Sofia Veríssimo é a única mulher Country Manager na multinacional holandesa TomTom. Assumiu recentemente o cargo para a Península Ibérica e falou ao Link to Leaders das expetativas que tem para as novas funções e dos desafios que a esperam.

Que desafios a esperam na direção ibérica da TomTom?
É um desafio muito gratificante que estou a abraçar. A principal missão e objetivo é atingir, da melhor forma possível, as metas que a companhia traçou para Espanha e Portugal. São mercados que à primeira vista são semelhantes, mas na realidade são muito diferentes, o que nos obriga a ter de conhecer muito bem os parceiros locais e a realidade do negócio. Depois, existem as barreiras da própria língua. É importante aprender a falar e a escrever bem espanhol para podermos comunicar com a equipa e com os parceiros de negócio. Isso é algo que em Espanha é muito valorizado. Adicionalmente, existem as questões culturais, nomeadamente o facto de ser um povo que protege muito tudo o que é seu.

Quais são os aspetos que distinguem os dois mercados de forma radical?
Em Espanha as pessoas procuram produtos diferentes, pelo que conseguimos vender equipamentos com um preço um pouco mais alto do que em Portugal, apesar de não ser uma diferença muito grande.

Tem a ver com o nível de vida?
Possivelmente tem a ver com um poder de compra diferente, sim. Depois também há diferenças ao nível dos parceiros. Há muitas cadeias que não estão em Portugal e que operam de forma diferente daquilo que estamos habituados. A própria postura perante o parceiro é diferente. A forma de lidar com o dia-a-dia do negócio é díspar. Nem tudo funciona da mesma forma.

Em termos de produto, qual o ex-libris de vendas em Espanha e em Portugal?
Em Espanha é o TomTom GO 520, que é um equipamento de navegação acima dos 200 euros. Em Portugal, também é um produto bastante procurado, mas normalmente não está no top, enquanto que em Espanha está sempre. O equipamento de navegação mais vendido em Portugal está abaixo dos 200 euros.

Os produtos são vendidos em que rede de parceiros?
Vendemos em toda a eletrónica de consumo, nos retalhistas, também em parceiros online e em lojas de desporto. São estes essencialmente os grandes canais.

Qual tem sido a vossa política de renovação dos produtos que colocam à venda. Estamos a falar de upgrades ou de produtos novos?
A inovação é desde sempre um pilar importantíssimo na TomTom. E, para além disso, a excelência na qualidade dos produtos que é algo de que realmente me orgulho muito. Fazemos upgrade aos equipamentos porque, muitas vezes, há inovações tecnológicas que surgem para produtos já existentes. Mas, na maioria das vezes, trata-se de desenvolvimento de produtos novos.

A tecnologia é desenvolvida no grupo ou por parceiros?
Temos uma grande equipa de inovação a fazer um ótimo trabalho no desenvolvimento de novos produtos e tecnologias. Está sediada na Holanda, país de onde a empresa é originária.

Há envolvimento de equipas portuguesas nesse processo?
A empresa é holandesa, mas temos muitas pessoas de diferentes nacionalidades a trabalhar connosco. Na Holanda existem também portugueses a trabalhar na equipa. Este é um aspeto que diferencia muito a TomTom: a diversidade de culturas e de nacionalidades que constituem a empresa. Há uma grande preocupação de fazer equipas multiculturais e multidisciplinares.

Para além da inovação, quais são os restantes pilares base da empresa?
Inovação e qualidade, sem dúvida. Mas também são muito importantes as parcerias estratégicas que desenvolvemos e as relações excelentes que temos com os parceiros. E depois as próprias equipas, que valorizamos muito. Ter a equipa certa, que esteja motivada e com a energia adequada para fazer o seu melhor. Estes são os principais pilares.

Quantas pessoas tem atualmente a sua equipa da Península Ibérica?
Somos nove. A empresa acaba por ter equipas locais pequenas, muito focadas em marketing e vendas. E os serviços como recursos humanos, departamento financeiro ou logístico, estão sediados na Holanda.

Está na empresa há quase 11 anos. Quais têm sido as principais diferenças que notou no mercado ao longo destes anos?
Tenho sentido que as pessoas valorizam cada vez mais produtos conectados, que permitam, por exemplo, fazer uma atualização de software ou de um mapa via Wi-Fi. É algo que realmente facilita o dia-a-dia. Todos temos vidas muito agitadas e tudo o que permitir uma atualização mais ágil e rápida é muito valorizado.
Na TomTom em si, houve também uma evolução muito grande ao longo destes anos, quer a nível dos produtos – se olharmos para os produtos lançados há 10 anos não têm nada a ver com os de agora -, quer em termos de design e de tecnologia.
Também temos conseguido cada vez mais aumentar a nossa quota de mercado. Somos líderes desde sempre, mas ano após ano, temos consolidado essa posição e conseguido destacar-nos da concorrência.
Uma coisa que também se sentiu nestes 10 anos é que, na altura, havia cerca de seis marcas no mercado português e hoje em dia só existem duas. As marcas que trouxeram inovação e mais qualidade, e em que o cliente reconhece valor, foram as marcas que conseguiram vingar e permanecer no mercado até hoje. Da nossa parte, conseguimos consolidar a nossa liderança e o nosso brand awareness em Portugal. Atualmente, a TomTom é uma marca conhecida por toda a gente.

O consumidor de hoje é mais exigente?
É um consumidor mais informado, com acesso a informação que não tinha há 10 anos. Hoje em dia, em poucos segundos estamos a pesquisar no nosso smartphone. Por isso, é um cliente com necessidades diferentes, que tem a informação na palma da mão, de forma muito mais rápida.

Estão a planear algum lançamento este ano?
No primeiro semestre vamos lançar três gamas novas, e no segundo semestre teremos com certeza também novidades. Os lançamentos realizam-se na mesma data em toda a Europa. Desde sempre que a empresa faz isso. Acho que é fantástico podermos estar a lançar um produto em Portugal, ao mesmo tempo que em Inglaterra ou em França, por exemplo.

São produtos novos ou upgrades?
Dois deles são inovações e o terceiro é um upgrade. Uma das novidades destina-se a um público-alvo diferente, que no passado não trabalhámos e que nos está a entusiasmar muito. É um produto muito interessante que nos vai permitir trabalhar um mercado díspar e ir ao encontro de outro tipo de cliente. Vamos lançar também um sistema navegação para automóvel, que traz inovações em termos de tecnologia face à gama anterior. O terceiro é para motociclistas e é uma atualização do equipamento já existente.

Quais são, neste momento, os segmentos mais impactantes no negócio da empresa?
Na área de consumo, sem dúvida, que são os sistemas de navegação para automóveis. Muitos serão clientes profissionais. Nós temos um aspeto interessante, sobretudo ao nível da Península Ibérica – os mercados da Europa do Norte não são tão bem-sucedidos como o Sul neste ponto –  que é um produto para camionistas, que é muito valorizado. É realmente um produto muito bem-sucedido. Não é barato, tem um preço médio/alto, mas está sempre nos nossos tops de vendas, pois traz muito valor acrescentado aos camionistas. Por exemplo, podem colocar a dimensão do camião no GPS e, a partir daí, o equipamento só lhes vai indicar estradas onde pode passar, os pontos de interesse ao longo do percurso ou mesmo onde podem pernoitar. Tem realmente conteúdos que são muito valorizados para quem anda na estrada com um veículo de grandes dimensões. Por isso, esse é também um segmento que tem um peso interessante no nosso negócio.

Falou da questão dos mapas… como acompanham as mudanças nas estradas, as alterações de rotas?
Além da equipa na Holanda, temos equipas no terreno em vários países para acompanharem o que vai mudando. Essas atualizações são diárias e disponibilizadas aos condutores de três em três meses, que recebem uma atualização diretamente no GPS.
Quatro vezes por ano lançamos um novo mapa. Hoje em dia, praticamente todos os nossos equipamentos têm mapas vitalícios, de forma gratuita. Por isso, quem compra um equipamento vai tê-lo atualizado durante toda a vida útil do mesmo. Bem como ao nível dos radares, que é algo também muito valorizado, pois permite evitar multas. Sempre que surge um novo radar, temos o cuidado de o atualizar na nossa base de dados de forma a que este seja disponibilizado logo na próxima versão de mapa, para que o condutor esteja sempre bem informado.
Depois temos também as informações de trânsito extremamente precisas e permanentemente actualizadas. O condutor sabe sempre como está o trânsito à sua frente e se deve ou não alterar a rota, de forma a chegar mais rapidamente ao destino final. Hoje em dia, já não se trata só chegar de A a B, porque não conhecemos caminho. Trata-se de chegar mais rápido e de uma forma tranquila.

O que está a prever nos próximos 10 anos em termos de crescimento desta área, do impacto em Portugal e em Espanha?
A empresa está muito focada em procurar novos negócios e em afirmar-se em áreas que julgamos que nos próximos 10 anos vão ser referência. A TomTom foi responsável pelo desenvolvimento do primeiro equipamento de navegação, uma das invenções mais influentes de sempre. Desde essa altura, evoluímos de uma start-up para uma empresa global de tecnologia. Desenhamos e desenvolvemos produtos de navegação inovadores, software e serviços que são a base de centenas de milhões de aplicações em todo o mundo. Hoje em dia os serviços e software representam 60% da companhia. Combinando a nossa própria expertise em I&D com parcerias tecnológicas e de negócio, continuamos a moldar o futuro, liderando o caminho na condução autónoma. Para nós é uma área fulcral e à qual estamos a dar um grande foco. Somos experts em navegação e se uma marca automóvel está a desenvolver um carro autónomo vai precisar, sem dúvida, de um mapa que seja exemplar e de uma navegação de excelência. E depois, estamos a trabalhar temas como as smart mobilities e as smart cities: cidades onde as pessoas possam movimentar-se da forma mais fluída e fácil possível. Ou seja, a ideia de que as cidades se possam organizar de forma a conseguirem ter as melhores redes de acesso possível e que o trânsito consiga ser melhorado no futuro. Estes são temas em que estamos focados e acredito que nos próximos 10 anos vão ser áreas onde a TomTom vai estar bem implementada.

Vamos ter mais um concorrente nesta área da automação?
Já estamos muito bem implementados na parte automóvel. Temos uma área de negócio e uma equipa que trabalha tudo o que são os sistemas de navegação integrados nos automóveis. Há muitos anos que trabalhamos com várias marcas, em parceria com as suas equipas de desenvolvimento de produto, de forma a desenvolvermos o melhor sistema de navegação e multimédia adequado a cada automóvel.

Como é que a sua visão enquanto mulher ajuda a levar os negócios num caminho diferente?
Diria que não é o facto de ser mulher ou de ser homem. A forma de atuar depende da pessoa. Para mim é uma honra ser uma mulher no mercado de tecnologia, onde não há assim tantas mulheres a trabalhar. No entanto, julgo que as mulheres são habitualmente mais ponderadas e com mais sensibilidade a gerir os negócios.

Daqui a cinco anos o que gostava de ver concretizado com o seu cunho pessoal?
Na parte da condução autónoma, gostava que daqui a cinco anos a TomTom fosse uma empresa de referência nesta área e que eu pudesse dar o meu contributo no sucesso dessa implementação.

Respostas rápidas
O maior erro: Felizmente nunca tivemos erros graves, que impactassem o negócio.
A melhor ideia: Durante um campeonato de futebol, uma campanha que fizemos cruzada com televisores e que correu muito bem.
A maior lição: A perseverança. Não devemos desistir e aceitar um não à primeira.
A maior conquista: O facto de por diversas vezes, Portugal ter atingido a maior quota de mercado do mundo para a TomTom, nomeadamente acima da Holanda, que tem sempre uma quota de mercado muito alta.

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