Se percebemos que a vida realmente tem um sentido, percebemos também que somos úteis uns aos outros. Ser um ser humano, é trabalhar por algo além de si mesmo. Viktor Fankl

Viktor Frankl foi médico, neurologista, psiquiatra. Foi prisioneiro de um campo de concentração nazi durante a II Guerra Mundial, onde perdeu a sua mulher grávida, seus pais e irmão. Foi neste desolador cenário que Frankl elaborou a sua obra mestra, indelével contributo para o mundo da psiquiatria moderna – a logoterapia.

Frankl percebe, que mais do que frustrações, complexos, medos e experiências negativas, é o vazio existencial que mais despoja o homem de sentido, vontade e gosto de viver. É, pois precisamente quando encontra esse sentido, que o homem se sente parte de um todo onde urge a sua contribuição, onde o seu valor mais do que auto descortinado é universalmente solicitado.

Se pudéssemos acender em cada homem, em cada organização, empresa e em cada agente desta imensa polis, que é a nossa sociedade, a luz do seu sentido, não teríamos porventura uma sociedade muito mais viva, mais completa, mais consonante e equilibrada?
Porventura!

E é então por ventura, que ouso, no seguimento do meu anterior artigo sobre os empreendedores sociais, associar-me ao seu esforço, mostrando-lhes que não estão sozinhos, que não podem e não devem ter este esforço apenas como seu, pois a transformação que se exige é sistémica e mergulha todo um ecossistema.

Mencionámos previamente o imenso potencial das empresas e do Estado, como agentes de mudança. Intentando orientar o meu foco para as primeiras encontrei dados de excêntrico potencial. Um estudo da Global Justice Now de 2015 mostra-nos que das maiores 100 economias do mundo, 69 são empresas e com tendência de crescimento. As maiores empresas do mundo, onde incluímos Apple, Shell e Walmart, representam na sua dimensão mais do que a maioria dos países do mundo em conjunto.

Em 2017 a Walmart consagrou-se a 10.ª maior economia do mundo, conseguindo suplantar o poder económico da Bélgica. A Apple por sua vez, fatura anualmente mais do que o a economia portuguesa é capaz de produzir, e o mesmo sucede com a Netflix, a Repsol ou a Microsoft, quando comparadas às economias de Malta, Líbano e Chile, respetivamente.

Estes dados, à partida pouco surpreendentes, representam um potencial inestimável, quando nos consciencializamos do poder destas grandes organizações em imprimir propósito e impacto na sua atuação e operações, na forma como são lideradas e exponenciam o talento dos seus colaboradores. Sem as empresas, a mudança não ocorre, com as empresas ela será extraordinariamente disruptiva.

Sabemos, segundo o estudo GEM 2016, que já cerca de 8% das empresas na Europa são consideradas empresas “for-benefit” e o seu crescimento tem sido exponencial.

A mudança já começou.
São as grandes corporações que procuram estar na linha da frente desta transformação, pois sabem-na essencial. Esta é a única resposta que podem dar a colaboradores que querem sentir-se parte de projetos com sentido e a consumidores que procuram produtos e serviços que alimentam a sua consciência social e ambiental, comprando a parceiros e não a prestadores de serviços.

As empresas sabem que, definitivamente, investir de forma consciente e alinhando o seu propósito com o bem da comunidade alimenta o seu negócio, os seus processos de inovação, tornam-nas gestoras de comunidades e não de clientes. O sentido de pertença, a partilha de propósito é a exigência do consumidor e do trabalhador contemporâneo.

A responsabilidade social empresarial, como a pensávamos, já não chega.

Um negócio que nada faz além do lucro é um negócio pobre, dizia-nos Henry Ford. Podia-o ter dito Bill Gates, Arthur Guiness ou o CEO da Ben&Jerry’s, universalmente conhecidos pelo impacto que pauta a atuação das suas empresas.

Podíamos ainda comprová-lo num estudo da Consultora BCG que demonstra que as empresas com boas performances e preocupações com ambientais, sociais e de governança são mais rentáveis que todas as outras que não dão atenção a estas áreas.

Esta é a sublime oportunidade para que também as empresas tomem a liderança na construção do futuro que queremos e contribuam, alinhadas com a sua missão e propósito, para a progresso da humanidade. Chegou ao fim a era do Lucro, para se dar finalmente o início da era do Impacto, onde o lucro é um meio desejável, mas não um fim.

É neste mundo, onde as empresas têm um sentido, onde contribuem para o sentido do trabalho dos seus colaboradores e onde são corpos ativos e de virtude para a sociedade, que se começa a forjar uma nova ordem económica, a Economia de Impacto. Nesta sociedade os empreendedores sociais trabalham com as empresas, nas empresas e são financiados por estas, acalentando, destemidos, organizações que não vivem da comunidade, mas para a comunidade.

O alinhamento com o impacto chegou. É o entusiasmo que nos traz este novo século, uma oportunidade de inovação necessária e um propósito fundamental.

Não sabia Frankl, que a sua estadia em Auschwitz iria um inspirar um aprendiz de gestão e, quem sabe, transformar a vida das comunidades, dos trabalhadores, bem como o propósito organizacional das empresas que com estes se cruzam. Mas sabia-o o propósito e o sentido que o comandavam.

E se fosse este o futuro da economia? Ou melhor, e se fosse este o único caminho para o mundo empresarial?


Filipa é atualmente Gestora de Negócios de Impacto, sendo responsável pela gestão de comunidade no IES-Social Business School, ao qual se juntou em 2015 e onde coordena a rede de alumni e a rede de mentores IES-SBS. Conta com experiências profissionais no setor público e privado, tendo, anteriormente, trabalhado como Policy Advisor para os assuntos económicos no Parlamento Europeu, na Comissão de Economia e Assuntos Monetários, onde acompanhou os desenvolvimentos da crise económico-financeira Europeia e os seus efeitos em Portugal. Anteriormente passou pela Critical Software no Brasil, onde trabalhou na área de Business Development, pela Católica Lisbon School of Business & Economics, tendo lecionado como professora-assistente a disciplina de Microeconomia, e pela Deloitte Consulting, na área de Estratégia e Operações. É licenciada em Economia pela Universidade Católica do Porto e Mestre em Estratégia e Empreendedorismo pela Católica Lisbon School of Business & Economics.

*Membro da equipa de Coordenação – Portugal Agora

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