Depois de deixar a Universidade de Oxford, trabalhei em fusões e aquisições numa empresa de consultoria sediada em Londres e em Boston. Estive cinco anos neste ambiente acelerado e de pressão constante, antes de me mudar para Portugal e começar a desenvolver uma empresa de construção – o motivo que deu origem a esta mudança drástica é pessoal e seria preciso um livro inteiro para o conseguir explicar!

A minha primeira impressão sobre este novo país foi o tempo que se tem de despender a apertar mãos e beijar faces (frequentemente com a mesma pessoa durante o dia). Também descobri, para meu horror, que as pessoas me achavam rude, uma vez que não dizia “bom dia / boa tarde” a todas as pessoas com que me cruzava ao longo do dia.

De facto, o designer que trabalhava para um dos meus arquitetos, o Sr. Carlos, recusou reconhecer-me durante muito anos, uma vez que não o tinha saudado com um aperto de mão na primeira vez que nos tínhamos encontrado.

Pior ainda foi a gestora de conta do banco que tinha o futuro da minha empresa nas mãos, ter ficado muito aborrecida, porque não me dirigi a ela como “Doutora” – ambos os meus pais têm doutoramentos em medicina, mas insistem em serem tratados apenas pelo seu primeiro nome, pelo que chamar a uma gestora bancária “Dra…” me parecia algo muito estranho.

Claro que, 25 anos depois, já aprendi as nuances culturais de viver e trabalhar aqui, bem como a comer o meu prato preferido de bacalhau, ouvir fado e só beber uma “meia de leite” ao pequeno-almoço. Adoro este país e até me divirto com a maneira muito idiossincrática como aqui se faz negócio.

No entanto, se me deixassem mudar apenas uma coisa, seria a crescente burocracia que estrangula os negócios e mata a iniciativa.

Quando digo isto aos meus amigos portugueses, estes dizem-me que sempre foi assim, o que é verdade. No entanto, quando cheguei a Portugal, podia-se começar a construir um empreendimento sem licenças, caso o Presidente da Câmara concordasse – se ele confiasse em si e soubesse que legalizaria todas as questões num prazo razoável, aceitaria que começasse a construir –, pois este aceitava que o departamento técnico era lento ou ineficiente, mas que o pragmatismo deveria prevalecer.

Hoje as coisas são diferentes e todos têm medo. Há tantos inspetores (Finanças, ASAE, IMPIC, etc…) que, mesmo que seja fácil numa das entidades, a seguinte vai apanhá-lo.

Existem cada vez mais regras a cumprir – pergunte a qualquer pessoa que tenha um negócio de arrendamento (uma das áreas com mais dinamismo em Portugal é o turismo); estes são hoje forçados a recolher fotocópias de todos os passaportes de todos os arrendatários (incluindo bebés), preencher formulários e submetê-los ao SEF.

Como referiu o meu diretor inglês, este não é o trabalho do SEF (a entidade que controla as fronteiras que, como todos os serviços públicos, apenas trabalha 35 horas por semana e têm estado em greves consecutivas no último ano). Qualquer homem de negócios com quem fale, lhe dirá que as leis e regulamentos mudam quase todos os meses e têm a tendência para se tornarem mais complexos, e não menos.

Claro que ninguém pode criticar o governo, uma vez que o crescimento está nos 2,8% e o desemprego em 10%; de facto, apenas tem de se deslocar a Lisboa, onde o preço dos imóveis concorre com as grandes capitais europeias e que está a ser inundada de estrangeiros, para comprar as suas malas Armani e comer nos restaurantes com 2 estrelas Michelin. No entanto, assim que deixa a cidade, descobre que pouco mudou e que, na realidade, os preços são aqui mais ou menos os mesmos de há 10 anos atrás e que o investimento está nos valores mais baixos de sempre.

Uma pessoa inteligente disse um dia que há “mentiras, malditas mentiras e estatísticas”. Os políticos atuais de Portugal tornaram-se mestres da ilusão, das reviravoltas e das estatísticas.

Eles usam estes truques para dizer às pessoas que está tudo bem. Sem uma redução na burocracia, não há crescimento sustentável, porque um grande setor público destrói a iniciativa e esmaga o negócio.

Temos a mais baixa taxa de juros da história, custos energéticos baixos e um mundo amedrontado que faz de Portugal um destino seguro de referência. Trata-se da “perfect storm”, no bom sentido, mas temo que não vá durar, se gastarmos o nosso tempo a congratularmo-nos a nós próprios, em vez de fazer mudanças reais.

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Sobre o autor

Rajan Sahay

Rajan Sahay na Costa Leste da Índia. Ainda novo, mudou-se para o Reino Unido, onde frequentou um colégio interno. Seguiu-se a Universidade de Oxford, onde se licenciou em dois cursos. Em termos profissionais, Rajan começou como consultor de gestão na área de fusões e aquisições. Mais tarde, rumou a Boston onde fez consultadoria de Marketing empresarial a grandes nomes como a AT&T, a Bell Canada ou a NCR. Em Portugal... Ler Mais