Tenho aprendido muito com o regime Trump. O regime Trump é um extremo. De quê, não sei, mas é um extremo. E os extremos são maus sítios para estar, mas bons sítios para aprender.

Uma das coisas que o regime Trump me mostrou foi o lado negro da meritocracia. Foi durante a discussão sobre a reforma do sistema de saúde americano. Um republicano (o partido que elegeu Trump) disse que as pessoas pobres têm culpa de serem pobres e, por isso, não deve ser ele (que trabalhou arduamente a vida toda) a pagar as contas médicas de uma pessoa que não se esforçou o suficiente para ganhar mais dinheiro.

Estudei sociologia que chegue para saber que as pessoas não são pobres porque são preguiçosas ou incompetentes. Mas vamos fazer de conta que sim, para poder aprender o que esta ideia tem para ensinar. Se o sucesso que as pessoas têm depende apenas do mérito delas, então porque é que merecem a nossa ajuda? Consigo pensar em três razões diferentes. Acho que essas três razões devem substituir a meritocracia, como critério para escolher os líderes de uma empresa.

A primeira razão (e, para mim, a menos importante) é que as pessoas mal-sucedidas podem estar a lutar por um objetivo que vale a pena. Já tive muitas oportunidades de viver isto na primeira pessoa. Já ajudei algumas pessoas com carreiras académicas muito modestas a desenvolver ideias que acabaram por se transformar em artigos bem publicados. Também já fui ajudado por colegas com carreiras académicas fantásticas, de longe muito melhor do que a minha, a transformar o que penso em artigos com impacto. Muitas das pessoas que ajudei não eram amigos. Ajudei-as porque achei que tinham uma ideia pela qual valia a pena lutar.

A segunda razão é que ajudar os outros é um fim em si mesmo. É verdade que muitos de nós trabalhamos para ganhar dinheiro e para fazer um trabalho de que gostamos. Mas trabalhar numa empresa, onde trabalham as outras pessoas, também nos permite ajudar as outras pessoas a melhorarem. Às vezes, até nos permite tirar as outras pessoas das resistências que não permitem que o esforço tenha resultados. Essa é uma das partes preferidas do meu trabalho. Ajudar os meus alunos a fazerem teses de mestrado ou de doutoramento que vão muito além daquilo que eles pensavam que eram capazes de fazer. Muitas vezes, não acho grande piada às ideias das teses. Mas fico sempre orgulhoso quando vejo os meus alunos crescer.

A terceira razão, e para mim a mais importante, é que, do meu ponto de vista, é desumano deixar os outros desamparados quando mais precisam. O que nos torna verdadeiramente humanos não é a nossa capacidade de calcular racionalmente quanto é que podemos beneficiar se ajudarmos os outros. O que nos torna verdadeiramente humanos é a nossa capacidade de ajudar os outros, mesmo quando é claríssimo que não ganhamos nada com isso. Ajudar os outros é exercer a nossa humanidade. E eu gosto de pensar que a humanidade é como os músculos: quanto mais a exercermos, mais forte fica. Mais fortes ficamos. Juntos.

Há uma frase que muitos gurus da treta gostam de usar para falar de liderança. Há muitas versões dessa frase, mas todas dizem a mesma coisa: um líder não é a pessoa que brilha mais na empresa, é a pessoa que faz mais pessoas brilhar na empresa. Há um fundo de verdade nesta frase. Um líder não consegue fazer tudo sozinho, nem pensar tudo sozinho. Se conseguir não é um líder, é uma Super-Pessoa. E as Super-Pessoas não trabalham numa empresa. Não precisam. Trabalham sozinhas.

Por isso, a meritocracia é uma má forma de escolher líderes. É chefe de vendas quem tem mais sucesso como vendedor.

Não.

Deve ser chefe de vendas o vendedor que mais ajuda os outros vendedores a venderem melhor. Porque gosta de ver os números de vendas a aumentar, porque gosta de ajudar os outros ou simplesmente porque tem o impulso muito humano de ajudar.

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Sobre o autor

João Vieira da Cunha

João Vieira da Cunha é escritor. Utiliza uma variedade de meios para partilhar as suas ideias, desde as mais prestigiadas revistas científicas na área da gestão até uma conta rebelde no Twitter. É doutorado em Gestão, pela Sloan School of... Ler Mais