Há uma certa banalização do termo empreendedorismo no espaço público, nomeadamente nos meios políticos, que concorre para a descredibilização do conceito.

Atualmente, fala-se de empreendedorismo como um impulso interior capaz de vencer qualquer adversidade e assim atingir facilmente o êxito empresarial.

Ora, o empreendedorismo não é uma via infalível para o êxito. Além disso, para triunfar nos negócios, não basta ter força de vontade, determinação, perseverança e outros traços de personalidade habitualmente associados ao empreendedorismo. Embora sejam importantes, estas características pessoais não garantem, à partida, sucesso na atividade empresarial.

Na atual dinâmica económica, a principal competência estratégica de um empreendedor é o conhecimento. O processo de criação de empresas deve ter por base o conhecimento avançado e especializado do empreendedor, a partir do qual se implementam modelos de negócio inovadores, se desenvolvem produtos diferenciados e se aplicam tecnologias sofisticadas.

Considero, por isso, que a preparação para a atividade empresarial se deve fazer durante o ensino superior, independentemente da área científica ou das perspetivas de emprego no final do curso. Os estudantes devem encarar o empreendedorismo como hipótese de carreira logo nos primeiros anos de faculdade e começarem, desde essa altura, a trabalhar as suas ideias de negócio. Isto significa aplicarem o conhecimento que vão adquirindo com um propósito empresarial, tendo em vista a criação de empresas intensivas em inovação.

Felizmente, os jovens que frequentam o ensino superior demonstram hoje uma maior apetência pelo empreendedorismo, conscientes que estão de que o conhecimento especializado e as competências técnicas que adquirem nas universidades e politécnicos se adequam a modelos de negócio de base tecnológica, científica ou criativa. Por outro lado, as dificuldades de acesso dos jovens ao mercado de trabalho, mesmo por diplomados, tornam o empreendedorismo uma alternativa de carreira a considerar seriamente.

De resto, as instituições portuguesas do ensino superior inscreveram na sua missão a valorização económica do conhecimento. Universidades, politécnicos e respetivos centros de I&D+i funcionam como verdadeiros ecossistemas de empreendedorismo e inovação, garantindo aos seus estudantes boas condições para a conversão de conhecimento em projetos empresariais. Neste sentido, as instituições do ensino superior estão a contribuir para a formação de uma geração de empreendedores altamente qualificados.

Pena é que os doutorados e pós-doutorados que o ensino superior está a formar não sejam ainda devidamente absorvidos pelo tecido empresarial. Isto significa que, por razões várias, as nossas empresas não estão a aproveitar uma massa crítica com conhecimento altamente especializado, experiência em I&D, capacidade de liderança, familiaridade com as tecnologias e mentalidade cosmopolita.

Pelas competências especializadas e diferenciadas que possuem, os pós-graduados podem ajudar as empresas a desenvolver novos processos, produtos e tecnologias. Acresce que o nível de qualificação dos recursos humanos constitui um fator de atração de investimento, o qual é orientado, em boa medida, em função do talento disponível. Por fim, os doutorados e pós-doutorados são interlocutores qualificados das empresas em parcerias com instituições do sistema científico e tecnológico nacional.

*Associação Nacional de Jovens Empresários

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Sobre o autor

Adelino Costa Matos

Adelino Costa Matos é Presidente da Direção Nacional da ANJE desde janeiro de 2017, tendo já integrado a Direção Nacional precedente (entre 2013 e 2017). É chairman e CEO da ASM Industries, sub-holding do grupo A. Silva Matos, criada precisamente... Ler Mais