A Gulbenkian investiu pela primeira vez num fundo de capital de risco social e ambiental. Em entrevista ao Link To Leaders, Luís Jerónimo revela que a decisão de investimento dá outro alcance ao trabalho que têm desenvolvido “no sentido de promover uma agenda de investimento de impacto em Portugal, procurando assegurar que organizações sociais e ambientais têm acesso a mais e melhor financiamento para cumprirem a sua missão”.

O Mustard Seed Maze Social Entrepreneurship Fund I tem uma dimensão de até 40 milhões de euros para investir exclusivamente em empresas europeias inovadoras com impacto social ou ambiental e é da responsabilidade da MAZE, a start-up detida pela Gulbenkian, e da Mustard Seed, que identificam em Portugal as condições ideais para criar um dos principais centros de investimento de impacto da Europa.

Falámos com Luís Jerónimo, diretor do Programa Gulbenkian Coesão e Integração Social, sobre o novo fundo e o plano estratégico da Fundação na área de Inovação Social, onde vai investir cerca de 10 milhões de euros nos próximos cinco anos.

Como surgiu a ideia de criar o primeiro fundo de capital de risco para financiar projetos de empreendedorismo social e ambiental no país?
A ideia de criação deste fundo de impacto social resulta de um trabalho conjunto da Maze – entidade que a Fundação tem acompanhado e apoiado desde a sua criação – e da Mustard Seed – uma organização inglesa que tem vindo a fazer gestão de fundos desta natureza no Reino Unido. A decisão de investimento por parte da Fundação Calouste Gulbenkian neste fundo, que será cogerido pela MAZE e pela Mustard Seed, dá outro alcance ao trabalho que a Fundação tem vindo a apoiar no sentido de promover uma agenda de investimento de impacto em Portugal, procurando assegurar que organizações sociais e ambientais têm acesso a mais e melhor financiamento para cumprirem a sua missão. A promoção de novos mecanismos de financiamento para o setor não é um fim em si, mas antes um meio para que estas organizações alcancem melhores resultados e atinjam um maior impacto face aos desafios sociais e ambientais que procuram mitigar.

Qual a novidade que este fundo traz em relação aos fundos de investimento tradicionais?
A principal novidade diz respeito à proposta de valor das start-ups e organizações em que o fundo irá investir. Essa proposta de valor articulará necessariamente retorno financeiro com impacto social, isto é, quanto maior retorno financeiro atingido necessariamente maior também será o impacto social ou ambiental alcançado. É nossa convicção que nesta relação não terá de haver um trade-off, mas antes uma correlação positiva entre estas duas variáveis.

“(…) a criação de programas de aceleração focados em start-ups de impacto – como é o caso do MAZE X, também apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian – é fundamental para formar e capacitar estas organizações, tornando-as mais aptas para receber este tipo de investimento”.

Quem se pode candidatar e o que pode esperar deste fundo?
Será a equipa de gestão do fundo, partilhada entre a MAZE e a Mustard Seed, que fará a escolha das start-ups em que o fundo irá investir. Esse processo de decisão resultará de um trabalho intensivo de scouting no sentido de encontrar as melhores organizações que respondam aos critérios do fundo em termos de proposta de valor, potencial de crescimento e compromisso da equipa. É muito importante criar um pipeline de qualidade de modo a garantir melhores decisões de investimento. Nesse sentido, a criação de programas de aceleração focados em start-ups de impacto – como é o caso do MAZE X, também apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian –  é fundamental para formar e capacitar estas organizações, tornando-as mais aptas para receber este tipo de investimento.

Qual a verba que este fundo prevê aplicar aos projetos sociais e ambientais?
A totalidade do fundo será focado em start-ups de impacto social e ambiental. O fundo tem uma dimensão total de 40 milhões euros, com o first close em 30 milhões de euros. Importa também referir que o investidor âncora deste fundo é o FEI – Fundo Europeu de Investimento, o principal mecanismo comunitário de investimento em fundos de capital de risco. O FEI assegurará 50% do valor total do fundo, ou seja, entre 15 e 20 milhões de euros. A decisão de investimento do FEI neste fundo resultou de um longo processo de due dilligence por parte da sua equipa e é demonstrativo não só da qualidade da proposta apresentada pela MAZE/Mustard Seed, como também da sua oportunidade no contexto português.

Neste momento, a equipa do fundo está a trabalhar na angariação do investimento remanescente necessário para poder iniciar operações, tendo já assegurado não só o investimento por parte da Fundação Calouste Gulbenkian, como também investimentos significativos por parte do setor privado, como é o caso do Banco Atlântico Europa, bem como por parte de alguns investidores a título individual.

É a primeira vez que Fundação Calouste Gulbenkian financia uma iniciativa de impacto em Portugal diretamente através da sua carteira de investimentos?
Sim. Por um lado, é um momento histórico tendo a Fundação Calouste Gulbenkian atualizado a política de investimentos da sua carteira, passando também a considerar iniciativas de investimento de impacto. Por outro lado, é mais um passo no trabalho que a Fundação tem vindo a desenvolver nesta área, e muito alinhado com o trabalho de outras fundações internacionais, como é o caso da Ford Foundation, que recentemente anunciou que iria dedicar 1 bilião de dólares (945 mil milhões de euros) da sua carteira a investimentos de impacto.

Considera que os investidores procuram cada vez mais soluções de retorno financeiro ligadas ao impacto social?
Sim, esta é uma tendência emergente ditada pelas forças de mercado. Estima-se que a preferência de 65% dos consumidores seja por produtos com standards de sustentabilidade. Por outro lado, 2/3 dos millennials que hoje entram no mercado de trabalho preferem trabalhar em empresas que criem impacto na comunidade. Esta transformação tem também acontecido em termos das escolhas dos investidores, incluindo cada vez mais fatores sociais, ambientais e de governance nos seus processos de decisão.

“Portugal posiciona-se como um país privilegiado para o investimento de impacto numa lógica de capital de risco, através do foco em start-ups tecnológicas que crescem para a Europa e mundo”.

Portugal tem as condições ideais para ser um dos principais centros de investimento de impacto social na Europa?
Portugal posiciona-se como um país privilegiado para o investimento de impacto numa lógica de capital de risco, através do foco em start-ups tecnológicas que crescem para a Europa e para o mundo. Portugal tem os elementos necessários para um ecossistema vibrante: conetividade ao mundo através de uma posição geoestratégica favorável, eventos globais como o Web Summit, incentivos para a atração de start-ups, abertura à inovação, um mercado propenso à incubação de novos produtos e disponibilidade de talento.

A Gulbenkian entrou, em junho passado, no capital social da Maze através de uma golden share, que lhe proporciona voto privilegiado em decisões estratégicas da empresa. A decisão está em linha com o plano estratégico da Fundação para a área de Inovação Social e do empreendedorismo social?
A Fundação Calouste Gulbenkian contribuiu de forma decisiva para a criação da MAZE – na altura Laboratório de Investimento Social – e tem desempenhado um papel importante no seu desenvolvimento. No entanto, apesar do forte envolvimento a nível financeiro e operacional, a Fundação ainda não fazia formalmente parte dos órgãos sociais da MAZE. No âmbito da criação do fundo de investimento de impacto, tornou-se necessário criar uma sociedade comercial que pudesse deter a entidade gestora do fundo. Esta questão abriu a possibilidade de se formalizar a relação entre as duas entidades, com o objetivo de manter uma ligação institucional no longo-prazo e de assegurar a missão social desta nova empresa –  MAZE Impact S.A.

O seu processo de criação visou garantir a salvaguarda da missão social da MAZE. Não existe por princípio distribuição de dividendos aos acionistas, promovendo um reinvestimento dos lucros nas próprias atividades da empresa. Estas questões pretendem refletir a estrutura jurídica de empresas sociais existentes noutros países, mas ainda inexistente no nosso.

Seguindo as melhores práticas a nível internacional, as equipas da MAZE e da Fundação Calouste Gulbenkian, com a assessoria da PLMJ, desenvolveram um modelo em que a entrada da Fundação Calouste Gulbenkian na estrutura acionista da empresa MAZE Impact S.A se concretiza através de uma golden share –  uma ação, de categoria especial, que mais nenhum outro acionista tem e que proporciona direito de veto em questões materiais e estratégicas. A MAZE tornou-se, assim, num parceiro estratégico da Fundação para a promoção de utilização de novas ferramentas de financiamento e investimento criação de impacto, integrada no plano estratégico da Fundação na área de Inovação Social, onde vai investir cerca de 10 milhões de euros até 2022.

“Para além da área do financiamento, estamos também a dar uma atenção particular ao papel que a tecnologia pode desempenhar no desenho de novas soluções para os desafios sociais”.

Uma das prioridades da Fundação nos próximos cinco anos é o Programa de Coesão e Integração Social (PGCIS). Quais os objetivos do programa que lidera?
O PGCIS dá continuidade ao trabalho que a Fundação Calouste Gulbenkian desenvolveu nestes domínios nos últimos anos, nomeadamente através do Programa Gulbenkian Desenvolvimento Humano. O PGCIS procura assim dar mais amplitude em áreas de trabalho que demonstraram maior potencial de impacto nos últimos anos. Tem como principal objetivo criar e incentivar novas dinâmicas na área social que potenciem este setor, contribuindo para a construção de uma sociedade mais coesa e com menos situações de exclusão social, particularmente no que diz respeito a crianças e jovens em risco, idosos e comunidades migrantes.

Neste sentido, o desenvolvimento de uma agenda de inovação e investimento é um dos vetores centrais do nosso trabalho. Para além da área do financiamento, estamos também a dar uma atenção particular ao papel que a tecnologia pode desempenhar no desenho de novas soluções para os desafios sociais. A nossa iniciativa âncora nesta área é o Hack for Good Gulbenkian que apoia hackathons focados em temas de impacto social e também o programa de aceleração que referi, o MAZE X, para start-ups de impacto onde a tecnologia desempenha um papel determinante na sua proposta de valor, estando a ser apoiado em articulação com os nossos colegas do Programa Gulbenkian Sustentabilidade.

E como surge o PARTIS?
Estamos também muito empenhados em explorar o papel das práticas artísticas como fator de inovação nos processos de inclusão de grupos mais vulneráveis da população. A nossa iniciativa principal neste domínio chama-se PARTIS e é um concurso de apoio a projetos que testem e validem esta abordagem. Em 2018, foram selecionados 15 projetos para apoiar entre 2019 e 2021, selecionados no âmbito da terceira edição deste concurso. A promoção desta agenda tem permitido colaborar de forma próxima com as unidades da Fundação Calouste Gulbenkian mais ligadas às atividades culturais que desenvolve. Acreditamos que a Fundação tem caraterísticas únicas para desenvolver este trabalho de reforço do papel cívico que as artes podem desempenhar.

Outro dos nossos focos diz respeito à promoção de novas lideranças no setor, procurando responder ao desafio de atração e retenção de talento para o setor social. Nesse sentido, apoiámos a criação de uma nova cátedra na NOVA SBE – Gulbenkian Chair on Impact Economy, com o objetivo de desenvolver mais investigação e formação específica nestes novos domínios, com a criação de um novo mestrado e novas propostas de formação executiva.

No âmbito da promoção do bem-estar e qualidade de vida de crianças, jovens ou idosos, o nosso foco está na promoção de uma agenda de cuidados integrados para estes públicos-alvo que relacionem, de forma mais efetiva, as questões de saúde com o apoio social necessário. Outra das nossas prioridades de atuação neste domínio diz respeito à prevenção e apoio em situações de violência e abuso, uma área de trabalho desenvolvida em parceria com a APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima. Já na área das migrações, queremos perceber como contribuir melhor para assegurar maior diversidade no nosso país, nomeadamente no que diz respeito às questões de acesso ao emprego e à participação cívica.

Comentários