A forma como nos relacionamos, comunicamos e interagimos com familiares e amigos é cada vez mais virtual, o mesmo sucedendo no dia a dia das organizações. A importância da tecnologia e das ferramentas de comunicação nas organizações é inquestionável, mas até onde é que podemos (ou devemos) ir?

Este texto foi inspirado no artigo do NY Times “Is Going Virtual Our New Reality? As technology advances and global business becomes the norm, companies must embrace new ways of working to stay competitive. But how far can we push it?”, que aborda precisamente o tema da virtualização das organizações empresariais no futuro, no contexto da globalização e da melhoria da tecnologia em geral e das ferramentas de comunicação em particular.

Organizações são feitas de pessoas que querem e precisam de boa comunicação

As organizações empresariais bem-sucedidas dependem de processos, de sistemas e de pessoas e, claro está, de estar no negócio, momento e local certos, com a estratégia adequada.

As pessoas são porventura o elemento mais complexo dessa equação e uma boa comunicação (horizontal e vertical), enquanto parte de um processo mais amplo de gestão, é crucial para a eficácia e eficiência de qualquer organização, empresarial ou de outra natureza.

Os elementos “soft” (humanos) e “hard” (tecnológicos) da comunicação – o que realmente importa?

Ferramentas de comunicação de última geração não necessariamente tornam uma organização mais comunicativa, colaborativa ou produtiva, ao contrário do que por vezes se crê – “quanto melhores as ferramentas, melhor a comunicação e maior a eficiência” afirma-se.

Na realidade, a conjugação dos soft skills de cada indivíduo numa organização, em especial daqueles que ocupam posições de liderança, continua a ser o fator verdadeiramente crítico para a sua eficácia e eficiência – por outras palavras, o lado soft da comunicação é preponderante.

Em termos práticos, comunicação é (também) uma forma de informar, envolver, capacitar, delegar e motivar, que são algumas das alavancas que ajudam a tornar cada indivíduo e uma organização empresarial mais eficaz e eficiente, não havendo tecnologia no mundo que possa substituir o elemento humano da comunicação…pelo menos por enquanto – talvez os millennials ou os seus filhos demonstrem um dia que estou equivocado.

Mais nem sempre significa melhor e a necessidade de uma comunicação efetiva

Num outro prisma, melhores ferramentas de comunicação geralmente facilitam e aumentam a frequência da comunicação, mas isso não significa necessariamente que a mesma seja melhor ou mais efetiva.

Esta visão é sustentada por Thomas D’Ansembourg – talvez mais num contexto de relações pessoais do que profissionais, mas enquadrável no espírito deste texto – no seu fantástico e interessante livro “Deixe de ser simpático, seja verdadeiro”:

Nesta era dominada pela informática, as pessoas comunicam cada vez mais depressa e cada vez pior! São cada vez mais os que sofrem de solidão, de incompreensão, de perda de referências e de falta de sentido. As preocupações de organização e de funcionamento são ainda amplamente prioritárias relativamente à preocupação com a qualidade das nossas relações. É urgente explorar outras formas de estar numa relação.

Muitos de nós sentimo-nos cansados com a nossa incapacidade para nos exprimirmos e sermos verdadeiramente escutados e compreendidos. Ainda que, pelos nossos meios atuais, troquemos muita informação, somos como que deficientes da expressão e da escuta verdadeiras.

Na apaixonante conquista da tecnologia […] não correremos o risco de sentir secretamente a falta de algo íntimo e verdadeiro? O encontro real do ser humano com outro ser humano, sem jogo, sem máscara, que não seja assaltado pelos nossos medos, pelos nossos hábitos, pelos nossos clichés, que não carregue o peso dos nossos condicionamentos e dos nossos velhos reflexos e que nos tire do isolamento dos nossos telefones, dos nossos monitores e das nossas imagens virtuais!”.

Conclusão? Sim à virtualização (alguém pode realmente dizer que não?), mas sem esquecer o elemento humano

Existe (ainda?) um valor intangível na comunicação presencial, embora isso possa variar de pessoa para pessoa ou de geração para geração – um baby boomer ou um millennial terão certamente diferentes perspetivas a esse respeito. É claro que a comunicação presencial nem sempre é possível, mas sendo, deve ser encorajada.

Cabe-nos, portanto, utilizar de forma adequada as fantásticas ferramentas de comunicação que estão à nossa disposição, sabendo que existe um elemento humano insubstituível em quase todas as ações de gestão e liderança das organizações, não podendo estas ser simplesmente copiadas numa qualquer intranet ou sharepoint, projetadas numa videoconferência ou anexadas a um e-mail.

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Sobre o autor

Tiago Rodrigues

Tiago Rodrigues conta com mais de dez anos em funções executivas e de gestão em empresas de energia, infraestrutura, turismo e imobiliário e oito anos como consultor, tendo experiência de vida, profissional e académica em Portugal, Brasil, Reino Unido e... Ler Mais