A crise financeira de 2008, com todo o seu impacto económico e social, gerou efeitos políticos que ainda hoje, passados 10 anos, continuamos a sentir.

Um dos mais preocupantes é o crescente criticismo do sistema de mercado e o ressurgimento de ideias intervencionistas – de esquerda e de direita – que, a pretexto dos efeitos diretos e indiretos dessa crise, ressuscitam o apoio, nomeadamente de segmentos das novas gerações, às utopias do século XX – que geraram o comunismo e o nazismo – que provocaram tantos milhões de mortos na Europa e no mundo.

Perde-se, assim, por vezes, o sentido analítico objetivo da realidade, esquecendo-se que, apesar de todas as crises e defeitos, o sistema atual de mercado e a sociedade democrática têm sido os responsáveis pelo melhoramento generalizado das condições de vida da humanidade.

Uma área clara de enormes progressos, originados pela economia de mercado, é a digitalização das sociedades que a inovação tecnológica e a existência de mercados de capitais diversificados e eficientes tornaram possível. Por digitalização da sociedade refiro-me à transição radical da forma como todos nós e as organizações passaram a comunicar e a transacionar informação entre si. Até ao final da década de 80 do século passado a maior parte dos aspetos da vida em sociedade eram suportados por processos analógicos: o papel, os formatos físicos de reprodução (cassetes, fitas magnéticas, discos e, mais cedo ainda, cartões perfurados, etc.).

A digitalização dos processos e da informação facilitou o acesso a essa informação e generalizou a capacidade de penetrar em mercados que, até então, eram limitados por barreiras físicas de todo o tipo.

Em primeiro lugar, a digitalização conduziu à obtenção de graus de eficiência brutais no consumo de materiais e de energia e, acima de tudo, de tempo. O caracter instantâneo do acesso aos mercados e aos seus intervenientes, bem como à informação, constitui uma revolução profunda de que países como Portugal podem beneficiar exponencialmente.

De facto Portugal tem sofrido dos efeitos da descapitalização pós 25 de Abril de 1974 e também da ausência de uma verdadeira economia industrial competitiva antes dessa data. Efetivamente o país sofre, há longa data, de uma falta de capital que é reflexo desse atraso congénito e dos processos já mencionados. Não tivemos nunca uma verdadeira revolução industrial e vivemos sempre à sombra de um protecionismo muito pernicioso.

Felizmente que a digitalização vem alterar os fatores críticos de sucesso da economia: como já Peter Drucker referia, a sociedade de mercado estava a evoluir para um estágio em que o capital humano (e acima de tudo o capital intelectual) passariam a ter um peso cada vez mais importante. Os detentores de capital passariam a estar mais afastados dos processos de gestão e decisão das empresas e os detentores de conhecimento seriam crescentemente elementos chave na gestão das empresas e na criação de valor.

Esta tendência referida por Drucker acentuou-se e acelerou-se com os processos de digitalização. Para Portugal e para as novas gerações de portugueses – empreendedores, cientistas, gestores, etc. – as oportunidades são mais do que nunca variadas e amplas: é possível efetuar “placement” de produto à escala global via redes digitais, é possível captar “funding” de todo o tipo de investidores também à escala global e sem as barreiras que no passado restringiam fortemente a capacidade de crescimento de projetos portugueses.

Obviamente que não basta apenas a digitalização mas esta criou condições nunca antes existentes para a internacionalização e a expansão de projetos portugueses. É verdade que há que cuidar doutras dimensões. Nada acontece apenas com o click de um rato de computador.

Há que cuidar também do lado analógico da vida dos projetos, a começar pela qualidade da gestão e dos recursos humanos e continuando com as necessidades de estabelecer planos estratégicos e financeiros sustentáveis e que asseguram a continuidade dos projetos para além do seu arranque vitorioso. E isso às vezes ainda é mais exigente… A isso voltarei.

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Sobre o autor

Franquelim Alves

Franquelim Alves é Diretor-Geral da 3anglecapital, sociedade especializada em operações de M&A e serviços de “advisory” financeiro. Licenciado em economia, pelo ISEG, detém um MBA em Finanças pela Universidade Católica Portuguesa e o Advanced Management Program da Wharton School of... Ler Mais