“Todo o risco representa uma oportunidade”, afirmou Patrick Dixon, um dos principais futuristas da Europa, na sua sessão “O futuro de quase tudo” apresentada no 11º encontro anual de clientes da WeDo Technologies.

Como Dixon explicou, algumas pessoas podem ver o risco como algo de negativo, mas se o risco puder ser melhor gerido do que pela concorrência e puder revelar uma oportunidade de negócio, o nosso futuro poderá estar garantido. Dixon observou como são estes tipos de conversas mais abertas que nos trazem a oportunidade de partilhar experiências, que vão muito para além do dia em que estamos reunidos.

Dixon divide o FUTURE (futuro) no seguinte acrónimo:

Fast (rapidez) – A complexidade e a escala estão a dar origem a riscos inimagináveis e, para lidarmos com a velocidade a que hoje acontece a mudança, precisamos de agir rapidamente. Pequenos acontecimentos podem mudar rapidamente grandes indústrias, de formas particularmente complicadas, uma vez que nem sempre afetam os mesmos países em cada setor.

Um dos maiores riscos é ter apenas um único plano, uma vez que o mundo pode mudar mais depressa do que se consegue convocar uma reunião do conselho de administração. Precisamos, portanto, de ter planos de contingência, para garantir que estamos um passo à frente. Uma das formas mais rápidas de o fazer é criar agilidade dentro das equipas de risco. Não se trata apenas de um risco individual – hoje também vemos surgir o nascimento do risco coincidente, em que cada risco no mundo está ligado a outros. Por exemplo, um terramoto a ocorrer no Japão no mesmo dia em que a Rússia entra na Crimeia. Qual seria a hipótese de dois eventos políticos acontecerem no mesmo momento? Ambos têm um impacto multiplicador e é para aqui que o futuro da gestão está a caminhar.

O risco da reputação vai ser a primeira coisa em que a maioria das empresas vai pensar na próxima década. Porquê? Porque se perde muito rapidamente, é tão difícil de recuperar e é realmente importante. Um risco de segurança cibernética, por exemplo, também é um risco de reputação.

Quando se pretende resolver situações de risco, a velocidade é fundamental. Por exemplo, um website que demora quinze segundos a carregar em vez de três pode ser um risco operacional importante. Esta diferença temporal pode fazê-lo perder 85% a 95% dos seus clientes, antes mesmo de começar. Trata-se de ser compatível, estar regulamentarmente aprovado e de garantir que os seus sistemas de deteção de fraude estão em dia.

Urban (Urbano) – A gestão de risco também tem a ver com a demografia do seu país. 85% da humanidade estará dentro de dez anos nos mercados emergentes. Estamos a testemunhar o crescimento da classe média, que será o motor do crescimento económico de toda a Europa e América do Norte. Somos mercados saturados, mas mil milhões de pessoas irão migrar nos próximos trinta anos em busca de riqueza, prosperidade e educação, sendo que a maioria delas migrará de áreas rurais remotas para as cidades. Isto gera todo o tipo de consequências. Muitos estudantes universitários de todo o mundo estão agora a sair de universidades dos mercados emergentes, incluindo a China e a Índia.

Com a esperança média de vida a crescer muito mais rapidamente do que o previsto, outro grande risco de muitas populações é a solvência dos seus fundos de pensões. Cada ano adicionado à sua esperança média de vida acarreta um déficit de cinco por cento na sua reforma, o que pode trazer graves consequências no futuro.

Tribalism (tribalismo) – A sociedade tem tudo a ver com equipas, com a pertença, com grupos e amigos. Quer faça parte da tribo da WeDo, ou de outra marca ou tribo de indivíduos, todo o grupo social é uma tribo. É por isso que as pessoas adoram as cidades, como Lisboa, onde viemos visitar as pessoas na sua própria tribo. No WeDo User Group, por exemplo, celebrámos a cultura, a língua e a música portuguesas.

Além do big data, estamos também fascinados com os pequenos dados e como estes se relacionam com a cultura tribal. São os pequenos dados que vão identificar a fraude e a pessoa individual que a cometeu e fazer a prisão. Estes pequenos dados, 85% de todas as fraudes ocorridas dentro da organização, correspondem a 0,01% do conjunto de dados gerais. O segredo está em encontrá-los e saber onde começar a procurar. Os pequenos dados são realmente importantes e são fundamentais para a experiência do cliente que lhe vem trazer estes números.

Ao ir a um supermercado, por exemplo, nós damos-lhe um pouco dos nossos dados. É apenas dinheiro, mas eles imprimem o recibo e comparam a conta com três concorrentes e, se estes não forem os vencedores em termos do preço, geralmente oferecem um reembolso. Como se vê, construir um relacionamento com o cliente não custa nada à empresa. No entanto, com o crescimento do digital e o crescimento das compras online, os retalhistas terão que agitar as coisas para manterem e atraírem clientes.

Veja-se o caso dos pagamentos através de dispositivos móveis, por exemplo, que estão a mudar e a adaptar-se para ir de encontro à procura do consumidor. Em África, a M-PESA está agora a lidar com 30% do volume de negócios do país, com recurso apenas a uma plataforma de pagamento móvel. 1,7 mil milhões de pessoas no mundo não têm conta bancária, mas têm um telemóvel. Com o aumento constante do mobile, 8 mil milhões de pessoas terão acesso a bancos e a seguros, naquela que é a maior mudança nos serviços financeiros na história da humanidade.

Universalism (universalismo) – A globalização significa por vezes a perda da nossa própria identidade nacional e cultural.

Radicalism (radicalismo) – A morte da política tradicional. Estamos hoje a assistir a um redesenhar das linhas políticas em todos os tipos de questões, incluindo a sustentabilidade, tecnologia do retalho, explosões na inovação, grandes crescimentos e quedas, e enormes investimentos. A energia solar, por exemplo, está a tornar-se mais barata e tornou-se mesmo gratuita em certas partes do mundo. Isso pode, no entanto, ter um efeito negativo, como na Alemanha com as pessoas a pagar por vezes três vezes mais para usarem eletricidade em vez de energia solar. O poder está a ter dificuldade em acompanhar o risco e a complexidade ao mesmo nível que a tecnologia e, paralelamente a esta questão, o radicalismo aparece como algo necessário para enfrentar os desafios urbanos, demográficos e de saúde, com todas as consequências sociais.

Ethical (ético) – A ética integra as coisas de que gostamos e desfrutamos e que fazem parte do nosso destino. Trata-se de ir além da regulamentação, para fazermos o que queremos e achamos ser o correto, e ir muito para além do que a lei requer, para fazermos algo de que nos orgulhamos e em que acreditamos. Isto inclui desenvolver produtos que nos apaixonam e que fazem sentido para os nossos clientes. Toda a liderança ao longo dos próximos mil anos em todas as indústrias será desenvolvida com base nos mesmos valores – a visão de um futuro melhor – menor risco, a continuidade do negócio e a capacidade de satisfazer os clientes. Ao colaborarmos e trabalharmos em conjunto, podemos construir esse mundo melhor.

Embora o mundo possa mudar muito rapidamente, Dixon não tem dúvidas de que, se tiverem cuidadosamente em conta cada um destes fatores individuais e partilharem experiências, as empresas podem analisar os riscos que vão enfrentar no futuro e criar um ágil plano de contingência. Se tiverem um correto controle da receita, assim como os controles de gestão de fraude em dia, as empresas serão capazes não só de combater o risco, mas também de garantir que ficam um passo à frente dos seus concorrentes.

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Sobre o autor

Rui Paiva

Rui Paiva é Presidente Executivo da WeDo Technologies e COO da SSI - Software and Technology. É membro da Comissão Executiva da BizDirect, Saphety, SSI Sonae Serviços Partilhados e, mais recentemente, da empresa S21Sec, com sede em Espanha. Antes de fundar a WeDo Technologies em 2001, Rui Paiva desempenhou funções como Diretor de Sistemas de Informação e Adjunto da Comissão Executiva da Optimus Comunicações. Anteriormente, passou pela HP Portugal, como... Ler Mais