Começa-se a ter notícias de encontros de filantropos com empresários que faturam somas muito elevadas, para os fazer refletir e lhes deixar sugestões de que “ser filantropo vale a pena”. Em economias emergentes com certos setores de rápido crescimento – como o dos IT ou ITES- IT Enabled Services – criaram-se muitas fortunas em períodos curtos de tempo.

Os americanos, a começar com Bill Gates, Warren Buffet e outros, têm dado provas de solidariedade com os que pouco ou nada têm. É uma atitude digna, que sempre existiu ao longo da história, mas que hoje é mais importante pelos efeitos mediáticos das imagens de subnutrição, do sofrimento e da doença, que fazem pensar no seu alívio.

Uma coisa é apoiar Instituições que fazem filantropia, e a fazem muito bem, e outra, diferente, talvez de maior compromisso e dedicação, que arrasta muitos a seguirem o exemplo, é o daquelas pessoas que, sem fortuna, mas apenas uma ideia ou uma técnica especializada que dominam, puseram mãos à obra e foram idealizando e construindo soluções de grande alcance para certos tipos de problemas. Tanto uns como outros fazem falta.

Os ricos talvez não sejam bons para novos empreendimentos e daí ser mais avisado que encontrem instituições que funcionam bem e merecem a simpatia, para as ajudar num novo projeto concreto de expansão dos serviços que prestam.

Nalgumas destas iniciativas há subjacentes ideias surpreendentes e uma vontade indomável, que muitos nem sonham, e que fazem uma enorme diferença para a vida dos pobres e deserdados da fortuna. Destas iniciativas, indico umas poucas que tive ocasião de estudar de perto:

1. Aravind Eye Care System. Originado em Madurai, Índia, em 1978, pelo Dr. Venkataswami, Dr. V, para ser mais simples. Conta hoje com seis hospitais de oftalmologia, próprios, e outros dois na fase de planeamento, todos eles situados no Estado de Tamil Nadu, a sudeste da Índia. Neste, apenas 40% dos pacientes pagam a conta, enquanto os outros 60% não pagam nada, por serem pobres. Há dois anos tinham dado mais de dois milhões de consultas e feito mais de 280 mil operações às cataratas, num ano. Cada médico faz em média 2 mil cirurgias às cataratas por ano, quando a média dos oftalmologistas nos hospitais públicos é de 220, na Índia. A instituição recebeu o 1.º Prémio da Fundação Champalimaud, de 1 milhão de euros, em 2007.

2. Grameen Bank. Conhecido por Banco dos pobres, concede micro-créditos a pessoas em extrema pobreza que não podem dar garantias para ir pedir empréstimos aos Bancos comerciais, mesmo estatais. A grande maioria dos clientes são mulheres, e a taxa de devolução é próxima dos 100%. O Banco, só por si, empresta a mais de 9 milhões de pessoas. Paralelamente à sua atividade, fomentou a criação, sem nenhuma participação acionista, mais de uma vintena de empresas, nomeadamente de telefonia móvel, na qual mais de 400 mil “telephone ladies” adquiriram o telemóvel com um micro-empréstimo do Banco e dão serviços de comunicação aos seus conterrâneos da aldeia, ganhando por este meio a sua vida.

3. Narayana Group of Hospitals. O Dr. Devi Shetty, cirurgião do coração, iniciou um primeiro hospital, com mil camas, em 2001. Conta hoje com mais de 6 mil camas em diversas cidades da Índia e está a tentar criar seis  “cidades da saúde” com 5 mil camas cada uma, onde milhares poderão ser atendidos.

Porque tanta massificação, perguntar-se-á? É a forma de reduzir custos criando fortes economias de escala, ao mesmo tempo que os médicos se especializam muito mais e melhor, obtendo taxas de sucesso muito elevadas. Num artigo do Wall Streel Journal referia-se que, num determinado ano, no Hospital do Coração se tinham feito cerca de 6 mil cirurgias complexas, entre adultos e crianças, um número absolutamente distanciado de qualquer grande hospital da Europa ou EUA.

Dr. Shetty procura que todos em necessidade possam ter acesso aos melhores cuidados de saúde, independentemente de terem ou não dinheiro para pagar. Imaginou todas as vias de reduzir custos e, por exemplo, no caso de by-pass coronário, uma operação muito frequente, consegue fazê-la por $2.000, o que custa $5.000 em média na Índia e mais de $25.000 na Europa ou EUA. As suas taxas de insucesso são de 1,4%, não-corrigidas, a comparar com 1,9%, corrigidas, dos melhores hospitais norte-americanos. Muitos empresários ricos colaboram com ele, com donativos para cobrir os custos das cirurgias ou ajudando a construção de mais hospitais nas suas “cidades da saúde”.
Uma empresária, Kiran Mazumdar, da BIOCON, construiu um hospital com 1.400 camas para doentes de cancro. O Eng.º Dinesh, co-fundador da Infosys, uma empresa de IT, construiu um hospital de 300 camas para doentes de oftalmologia. Um grupo de empresários de PME leva mensalmente um cheque para custear 60 operações ao coração, em crianças…

4. Jaipur Foot. Na cidade de Jaipur, no Estado de Rajhastan, funciona esta instituição que faz próteses de pé ou perna e as adapta a cada pessoa que dela necessita. Já o faz há mais de 25 anos, tendo melhorado o processo de fabricação com materiais mais ajustados para imitar o movimento do pé, permitindo, aos que a utilizam, uma vida próxima da “normal”: andam quilómetros, correm, sobem às árvores, trabalham nas várzeas de arroz, etc.

Já se ajustaram mais de 350 mil próteses. O seu custo de fabricação ronda os $35 e às pessoas que têm dificuldades de pagar nada se cobra, sendo o valor custeado por donativos.

Muitas mais iniciativas de âmbito social se poderiam descrever, como a AMUL, uma Federação de Cooperativas para a comercialização do leite, de Anand, Estado de Guajarat, feita à sombra do grande prestígio e dedicação do Dr. Verguese Kurien.

O Barefoot College, empenhado em ressuscitar técnicas antigas para o aproveitamento da água das chuvas, seu tratamento e utilização; para fazer das pessoas que aí trabalham, engenheiras hidráulicas, de painéis solares, de bombas de água, etc. Esta iniciativa nasceu do Dr. Bunker Roy, em 1988, mas também há iniciativas deste quilate no Brasil, no México, etc. Importa ver que são iniciativas replicáveis em qualquer parte do mundo, bem pensadas e sempre com ideias de se chegar ao maior número de pessoas.

*Dirigente da AAPI-Associação de Amizade Portugal-Índia. Autor do livro “O Despertar da Índia”

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Sobre o autor

Eugénio Viassa Monteiro

Eugénio Viassa Monteiro, cofundador e professor da AESE, é Visiting Professor da IESE-Universidad de Navarra, Espanha, do Instituto Internacional San Telmo, Seville, Espanha, e do Instituto Internacional Bravo Murillo, Ilhas Canárias, Espanha. É autor do livro “O Despertar da India”,... Ler Mais