O calendário marcou recentemente mais um Dia Internacional da Mulher e muito se escreveu, comentou e fotografou sobre este dia. Confesso-vos que tentei, mas não fui capaz de deixar passar a data sem, também eu, escrever sobre ela.

Muitas pessoas entendem a importância e relevância deste tema, mais do que desta data específica, assim como muitas pessoas dedicam os seus dias, as suas vidas, a esta causa. No entanto, continuamos a assinalar esta data com dois acontecimentos que não consigo digerir:

  1. Festas e comemorações:

Perdoem-me se não alinho em festividades vestidas de cor-de-rosa neste dia, mas não vejo motivo para “celebrar”. Esta é uma data de luta, não de festejos. Em 1908, mulheres associadas ao Partido Socialista Americano iniciavam a sua batalha por melhores condições de trabalho. Foram precisos 37 anos para, em 1945, ser assinada a primeira Carta das Nações Unidas que reconhecia o princípio de igualdade entre homens e mulheres.

Trinta anos depois, em 1975, foi definido o dia 8 de Março como Dia Internacional da Mulher, para alertar para as questões de (des)igualdade entre homens e mulheres. Mais vinte anos passados e, em 1995, 189 países assinaram a Declaração de Pequim que identificava 12 áreas de intervenção, que visavam criar um mundo onde cada mulher (e menina) pudesse exercer as suas escolhas (políticas, ideológicas, religiosas), ter acesso a educação e viver em sociedades livres de violência e discriminação.

Hoje, mais de um século e uma década depois das primeiras manifestações, numa sociedade em que as desigualdades se mantém – eu sei que melhorámos, afinal, já podemos votar, viajar sozinhas e, em algumas sociedades, ter (algum) poder sobre o nosso corpo –, esperam que “celebre” as conquistas e o lugar a que mulheres chegaram? Andamos há mais de 100 anos a tentar que homens e mulheres entendam que o género não deve definir os nossos direitos, o que ainda não conseguimos, e querem que me vista de cor-de-rosa e brinde a quão maravilhoso é ser Mulher? No dia em que abolirmos o Dia Internacional da Mulher, por vivermos num mundo onde o mesmo não faz sentido, já que temos todos os mesmos direitos e condições, então sim, abrirei as garrafas de champagne e brindarei até ao nascer do sol!

  1. Flores, descontos e pastéis de nata:

Que atire a primeira pedra a mulher que nunca recebeu uma flor, um elogio, um desconto ou um bombom neste dia. Se em outros anos este acto já não me comovia, este ano, aceitar passivamente a flor com que a administração nos presenteou e trincar o pastel de nata, coberto de canela, que um colega nos ofereceu gerou-me mesmo alguma repulsa e muita indignação. Tanta, que aqui estou, a partilhá-la convosco.

Estes gestos, por muito que queiramos vê-los como sinais de reconhecimento, são sexistas, machistas e paternalistas, quer venham de homens ou de outras mulheres. Na sociedade ocidental “desenvolvida” em que vivemos, são estas atitudes encobertas e discretas que ajudam a perpetuar as desigualdades de género. Presentear as mulheres neste dia, é uma maneira de apagar o poder da história social e política que originou esta data; é uma forma de nos “subjugar” à posição submissa, frágil e fútil onde a sociedade nos quer colocar.

Compete a cada um de nós lutar contra estes comportamentos. Independentemente de sermos homens ou mulheres, de estarmos no topo ou na base da cadeia de comando de uma empresa, ou do papel que desempenhamos na sociedade, devemos estar atentos e (re)agir quando vemos alguma atitude discriminatória ou estereotipada (principalmente, estarmos atentos às nossas).

Por isso, no próximo dia 8 de março, vai comprar flores para oferecer às mulheres na sua vida ou, até lá, vai agir para que deixemos de ter uma data dedicada à desigualdade de género?

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Sobre o autor

Rita Viegas

Rita Viegas é uma millennial convicta, apaixonada por pessoas e deslumbrada pela comunicação. Atualmente é gestora de Projetos na OZ Energia, tendo sido anteriormente diretora de marketing da Eastbanc e desempenhado vários cargos em áreas de marketing e comunicação em... Ler Mais