No seguimento do meu artigo anterior sobre a competitividade das empresas portuguesas, o V.U.C.A. – Volatilidade, Incerteza, Complexidade e Ambiguidade – é um acrónimo inglês introduzido pelo U.S. Army College, para descrever o mundo multilateral que resultou do fim da guerra fria. Este acrónimo começou a ser utilizado nos anos 90, mas nunca foi tão verdadeiro como hoje!

E qual o impacto nas Start-ups? Como devem abordar este novo mundo? Será uma grande ameaça ou a derradeira oportunidade?

Volatilidade

A mudança do status quo pode ocorrer a qualquer momento, assim como o aumento da velocidade desta, e traduz-se, na maior parte das vezes, na ocorrência de Cisnes Negros. Estes são eventos que causam uma disrupção enorme, impossíveis de prever, e que, em retrospetiva, fazem todo o sentido, conseguindo “facilmente” ser explicados.

Uma mudança súbita e disruptiva pode facilmente fazer descarrilar uma Start-up da sua direção estratégica. A sobrevivência daquele que se adaptar mais rapidamente ao ambiente competitivo, está garantida. As Start-ups são, por definição, muito mais ágeis do que as grande empresas e organizações. Nesta perspetiva, as Start-ups deviam evidenciar-se na resposta à Volatilidade. No entanto, o foco em desenvolver o seu negócio e produto retira-lhes, por vezes, a capacidade de aproveitar a oportunidade ou mitigar a ameaça.

O estilo de comunicação direto de Donald Trump, usando o Twitter como canal de comunicação preferencial, aumentou a pressão política junto das empresas que a ele se associam, para níveis nunca dantes vistos. Como resultado, o CEO da Uber teve de se demitir do Business Council do Presidente. As repercussões da associação do seu CEO ao Presidente já chegaram a Portugal, com cartazes da campanha #deleteuber por toda a cidade de Lisboa!

A abordagem deve estar centrada na Visão. As start-ups devem usar cenários para prever o que poderá acontecer ao seu negócio no futuro mais ou menos próximo. As Corporate, por exemplo, respondem normalmente à volatilidade através da prevenção, com níveis de stock elevados de matérias primas ou talento. Isto é extremamente caro e não está ao alcance de todas as empresas.

Incerteza (Uncertainty)

Caracteriza-se pela incapacidade de prever o que vai acontecer. Temos alguma informação sobre as causas e os efeitos, mas, ainda assim, falta informação sobre outras questões. A mudança pode acontecer, mas o status quo não tem necessariamente de mudar.

Na incapacidade de prever, as Start-ups terão uma capacidade de resposta mais rápida e com menores custos do que as Corporate.

Quantas vezes, as Start-ups têm conhecimento de que outras Start-ups, e mesmo Corporates, estão a desenvolver produtos idênticos, mas mantêm a sua estratégia, enamorados da sua visão? E porque não incorporar essa informação, fazer um assessement digno de tal nome, e até possivelmente abordar essa Start-up ou Corporate para uma parceria, ou começar a desenhar um Exit lucrativo, enquanto ainda é possível?

O foco da abordagem a este fator está na Interpretação (Understanding). Deverá ser implementado um sistema de monitorização do ambiente competitivo e responder rapidamente às mudanças, se possível em tempo real. É essencial um sistema de Competitive Intelligence que permita parar, olhar à volta e ouvir, assim como comunicar com a equipa e perceber o que está, e poderá vir a acontecer.

Complexidade

Definida como a incapacidade de ligar causas a consequências. A situação caracteriza-se por variáveis que estão interligadas entre si, existindo alguma informação sobre elas, que pode mesmo ser antecipada, mas apenas mediante uma análise profunda da situação.

Na maior parte das vezes, a quantidade de informação é tal, que os responsáveis pela direção estratégica são incapazes de captar o sentido da mesma, perdendo o norte do negócio.

Muitas das Start-ups alavancam uma tecnologia própria e usam a internet para endereçar um mercado internacional, que dá escala a estes negócios. Esta escala é, muitas vezes, o que atrai os investidores, juntamente com a singularidade da proposta de valor. Mas de que serve tudo isto, se não dominarmos o ambiente competitivo dos países para os quais nos estamos a expandir? Qual a Start-up que, neste momento, conhece o impacto das políticas protecionistas de Trump ou do Brexit e como prosperar nos mercados Americano e Britânico? E aquelas que estão neste momento a serem aceleradas nesses países, qual o impacto no seu mercado original, assumindo que é o Português?

O foco deverá estar na obtenção de Clareza da situação. Tentar sentido do caos, através da racionalização dos factos, com pensamento crítico. É aqui que os profissionais de Competitive Intelligence podem, muitas vezes, ser a salvação de uma empresa, quer seja uma Start-up, ou uma Corporate.

Ambiguidade

Traduz-se na incapacidade de perceber qual a significância ou magnitude dos impactos resultantes de eventos, no ambiente competitivo.

Estas são situações que não têm precedentes ou nunca foram vividas pela empresa. Estamos a lidar com aquilo que não sabemos que não sabemos (unknown unknowns).

Pode acontecer quando uma Start-up decide enveredar por um caminho que nunca trilhou antes, ou decide mudar a sua oferta core, ou para uma nova proposta de valor. Vejam-se os exemplos da PayPal, Google, Facebook, Apple, YouTube ou Napster, cujas mudanças no modelo de negócio abriram novas dimensões na receita e rentabilidade. Fazer essas mudanças implica prospetiva, para saber que estratégias atuais são desadequadas para oportunidades de futuro.

Nestas circunstâncias, é crítica a Agilidade na capacidade de desenvolver soluções rapidamente, comunicação à equipa de maneira eficaz e inequívoca, e implementação de forma colaborativa.

Em conclusão, para cada elemento do VUCA há uma abordagem VUCA. Para a Volatidade, as Start-ups terão de ter Visão. Para a Incerteza, uma Interpretação do ambiente competitivo mais rápida do que os concorrentes. Para a Complexidade, terão de analisar os acontecimentos de forma sistemática e estruturada, para alcançar a Clareza necessária sobre as suas causas e efeitos. E finalmente, para lidar com a Ambiguidade, a Agilidade é o seu maior ativo. Esta abordagem, no seu todo, é chamada VUCA’, ou, por extenso, VUCA-Prime.

Obviamente que contamos sempre com o proverbial desenrasca, onde somos exímios. Mas, por vezes, o desenrasca já vem tarde demais.

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Sobre o autor

Luís Madureira

Luis Madureira é acreditado com o CIP-II - Master of Competitive Intelligence pela Academy of Competitive Intelligence (ACI), um de apenas dois em Portugal e de cerca de 500 profissionais a nível mundial. Licenciou-se na NOVA School of Business and Economics, em Economia com especialização em Marketing. Criou e implementou o SMINT, a primeira abordagem a nível mundial ao Competitive Intelligence (CI) em tempo-real, assim com o INNOVaction, um programa... Ler Mais