Há muitos, muitos anos, quando me queixava de que há uma semana não falava com a minha Mãe porque não tinha tempo, levei uma resposta torta: “O problema não é falta de tempo, é falta de disponibilidade mental…”.

Não percebi, achei que quem me descompunha não percebia nada de nada e continuei a fazer tudo da mesma forma. Filhos, casa, emprego, marido, amigos, ginásio… e sempre o tempo a não chegar para falar com a minha Mãe tanto quanto queria.

Passaram uns anos e, de repente, a falta de disponibilidade mental voltou-me à memória:
A propósito da vida maluca que levamos e do comentário muitas vezes repetido “não tenho tempo para nada”;
A propósito do tempo que não dedicamos a tentar encontrar onde devemos mesmo usar o tempo que temos;
A propósito da falta de capacidade que temos para escolher o que é de facto importante, em vez de só pensarmos no que é imediato e urgente;
Mas, sobretudo, a propósito da loucura do Natal.

O advento começa quatro domingos antes do Natal (este ano a 3 de dezembro):
E é nesse dia que começa a época do Natal para aqueles para quem o Natal tem sentido religioso;
É nesse dia que os cristãos se começam a preparar para o nascimento de Jesus, de forma mais consistente;
E era também nesse dia que se começava a decorar as casas e lojas, que se acendiam as luzes de Natal nas ruas e que se pensava de forma mais presente no Natal – que tinha, para todos, crentes e não crentes, um significado especial de solidariedade, família e partilha.

Agora assisto estupefacta a um espetáculo de Natal que não reconheço:
Cidades iluminadas e decoradas já em outubro;
Jantares de Natal que se multiplicam, já em novembro – por vezes com pessoas de quem até não estamos muito perto – e nos entopem a agenda, se a todos aderirmos;
Esquemas de troca anónima de presentes – sem que consiga perceber a lógica de comprar um presente sem saber a quem se destina;
Lojas cheias de pessoas apressadas e maldispostas, com listas intermináveis de presentes que precisam de “despachar” (palavra horrível para descrever a oferta de alguma coisa a alguém!…);
Eventos atrás de eventos com o objetivo de recolher fundos ou donativos para as mais diversas causas, muitos sem esforço de outro envolvimento que não a contribuição monetária ou equivalente de quem neles é desafiado a participar;
E muitas mais loucuras … todas atafulhadas e atabalhoadas, num tempo que devia ser de calma e de paz!

No meio desta confusão, temos sempre presente um queixume: esta altura do ano é horrível, não temos tempo para nada, estou estoirado e ainda faltam duas semanas para o Natal, …
Fica por isso a pergunta: será mesmo que não temos tempo… ou será que não temos disponibilidade mental para o que é importante?

Quando nos passa à frente algo de verdadeiramente marcante – uma doença de alguém que nos é próximo, um pedido de ajuda a que não podemos virar as costas, uma causa por que nos apaixonamos, um desafio profissional irresistível – o tempo aparece para fazermos aquilo que temos ou queremos mesmo fazer, certo?
Será que é preciso acontecer alguma coisa, para pararmos e pensarmos no que estamos a fazer?

Se conseguirmos tomar um bocadinho de distância do frenesim em que caímos, conseguiremos ver melhor as armadilhas em que estamos a cair e poderemos lutar para fugir delas.
E o tempo aparece para o que é importante, porque já temos disponibilidade mental para fazer as nossas escolhas!

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Sobre o autor

Maria do Rosário Pinto Correia

Maria do Rosário Pinto Correia é regente da disciplina de Marketing in The New Era (licenciatura em Business Management) na CLSBE. Coordena, ainda, 3 programas de Executive Education - PGV - Programa de Gestão de Vendas, EI - Estratégias de... Ler Mais