Este é daqueles artigos que bem poderá fazer sorrir de ironia e candura quando daqui a duas ou três décadas for revisitado.

É tal a façanha de ser capaz de compreender o presente que tamanha é a insolência de querer adivinhar o futuro. Mas substituindo o adjetivo pela irreverência e curiosidade ficará melhor enquadrado o tema e defendido o autor. Que a procura do amanhã sirva, também, para melhor sabermos como nos preparar (e aos nossos filhos) já hoje.

O futuro da internet não passa pela tecnologia. Esse é, para mim, um ponto assente.

Vivemos um século XX onde as descobertas tecnológicas nos deslumbraram em cada década, amplificando o potencial humano (para o bem e para o mal) e onde passámos a viver com demasiada excitação positiva a cada vislumbre de nova tecnologia, sempre ansiosos pelo que ela tem de bom, só nos preocupando depois mais tarde com o reverso da medalha. Os benefícios foram sempre comprovando e superando as dúvidas e receios. E com a web foi igual. Assumimos o mesmo. Vimos que era o mesmo. Óbvio. Novas tecnologias são sinónimo de melhores mundos, vidas, progresso. Estamos hoje melhor. Prossigamos.

Acredito sinceramente que este século verá a maturidade desta ideia, onde a tecnologia ‘per se’ nada faz, nada ajuda, antes para onde a canalizamos, onde a orientamos, com que objetivo. Mas será mais do que isso. .. ou menos do que isso – o futuro da internet será menos sobre novas tecnologias que a ampliam e mais sobre a consciência e disputa do seu poder.

Inteligência artificial e redes sociais e virtuais potenciarão relações e interações parassociais como jamais imaginámos nos anos 50, 60 e 70, quando achávamos impressionante a vivência de um fã do seu músico, ator ou apresentador favorito, e depois nos tempos atuais, onde o privado se juntou à ficção como mais uma dimensão (já se diluindo a diferença entre os dois). Imersos entre uma realidade e uma para-realidade em simultâneo, ditaremos regras tão veementes para uma como para outra, talvez até mais para a segunda, com o zelo de quem tem algo novo e lhe impregna regras mais apertadas para evitar qualquer prejuízo – ou porque um grave erro já terá provocado o primeiro.

O futuro da internet será sobretudo sobre educação, mas não dos outros, antes de nós próprios sobre a nossa consciencialização enquanto elemento de um grupo e de uma vivência digital, no gládio direto com a nossa insaciável sede de independência e liberdade egocêntrica, querendo aproveitar tudo o que a internet nos permitirá ‘viver’, experienciar, cegos pela mera possibilidade de poder ser mais, e mais, e mais, uma espécie de vida multiplicada em várias vidas numa vida só – verdadeiramente mais poderoso que essa pouca coisa antiga que era a ambição de “ter mais”, bem menos inebriante.

A possibilidade de podermos ‘ser’ mais moverá recursos e afetará as nossas prioridades. Será o sentido da vida do dia a dia. Podermos ser mais (dentro de nós mesmos ou para além de nós mesmos) será o grande desafio dentro de cada um e da sua busca por um equilíbrio. Conviver consigo mesmo de forma plena e equilibrada um combate ampliado em 10x face ao que já hoje achamos, colocando também aqui fortes desafios no campo da saúde.

O que hoje nos parece incrédulo daqui a 40 ou 50 anos será comum, inexplicavelmente comum até, para a então geração nascida a partir de 2030 (os Beta e os Gamma) – filhos da Geração Z e da Geração Alpha, as primeiras puras digitais e a quem, apesar de tudo, isto já parecerá incrédulo e “too much” (como sempre para qualquer pai e mãe).

Para os que pensam em mundos virtuais e vivências 3D desenganem-se. O futuro da internet é mais do que isso. Isso é o mundo atual. Onde há divisões. Onde há compartimentos. Onde há logins e opt-ins e logouts. O futuro da internet é um absoluto apagão dessa fronteira. E é precisamente isso, essa cada vez maior dissimulação do digital dentro do resto que fará com que estes desafios se coloquem. É precisamente por não se poder ‘sair’, porque não há precisamente outra realidade. E não significa que será algo de mau. Será apenas algo de diferente. Como seria mostrar a nossa vida hoje a quem vivia no séc.XIX.

Quem sabe, por saberem disto, talvez os que mais na internet investem hoje sejam aqueles que mais precisamente querem já começar a explorar Marte.

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Sobre o autor

Ricardo Tomé

Ricardo Tomé é Diretor-Coordenador da Media Capital Digital, empresa do grupo que gere a estratégia e operação interativa para as várias marcas – TVI, TVI24, IOL, MaisFutebol, AutoPortal, etc. – com foco especial na área mobile (Rising Star, MasterChef, SecretStory)... Ler Mais