Na empresa onde fiz a minha tese de doutoramento, assisti a duas situações muito diferentes, mas ao mesmo tempo muito parecidas.

A primeira situação aconteceu numa reunião entre os chefes das equipas e a Teresa, que era diretora do call center que estudei. Nessa reunião, a diretora disse que tinha decidido despedir três pessoas. Uma dessas pessoas era o Manuel, que trabalhava na equipa da Carmen. A Carmen ficou triste quando soube que o Manuel ia ser despedido, especialmente porque o Manuel era um dos melhores amigos da Carmen. A diretora do call center proibiu a Carmen de dizer o que quer que fosse ao Manuel. Os despedimentos só iam acontecer dali a dois meses e, até lá, era preciso que o Manuel continuasse a dar o máximo.

O que é que você fazia, se fosse a Carmen? Contava ou não contava?

Eu não contava. No dia em que a Carmen aceitou ser chefe do Manel, também aceitou que podia ouvir numa reunião o que tinha ouvido nesse dia – e, mesmo assim, ter que respeitar a confidencialidade das decisões que se tomam nessas reuniões.

A segunda situação aconteceu noutra reunião, num dia logo de manhã. Na reunião, estavam o Joaquim (que também era chefe de uma equipa lá no call center), a Carmen e a Teresa (a diretora do call center). O Joaquim contou-me que a Carmen aproveitou a reunião para dizer mal do Pedro, que também trabalhava no call center. A Carmen contou à Teresa uma versão exagerada de alguns dos problemas que o Pedro tinha tido com as pessoas da equipa dele. A Carmen acabou com a típica frase da treta de preocupação com a empresa, com que se disfarça uma facada nas costas: “tenho medo de que o Pedro esteja a prejudicar os resultados da equipa…

O Joaquim perguntou-me se devia avisar o Pedro. É que o Joaquim e o Pedro eram amigos. E a conversinha da Carmen com a Teresa era muito perigosa.

“Claro que sim!”

Claro que sim, porque manobras políticas como a que a Carmen tentou fazer até podem fazer parte do dia-a-dia dos líderes, mas não são atos de liderança. São atos de cobardia de quem não se consegue afirmar pelo mérito.

Os líderes podem ter que assistir a politiquice. Podem até não ter a coragem suficiente para a enfrentar, porque têm medo de perder o emprego. Porque ser gestor é mesmo assim. Porque é esse o jogo que se joga. Mas não têm que ser cúmplices. Podem lutar contra a politiquice, com as mesmas armas que a politiquice usa. O segredo e a sugestão.

Mas, acima de tudo, acho que o Joaquim devia avisar o Pedro, porque são amigos. E nós somos primeiro seres humanos e só depois, muito depois, é que somos empregados, ou líderes, ou o que seja, lá na empresa.

E isto é importante. A amizade é importante. Não é só importante para as pessoas, mas também para as empresas. Porque, se não for a amizade, se não for o Joaquim a contar ao Pedro, então não há nada que pare a politiquice. E a politiquice não é só má para as pessoas decentes. Até é má para os acionistas. Porque a politiquice é o contrário da meritocracia. E as empresas não se aguentam muito tempo a fingir que têm bons resultados, quando, na verdade, são só truques de magia de pessoas que passam mais tempo a gerir a sua imagem, do que a liderar as suas pessoas.

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Sobre o autor

João Vieira da Cunha

João Vieira da Cunha é escritor. Utiliza uma variedade de meios para partilhar as suas ideias, desde as mais prestigiadas revistas científicas na área da gestão até uma conta rebelde no Twitter. É doutorado em Gestão, pela Sloan School of... Ler Mais