O Dr. Venkataswami (ou Dr. V, para simplificar), médico oftalmólogo, ao reformar-se do hospital público, aos 58 anos, começa uma pequena clínica com 11 camas, para cuidados da visão, com operações às cataratas.

Cria logo a seguir outra clínica de 30 camas para pessoas que não podem pagar. A qualidade do serviço é a mesma, para os que pagam ou não, variando as instalações e refeições.

O chamado Aravind Eye Care System foi crescendo e conta hoje com seis grandes hospitais, no Estado de Tamil Nadu, no Sudeste da Índia. Atende mais de dois milhões de pacientes por ano e faz mais de 280 mil cirurgias. De facto, só 40% dos pacientes pagam a sua conta. Mesmo assim, a exploração é equilibrada, com superávit, que dá para modernizar os hospitais e métodos de trabalho com a aquisição de tecnologias de ponta. Para além dos 6 hospitais e mais de 60 centros de visão, para consultas, em funcionamento, estão projetados mais dois novos hospitais.

Ao dar-se conta, quando se reformava do seu trabalho no hospital público de Madurai, que a Índia tinha 10 milhões de cegos devido às cataratas, cegueira essa curável, com uma intervenção cirúrgica de menos de 20 minutos, com a substituição do cristalino opacizado por uma lente artificial que restaura a visão, o Dr. V. decide instalar uma pequena clínica. Convida então a sua irmã, Natchiar, e o cunhado a trabalharem com ele, pois ambos eram médicos e cirurgiões dos olhos. Vê que a clínica vai bem e instala outra para pessoas que não podem pagar, com 30 camas. Depressa pede um empréstimo bancário, para construir um hospital de raiz. E na sucessão vai pondo mais hospitais…

Ao serem só 40% a pagar, tem de tornar o conjunto muito eficiente. Consegue isso ao ter cada médico que opera, ajudado por quatro enfermeiras: duas assistem-no na cirurgia e depois completam as indicações e finalizam a ação sobre o doente. Entretanto, as outras duas prepararam o próximo doente com as anestesias locais e o dilatador da pupila, de modo que o médico apenas desloca o microscópio e tranquilamente inicia a outra operação…e assim sucessivamente.

Consegue-se aqui uma elevada produtividade do trabalho do médico, a ponto de a média das operações às cataratas nos hospitais Aravind ser de duas mil por ano e por médico, além dos outros trabalhos de consulta, quando a média da Índia é de 220 operações.

Quando se trabalha a sério, com dedicação, querendo chegar a todos os necessitados, aparecem dificuldades, uma após outra, que o Dr. V. ultrapassa com sentido desportivo, certa dose de imaginação e pondo outros a pensar.

Apesar de ser um serviço gratuito para os pobres, eles não apareciam. É que a dificuldade de deslocação e o ter de vir com outra pessoa que saiba onde é o hospital, faz que essa pessoa acompanhante perca um dia de trabalho. Para ultrapassar isso, cria “campos de olhos” ou eye-camps, que os pequenos empresários locais organizam, anunciam e encontram local onde rastrear os males da visão dos que afluem.

O Aravind vem com o pessoal especializado e os médicos, para dar a solução a cada um: óculos graduados, colírios, etc., e os que devam ser operados são levados ao hospital e operados nos dias seguintes. Depois são devolvidos ao local do campo, quando estão bem. Fazem-se atualmente mais de 1500 eye-camps por ano, em média um campo por hospital, por dia!

Um médico ao fazer muitas cirurgias por dia não comete mais erros? Pode, se está distraído. Mas se faz com atenção, mais operações significam mais treino, melhores operações! E, por isso mesmo, as complicações pós-operatórias no Aravind são em percentagem inferior ao que acontece nos melhores hospitais de Londres.

As lentes intraoculares eram importadas dos EUA e eram muito caras, na ordem dos $200 cada uma. Isso tornava proibitivo o seu uso, para as muitas operações que se faziam; a operação em si não custaria mais de $30 dólares ao Aravind. Na altura, o Dr. V. desloca-se aos EUA para a Fundação SEVA, ligada à cegueira, para saber se haveria um “empreendedor social” que quisesse pôr o seu dinheiro para adquirir tecnologia e fabricar lentes no Aravind. De facto há um que se dispõe e hoje o Aurolab fabrica mais de um milhão de lentes por ano. Os hospitais Aravind utilizam as que precisa e as restantes vendem-nas, ao preço de custo (~$5/cada), às ONG, charities, etc.

Também havia falta de enfermeiras, pois são atraídas pelos EUA e pelo Reino Unido. Mas o Dr. V. não fica de braços cruzados: recruta todos os anos mais de 100 raparigas das zonas próximas dos hospitais para depois as formar para diversas ocupações técnicas e de enfermagem necessárias.

A actividade do Aravind não se restringe só à India. Centenas de médicos frequentam seminários em Madurai, para aprender os métodos e organização do Aravind, para tratar com grandes fluxos de doentes, nas suas terras. Também o Aravind tem vindo a dar consultadoria aos departamentos de oftalmologia dos hospitais de muitos países, mais de 250, para os reorganizar e treinar os seus médicos para obterem a eficiência dos hospitais Aravind.

A Fundação Champalimaud anunciou em 2006 a criação de um prémio de um milhão de euros, a ser concedido alternadamente às Instituições que tivessem aliviado os sofrimentos da deficiência de visão e a quem tivesse contribuído com a sua investigação para entender o processo de visão.

Logo no primeiro ano, em 2007, o prémio, decidido por um júri internacional, foi atribuído ao Aravind. Logo a seguir a Fundação Melinda e Bill Gates deram-lhe o prémio de $1 milhão, para a seguir a Fundação Conrad Hilton dar um prémio de 1,5 milhões de dólares ao Aravind.
Sem dúvida os 2.º e 3.º prémios só vêm depois do primeiro, que teve o mérito de descobrir e mostrar o valor da ideia e da prática que ajuda a ver a muitas pessoas que seriam dadas como inúteis, por não poderem ver.

 

*Professor da AESE-Business School; do IIM-Rohtak (Indian Institute of Management de Rohtak) e Dirigente da AAPI-Associação de Amizade Portugal-Índia.

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Sobre o autor

Eugénio Viassa Monteiro

Eugénio Viassa Monteiro, cofundador e professor da AESE, é Visiting Professor da IESE-Universidad de Navarra, Espanha, do Instituto Internacional San Telmo, Seville, Espanha, e do Instituto Internacional Bravo Murillo, Ilhas Canárias, Espanha. É autor do livro “O Despertar da India”,... Ler Mais