Yusuf Hamied, presidente dos Laboratórios Cipla, de Mumbai, convocou uma conferência de imprensa em Londres para anunciar que o ‘seu’ produto para a SIDA seria vendido por $350 a dose anual.

Choveram protestos e gritos de raiva das multinacionais… porque a Cipla “‘não fazia investigação”, etc. Na altura, em setembro de 2000, a Bristol-Myers Squibb e GlaxoSmitKline vendiam o ‘seu’ produto para a Sida, por cerca de $10.000 a dose anual (Cfr. Fortune, 25 de Junho de 2001, pág. 21) e outros a preços próximos. Foi este desafio que manifestou o exagero de preços, explorando o doente.

E pôs em destaque a maturidade e perícia das farmacêuticas indianas em produzir biosimilares e genéricos a preços ínfimos e com qualidade. Se nada valessem os produtos Cipla, ninguém protestava. Quase todos os produtos indianos, hoje, têm aprovação da FDA-Food and Drug Administration, norte-americana.

Para os países pobres, sem sistemas nacionais de saúde, nem remédios subsidiados, e para estratos pobres de países ricos, foi um alívio, pois os preços das multinacionais eram totalmente proibitivos!

Os resultados daquele confronto estão à vista: os países ricos consomem grande quantidade de genéricos produzidos por dezenas ou centenas de farmacêuticas indianas, ou estrangeiras instaladas na Índia, particularmente em Goa. E os países pobres fizeram da Índia a “sua farmácia”.

A indústria farmacêutica indiana. Genéricos e Inovações.
A indústria farmacêutica levou tempo a crescer. Mas tinha de fazê-lo, pois a profunda pobreza e miséria resultante da colonização inglesa e do “socialismo indiano” pós-independência, não permitiam pagar os remédios importados ou fabricados por laboratórios estrangeiros. O processo de produção foi-se desenvolvendo, com passos pequenos, primeiro, e de gigante, depois, ganhando confiança, isolando e fabricando os ‘princípios ativos’ dos diferentes fármacos. Nos tempos mais recentes, quando a indústria farmacêutica indiana já está a marcar uma posição relevante, a FDA norte-americana teve um papel de relevo, tanto pedagógico, como de ‘garantia’, certificando laboratórios e muitos dos seus genéricos, desenvolvidos, testados e aprovados. A certificação significa que o produto segue com rigor os procedimentos estabelecidas e pode ser vendido nos EUA. Isso é como um passaporte de circulação pelo mundo, podendo o cidadão aceder a bons fármacos a baixos preços.

Os fármacos indianos tiveram entrada rápida nos mercados pobres e, logo a seguir, nos ricos, sem comparticipações, pois a marca não acrescenta qualidades curativas. Quando um snobismo ainda prevalecia na Europa, a obrigação de informar, com o produto receitado, os diferentes genéricos do princípio ativo, e os respetivos preços de venda, fez acelerar a entrada de genéricos também na Europa.

Se o remédio não é acessível, para que serve?
Hamied foi o expoente dessa transformação, enfrentando as poderosas multinacionais que ditavam as sua leis e preços, sem a mínima atenção ao doente e à possibilidade de adquirir o remédio.

A escolha da SIDA para o embate com as multinacionais foi bem pensada e com impacto. Talvez, recordando Gandhi, ao desafiar os ingleses contra o imposto do sal a pagar ao colonizador, um ultraje que juntou os indianos em bloco na “marcha do sal”, engrossando-a dia a dia e levando os ingleses a atuar desesperados, com violência. Foi a machadada final que retirou a autoridade e pô-los “fora do jogo”, perante a iniquidade do imposto; da mesma forma que era o custo imoral do remédio para a SIDA.

Uma ideia secundária, mas importante, foi veiculada por Hamied: as multinacionais vendiam três produtos diferentes para a Sida, os três necessários, que o doente deveria tomar cada dia; as farmacêuticas ganhavam mais, assim. Hamied estudou a forma de pôr os três num só, não descurando a estabilidade e segurança na toma; com cada um deles na quantidade pré-fixada. Contribuía, assim, para reduzir o custo total e facilitava a toma dos três ingredientes na proporção correta.

Com o passar do tempo, o preço de $350 foi-se reduzindo – com o aumento de consumidores, que agora tinham acesso a ele -, para cerca de $0,20 por dia. Quando o custo unitário cai há mais necessitados que podem comprá-lo. As farmacêuticas, apesar de terem uma margem de lucro menor, por utente, recompõem o valor total do lucro com um maior número de utilizadores. É a economia de escala…

Hamied estudou em Bombaim, no St. Xavier College e fez o doutoramento no Christ’s College, Cambridge. Neste, criou-se, em 2009, o Yusuf Hamied Centre onde se descerrou o seu retrato em bronze, feito por um colega do Christ’s College. Dado o esforço por proporcionar remédios a todos, independentemente da riqueza, Hamied ficou conhecido como o Robin Hood moderno. Ele afirmou “não querer fazer dinheiro à custa das doenças que destroem a sociedade”.

Em Setembro de 2011, quando deixou de ser Chairman da Cipla, fundada pelo seu pai, o New York Times elogiou o modo como tentava reduzir radicalmente os custos dos remédios biotecnológicos para o cancro, diabetes e outras doenças não transmissíveis. O Dr. Yusuf K. Hamied “eletrificou a comunidade global da saúde, há dez anos, quando disse que ia produzir o remédio para a Sida por $1 por dia, ínfima fração do preço praticado pelas multinacionais. O seu preço foi mais tarde caíndo para $0,20 por dia, possibilitando a mais de seis milhões de doentes tomar o remédio, quando em 2001 mal alcançava 2.000”.

O seu papel no tratamento massivo da Sida em África ficou patente no documentário Fire in the Blood (2013), elucidativo da luta para dispor de fármacos para salvar vidas, sem pensar nos lucros.

 

* Professor da AESE-Business School e Dirigente da AAPI – Associação de Amizade Portugal-Índia

 

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Sobre o autor

Eugénio Viassa Monteiro

Eugénio Viassa Monteiro, cofundador e professor da AESE, é Visiting Professor da IESE-Universidad de Navarra, Espanha, do Instituto Internacional San Telmo, Seville, Espanha, e do Instituto Internacional Bravo Murillo, Ilhas Canárias, Espanha. É autor do livro “O Despertar da India”,... Ler Mais