Se colocarmos de lado o que pensamos de Trump como homem (vaidade e egoísmo) ou mesmo algumas das suas loucas políticas (construir muros e quebrar acordos), temos de admitir que, desde que venceu as eleições nos EUA, o mercado bolsista atingiu recordes, com o mercado mundial a seguir com confiança em alta nos negócios.

Embora não saiba se tal vai continuar, deveríamos perguntar-nos porque é que tal está a acontecer.

É uma questão muito simples. Trump é um empreendedor que tem sido muito eficiente no mercado em que opera. Os mercados estão confiantes em que Trump vai tornar os regulamentos menos restritivos, enfraquecer os controlos governamentais sobre o comércio e reduzir a burocracia.

Também é importante este estar a nomear para o seu gabinete homens de negócios muito bem-sucedidos que irão aceitar a sua visão com naturalidade. A resposta é muito positiva, por parte de um mundo que está farto da interferência constante dos burocratas.

É uma lufada de ar fresco ter um líder com experiência de gerir, e não de regulamentar os negócios, um que confia em homens de negócios, para tomar as decisões certas nas suas próprias empresas.

Em Portugal, o ambiente de negócios está demasiado regulamentado e taxado, fator a que se deve a diminuição rápida da taxa de investimento estrangeiro (exceto no caso de aquisição privada de segundas habitações) e ninguém se sente preparado para comprar dívida portuguesa. Infelizmente, o atual governo é tão bom a “manipular” estatísticas, que as pessoas pensam que está tudo bem.

Tenho trabalhado em vários continentes (Europa, América, Médio Oriente, Ásia e África); tenho conhecido muitos empreendedores portugueses incrivelmente bem-sucedidos – pessoas corajosas que arriscam o seu dinheiro, para criar riqueza.  No entanto, quantos empreendedores conhece em Portugal – e quantos destes é que ficam mesmo em Portugal, quando atingem o sucesso e uma determinada dimensão?

Estive envolvido com a Startup Lisboa como business angel, quando esta surgiu. É muito bom existirem estes berçários para apoiarem os jovens empreendedores, mas, assim que os seus negócios atingem uma determinada dimensão, não há outra hipótese que não seja a saída – há demasiada regulamentação.

A diferença entre Portugal e o resto do mundo é que, em Portugal, as regras e as leis são vistas como algo positivo. Sempre que uma nova lei é aprovada ou uma nova é proposta pela entidade reguladora, os políticos congratulam-se e pensam que já ganharam o dia.

Dou-lhe um exemplo. Fui convidado para um pequeno-almoço, onde se discutiu a competitividade portuguesa. O 5º slide da apresentação dizia que o governo tinha aprovado 500 medidas desde 2010 para aumentar a competitividade e reduzir a burocracia. O preocupante é que estas 500 medidas eram realmente necessárias. O triste é que apenas poucas delas foram adequadamente executadas. O frustrante é que mal se sentiu o seu impacto. Falo destas 500 medidas mencionadas nessa apresentação, porque foram apresentadas como algo de positivo.

Digo-lhe, como homem de negócios muito ativo, que a competitividade diminuiu durante este novo governo e que a burocracia aumentou.

Se for a qualquer repartição governamental depois das 15,30h, não terá acesso a nenhuma senha de atendimento, uma vez que estas já não estão disponíveis.

Fui à conservatória local, pouco depois do horário de trabalho ter sido reduzido de 40 para 35 horas semanais. Os empregados estavam todos contentes, claro. Mas, quando lhes perguntei se, antes das eleições, o anterior Primeiro-Ministro tivesse prometido 30 horas semanais em vez das 35, todos me responderam que teriam votado nele. Populismo não é génio, mas apenas uma preguiçosa resposta para ganhar eleições.

Voltando ao fórum. Este foi organizado pela APPII e incluía várias questões relacionadas com os popularmente conhecidos Golden Visa. Há uma frustração generalizada entre os construtores, promotores e agências acerca da demora na aprovação/renovação dos golden visa. De 3 a 4 semanas em 2013, passaram a demorar 12 a 18 meses em 2016. Na China, a imprensa já traz comentários a incentivar o abandono do programa de Portugal, a favor de Espanha. Quando questionado sobre isto, o orador colocou-se à defensiva – “as coisas estão a melhorar”. Questionei-lhes que o governo tinha prometido medidas para aumentar o número de funcionários no SEF em janeiro, mas responderam que houve atrasos e que isso só começaria a ser implementado a partir de julho.

Após ter terminado, falei com um dos membros que me chamou à parte e me referiu o que realmente tinha acontecido. Outros ministérios a quem tinha sido pedido para ajudarem cedendo ao SEF dois ou três funcionários para estágio, tinham aproveitado a oportunidade para enviar os funcionários mais problemáticos que lá tinham.

Outra realidade é que as pessoas que trabalham no SEF estão apavoradas, porque, se cometem um erro, podem perder os seus empregos, nesta era de pós-escândalo. Por isso, estão a fazer o que os burocratas melhor sabem fazer – não assumirem qualquer responsabilidade, guiarem-se pela letra da lei e não pelo espírito da lei e garantir que têm as costas protegidas, passando o assunto a outro colega ou superior, ao menor problema que surja. Imagine o que é travar uma guerra destas ou gerir um negócio ou fazer andar um país… é impossível.

O governo limita-se a comparar as aprovações deste ano com as do ano passado. Uma vez que as aprovações pararam em 2015, é óbvio que 2016 parece ter um crescimento fantástico – mas é uma falsa comparação e apenas “para inglês ver”.

O problema é que esta tentativa de “tapar o sol com a peneira” está prestes a entrar em choque com a realidade.

Estamos num país em que os spreads (por exemplo a 10 anos) foram mais elevados em 2016 do que nunca, desde a renegociação da dívida de Portugal a longo-prazo de abril de 2014; daí que, em dois anos, o investimento direto externo se tenha tornado negativo.

Estas são duras estatísticas que mostram que já ninguém, no resto do mundo, acredita na retoma com que os políticos têm vindo a engodar o povo português – basicamente, a bolha panglossiana de que tudo está bem, acaba na fronteira do país. A resposta do governo não está a ser a de fazer reformas estruturais e levar a economia a movimentar-se e ter confiança, mas, pelo contrário, pensar em formas de renegociar a dívida.

Claro que não acredito que Trump seja a resposta. Acho-o uma pessoa perigosa. No entanto, a mudança real e a visão diferente que este representa, é atrativa para os homens de negócios que apenas querem que os deixem em paz, para gerirem as suas empresas sem interferências e ingerências constantes.

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Sobre o autor

Rajan Sahay

Rajan Sahay na Costa Leste da Índia. Ainda novo, mudou-se para o Reino Unido, onde frequentou um colégio interno. Seguiu-se a Universidade de Oxford, onde se licenciou em dois cursos. Em termos profissionais, Rajan começou como consultor de gestão na... Ler Mais