A vida nunca foi simples e o ser humano sempre teve uma capacidade inata para a complicar!

Hoje, talvez fruto de uma vida em sociedades cada vez mais “aburguesadas”, em especial no Ocidente, onde alguns têm tanto fazendo pouco enquanto muitos fazem tanto e pouco conseguem, a intelligentsia descobriu o filão do “género”. O que no passado era sexo masculino ou feminino desmultiplicou-se num sem fim de designações, estudos e irritações que alimentam um cada vez maior número de zelosos funcionários, “estudiosos e “catalisadores de progresso”, numa saga contra o mundo e a favor de minorias ditas descriminadas, às vezes até das realmente descriminadas.

Ps. segundo a Wikipédia, o Género “é uma gama de características pertencentes e diferenciadas entre a masculinidade e a feminilidade. Dependendo do contexto, essas características podem incluir o sexo biológico como o estado de ser do sexo masculino, do sexo feminino ou uma variação hermafrodita que pode complicar a atribuição do sexo, as estruturas sociais baseadas no sexo, incluindo o papel social de género e outros papéis sociais, e a identidade de género”. Sem dúvida… esclarecedor!

Do “Caro/Cara” – entretanto substituído por “Car@” por gente imbuída de maior modernidade e bonitos sentimentos de inclusão, num uso fofinho da “arroba” – até às famosas “quotas” em que à força se pretende meter na administração de empresas e instituições “pessoas do género feminino” (designação mais inclusiva que a antiquada “mulher”) há hoje todo um novo mundo de possibilidades. Custa-me um bocadinho que se deixe de fora todos os outros “géneros”, mas lá chegaremos. Uma administração “à seria” será um dia constituída por um branco, um negro, uma asiática, um ameríndio, uma lésbica, um “sei lá o quê” e, sem desprimor por todas as outras variações possíveis, obrigatoriamente por um/uma portista, para garantir o espírito vencedor dessa inclusiva equipa!

No que ao nosso “cantinho à beira mar plantado” diz respeito, valeria a pena uma reflexão séria sobre o porquê de tantos grupos de estudo/acção nas nossas universidades e num sem número de organismos, normalmente pagos com dinheiro dos contribuintes, bem como sobre a “Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género”. Não tenho dúvidas que nessas entidades trabalham pessoas sérias, que acreditam no impacto e bondade do seu trabalho, mas é crítico avaliar-se o que aí é feito, os seus custos directos, e indirectos sempre que de lá emerge um estudo, uma lei ou uma norma para as empresas, se não mesmo uma acção contra alguém. Ninguém, por boas que sejam as intenções, pode ficar fora de uma avaliação sobre a sua existência e resultado das suas acções, em especial sobre a “igualdade” que visam promover.

Chegado a este ponto do meu texto, sou obrigado e fazer uma declaração de interesses que – talvez! – me proteja de ser já acusado de insensível a boas ideias progressistas.

Porque, “rapaz simples do campo”, gostava, mesmo, de viver num país/mundo onde todos, independentemente do seu sexo, raça, religião, partido político, estatuto social, nível de riqueza e clube de futebol, fossem igualmente respeitados e tivessem acesso às mesmas oportunidades para melhoria da sua vida, social e profissional (sim, é utopia. Mas se não acreditamos em utopias acreditamos em quê!?). As pessoas deviam ser avaliadas, recompensadas e penalizadas pelas suas qualidades e competências, e em especial pelo resultado das suas acções, social e profissionalmente. O que são, o quanto se esforçam, estudando e trabalhando, lutando pelas suas vidas, famílias e comunidades, deve ser o que as define, e o que conseguem deve ser fruto do seu mérito e não de obscuras “pertenças”.

Gostava também de viver num país/mundo onde a liberdade de expressão fosse regra, de ouro, o que implica que todos, inclusive e em especial aqueles que dizem coisas com as quais não concordo as possam dizer. Mesmo quando o que é dito é ridículo, patético ou até ofensivo. Ideias não deviam nunca ser proibidas, muito menos em nome de um qualquer “politicamente correcto” ou porque a opinião maioritária na sociedade num determinado momento não as aceita. Podem e devem ser combatidas, numa justa luta de ideias contra ideias!

Nas regras básicas da vida em sociedade, e nas leis fundamentais da maior parte dos países ditos democráticos, está o necessário para que possamos viver de forma digna. Ao Estado, mais do que criar comissões e normas que muitas vezes tornam a vida das pessoas e das organizações num pesadelo, bastar-lhe-ia – o que não é pouco – ser o garante do bom cumprimento das leis existentes, e ser ele próprio, e as suas múltiplas instituições, um exemplo de boa aplicação das mesmas. Infelizmente, a crescente onda de populismos politicamente correctos, e uma “elite” preguiçosa que vive do trabalho árduo e da riqueza criada por outros, vem tornando cada vez mais difícil a harmonia. Seria cómico se não fosse trágico que é muitas vezes pela crescente acção das pessoas e entidades que dizem promover a inclusão e a igualdade, que a sociedade se vai tornando mais fragmentada e conflituosa. Menos tolerante para com “o outro”, menos inclusiva e menos igual.

Seria cómico… se não fosse trágico!

 

Nota: Este artigo segue a antiga ortografia por vontade expressa do seu autor.

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Sobre o autor

Ricardo Luz

Ricardo Luz é empresário, sócio da Gestluz Consultores e Membro do Risk Finance Advisory Group for Horizon 2020 da Comissão Europeia. Foi administrador executivo da Instituição Financeira de Desenvolvimento (IFD) entre 2015 e 2017. Foi board member da EBAN, a The European Trade Association for Business Angels, Seed Funds, and other Early Stage Market em Bruxelas, entre 2014 e 2016. Foi co-fundador, em 2007, da FNABA, a Federação Nacional de... Ler Mais