A dimensão dos países parece ser um estorvo ao crescimento. É mais simples ver-se um país pequeno, homogéneo, a crescer depressa. A dimensão acrescenta complexidades humanas: de etnias, castas, línguas, religiões; de níveis de desenvolvimento, climas, tribalidade, instrução, etc. como é o caso da Índia, onde há diversos climas, aptidões dos solos, recursos naturais, etc.

Se há maturidade na convivência humana, definem-se e aceitam-se normas de conduta e de colaboração, para que pessoas, tribos, grupos étnicos e religiões professadas ganhem respeito e representatividade para procurar soluções para os problemas.

Como tudo na vida, tem de se aprender a gerir a complexidade e, entretanto, o ritmo de crescimento pode ser moderado até alcançar um estádio no qual a experiência ajudou a decantar o saber e o país começa a entrar num bom nível de rendimentos. Depois, tudo parece simplificar-se: há um sentido empreendedor difundido, onde não se desperdiça a experiência dos outros, que é enriquecedora da própria.

Angus Maddison recorda que, apesar das complexidades com que a região indiana sempre viveu e bem, a Europa era até ao século XVII mais pobre que a região da Índia. O britânico diz que, em 1700, a Índia produzia 27% da riqueza mundial e a Europa só 23%. Entende-se bem porque Vasco da Gama foi à toda a pressa à Índia….

Sunderland[1] escreve: “Quase todos os tipos de manufactura e produtos conhecidos no mundo civilizado –quase todo o tipo de criação da mente e mãos humanas, em qualquer parte, e louvados pela sua utilidade ou beleza – eram há muito feitos na Índia. A Índia era de longe ‘o maior espaço industrial e manufactureiro’, mais do que qualquer outro na Europa ou na Ásia”.

Já o historiador Will Durant [2], escreve ao passar por Bombaim o The case of India, onde denuncia, com imensa mágoa, a rapina inglesa: “A conquista britânica da Índia foi a invasão e a destruição de uma alta civilização por uma empresa comercial (a East India Company, britânica), absolutamente sem escrúpulos nem princípios, sem se importar com a arte, mas apenas a ganância de ganhar…”.

Isso foi a Índia, rica e saqueada! Para um país grande e complexo, com uma história de sucesso, é só uma questão de tempo para acordar e reencontrar-se com o seu passado brilhante no saber e no fazer, para dar a sua vitalidade à sua volta, vendendo e comprando, criando riqueza e trabalho…

O Centro Internacional de Desenvolvimento (CID) da Harvard School of Goverment fez um estudo através do qual definiu o Índice de Oportunidade na Complexidade (IOC). Este estudo mostra que os países que diversificaram a sua economia nos setores mais complexos, como a Índia e o Vietnam, são os que crescerão mais rapidamente na próxima década, ao tirarem partido da difusão desse saber por todo o país.

Espera-se que a Índia cresça  7,9% durante a próxima década e a China 4,9%. As economias asiáticas, que foram destruídas pela colonização e pós-colonização, serão o centro de gravidade do crescimento no futuro próximo. Algumas, em particular, a Índia e a China perder-se-ão em modas estéreis, de tipo soviético, reorganizando-se depois, formando e treinando a sua força de trabalho e metendo-se em cheio nos setores inteletualmente exigentes e complexos, por terem um escol de gente muito preparado. As exportações da Índia são muito variadas e de alto valor (IT, R&D, satélites, joalharia, produtos químicos, automóveis, eletrónica, iluminação LED, saúde, fármacos, turismo, etc.).

Para os seus níveis de rendimento atual, a Índia confunde os estudiosos por ter uma desproporcionada base de conhecimentos, superelevada, só localizável nos países muito mais ricos. O relatório do CID põe-na em 1º lugar, porque pior não lhe pode acontecer. Sobreviveu e recuperou do atrazo do colonialismo; além disso tem domínio nos mecanismos de difusão do saber pelo país todo, para fornecer mais produtos complexos e novos, em abundância.

 

[1] Jabez T. Sunderland, India in bondage: Her right to Freedom and a place among the great nations, New York: Lewis Copeland, 1929, p. 367.
[2] Will Durant, The Case for India, New York: Simon & Schuster, 1930, p.7.

* Professor da AESE-Business School e Dirigente da AAPI – Associação de Amizade Portugal-Índia

 

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Sobre o autor

Eugénio Viassa Monteiro

Eugénio Viassa Monteiro, cofundador e professor da AESE, é Visiting Professor da IESE-Universidad de Navarra, Espanha, do Instituto Internacional San Telmo, Seville, Espanha, e do Instituto Internacional Bravo Murillo, Ilhas Canárias, Espanha. É autor do livro “O Despertar da India”,... Ler Mais