios no Golden Awards e as vendas cresceram quase 30%. As consultoras de referência afirmam que a Netflix assegurará resultados positivos e crescimentos de margens nos tempos mais próximos, para além de ir conquistando quota de mercado consecutivamente. Mercado que não lhe facilitará a vida, com intervenientes muito fortes, como a AT&T, Disney ou Apple.

Perante a inovação, selecionaremos as marcas da nossa confiança. Serão as nossas referências para quase todos os movimentos diários. Serão poucas. Aquelas que criarem valor contínuo e crescente para os clientes ao mesmo tempo que o fazem para os acionistas.

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Sobre o autor

Pedro Celeste

Pedro Celeste é doutorado em Ciências Económicas e Empresariais pela Universidade Complutense de Madrid, Graduado pela Harvard Business School, Imperial College of London, Kellogg School of Management, de Chicago, e pelo IESE Business School, de Barcelona. Na Católica Lisbon School... Ler Mais