Acho incrível que desde 2014 o Ministério das Finanças tenha confiscado 83 mil casas (que representam 1,3 mil milhões de euros) de cidadão privados em Portugal, que não pagaram ou não conseguiram pagar os seus impostos. E, no entanto, durante o mesmo período, 10 mil milhões de euros foram transferidos para paraísos fiscais (97% para o Panamá) sem o devido escrutínio, devido a uma muito conveniente “falha informática”.

Em junho deste ano, 150 granadas de mão, 264 unidades de explosivo plástico, 1450 cartuchos de 9 mm e muito mais foi roubado em Tancos de uma base militar de armamento segura. Os criminosos conseguiram fazê-lo tão facilmente, que o roubo só foi descoberto alguns dias depois de ter ocorrido. As câmaras de videovigilância não funcionam há dois anos, as rondas de vigilância são irregulares e feitas por militares sem munições nas suas armas e, para tornar a tarefa ainda mais fácil aos ladrões, no dia 19 de junho era publicada no Diário da República a abertura de concurso público para a reconstrução da vedação periférica exterior no perímetro Norte, Sul e Este da base militar! Desta vez, a culpa não era de uma falha informática, mas sim de “terrorismo internacional” – como se um grupo de escuteiros não fosse capaz de fazer esse trabalho e ainda tivessem tempo para ir comer uns gelados.

Encontro estas “falhas informáticas” mesmo a nível local. Num dos concelhos municipais em que opero, o “relógio de ponto” parece estar sempre estragado às sextas-feiras. Há duas semanas, tive uma reunião marcada para as 9h, numa zona em que a nossa empresa é a maior ao nível do investimento privado. O engenheiro intermédio chegou às 10,30h e gritou comigo porque tinha enviado um SMS ao presidente da Câmara a manifestar o meu desagrado por ter de estar tanto tempo à espera.

A reunião devia-se a um projeto de 30 milhões de euros, em que estávamos a oferecer terreno gratuitamente ao município para construir um centro cultural e de exposições, em troca de um desconto na licença de construção. Quando finalmente tivemos a reunião, o diretor do departamento técnico foi tão negativo e com ameaças de abandonar a reunião quando discutíamos o assunto, que acabámos por desistir. Está atualmente em “análise legal”.

A minha própria equipa portuguesa diz que é assim que as coisas funcionam e que, de facto, felizmente sou tolerado nesta área, porque a nossa empresa tem vários laços locais através das pessoas que empregamos. Na verdade, vi todas as empresas estrangeiras deixarem a região em bancarrota ou frustradas, porque as coisas não são explicadas ou simplesmente não acontecem. Como em muitos outros locais, os políticos têm vontade, mas não capacidade, enquanto que os burocratas têm a capacidade, mas não a vontade.

Todos os que vivemos em Portugal sabemos que, com algumas exceções, nada acontece, exceto para uma pequena minoria, e que a vida é feita de “desenrascanço, cunhas, compromissos e saber dar a volta”. É uma pena, uma vez que estamos no melhor local no mundo para se viver – pessoas fantásticas, comida e clima fabuloso e segurança. No entanto, se quisermos cá trabalhar, enfrentamos uma luta diária com a incompetência e a corrupção – em Portugal é difícil perceber onde acaba uma e começa a outra.

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Sobre o autor

Rajan Sahay

Rajan Sahay na Costa Leste da Índia. Ainda novo, mudou-se para o Reino Unido, onde frequentou um colégio interno. Seguiu-se a Universidade de Oxford, onde se licenciou em dois cursos. Em termos profissionais, Rajan começou como consultor de gestão na... Ler Mais