A digitalização da economia, que se tem chamado de Indústria 4.0, tem permitido uma maior integração entre empresas e o desenvolvimento de novos modelos de negócio, num contexto atual de mutações rápidas imprevisíveis no mercado. Faz por isso cada vez mais sentido olhar para uma cadeia de valor como um conjunto de atividades e empresas que se complementam e que formam uma única entidade virtual.

Nesse contexto o posicionamento eficiente de um modelo de negócio em termos de tempo, de qualidade de serviço/produto ou de custo, pode constituir uma vantagem competitiva sustentável. Vou ilustrar com alguns exemplos.

Lembram-se de uma empresa chamada Maconde? No início da década de 90 era o top da indústria de vestuário em Portugal e nessa altura tive oportunidade de visitar e estudar o seu modelo de negócio. Nessa altura a indústria do vestuário era gerida ao sabor de coleções sazonais. A Maconde estava 12 meses a conceber e a produzir coleções (outono-inverno e primavera-verão), para encher os seus armazéns de stocks incorrendo em custos significativos com a obsolescência dos seus produtos.

Estamos a falar de uma empresa que controlava a sua cadeia de valor a montante e a jusante pois produzia e vendia nas suas próprias lojas, e estava suportada numa forte marca reconhecida no seu segmento usando várias técnicas de marketing avançadas para a altura. Poucos anos depois, a empresa desapareceu vítima da ineficiência do seu modelo de negócio e da entrada de novos players no mercado.

A Zara foi um desses novos players, que mudou o negócio do vestuário com a sua abordagem Quick Response. Definiu o seu target e percebeu que podia diferenciar-se colocando as últimas tendências da moda em loja de forma muito rápida com pequenas séries que garantem stocks mínimos. Usam redes de fornecedores, grande parte na proximidade e muitos deles no Norte de Portugal, armazéns centrais e meios de transporte rápidos, para colocar o produto rapidamente em loja. Usando tecnologias de informação, centralizaram o forecast de vendas e a gestão do stock em loja onde procedem à recolha do feedback do cliente para saber quais os designs com sucesso, de forma a produzirem variantes que estão em loja em duas semanas. Na Zara, um novo produto demora menos de um mês desde o primeiro desenho até chegar à loja vs os 12 da Maconde.

No modelo de negócios da Zara a eficiência do seu sistema logístico, em boa parte suportada por tecnologias digitais, é uma das sustentações da sua proposta de valor.

Mas só existe uma Zara, assim como só existe uma Apple, uma Tesla ou uma Amazon e mesmo estes gigantes são ameaçados todos os dias por inúmeros players que imitam as suas abordagens disruptivas competindo ferozmente por uma fatia do mercado. A verdadeira diferenciação não está na imitação ou replicação de modelos de negócio ganhadores, mas na procura de novos segmentos e modelos de negócio.

Vejamos o exemplo do setor do calçado, onde em 10 anos as exportações portuguesas cresceram mais de 60% e o preço médio do par de sapato à saída da fábrica aumentou 30%, o segundo valor mais alto entre os produtores mundiais de calçado. A diferenciação no setor não se fez à custa da replicação de modelos de negócio de terceiros, com grandes investimentos em redes e canais de distribuição próprios, mas sim de uma aposta conjunta na diferenciação de todo um setor através de dezenas de marcas que se posicionam em inúmeros segmentos de mercado.

Neste setor, um dos exemplos de grande inovação, aproveitando as tecnologias da indústria 4.0, é o caso da Undandy, que possui um modelo de negócio suportado na diferenciação de serviço através da possibilidade de personalização total do par de sapatos pelo cliente, usando uma plataforma online e parceiros logísticos para entrega e para fabrico. A Undandy é uma start-up portuguesa que não produz um único par de sapatos e não possui uma única loja física, mas vende um par de sapatos a um preço médio de 200 euros e fatura já alguns milhões de euros em apenas três anos de vida.

Por isso, a indústria 4.0 é para todos e as oportunidades que ela cria para as pequenas e médias empresas são reais. Brevemente, o ISQ e o IAPMEI vão lançar uma ferramenta de auto diagnóstico em português, mas deixo-vos duas ligações para ferramentas de auto-diagnóstico em indústria 4.0, em língua inglesa, que podem ajudar a definir uma estratégia neste âmbito.

https://i40-self-assessment.pwc.de/i40/landing/
https://www.industrie40-readiness.de/?lang=em

*Direção de Investimento para a Inovação e Competitividade Empresarial / IAPMEI

Comentários

Sobre o autor

Pedro Cilínio

Profissional com mais de 20 anos de experiência em avaliação de projetos de investimento, adquirida em várias funções exercidas no IAPMEI e na AICEP (ex-ICEP), grande parte das quais de direção de unidades de negócio. Desde 2006 no IAPMEI, exerce... Ler Mais