Num recente relatório solicitado pelo Governo, a OCDE defendeu uma estratégia nacional para o conhecimento e a inovação.

A organização entende que faltam orientações claras, e de longo prazo, para uma verdadeira concertação entre os atores do sistema de ciência, tecnologia, inovação e ensino superior português.

A origem do problema está, para a OCDE, na ausência de uma política integrada para o sistema, em que não se faça a separação entre as atividades académicas e científicas e a transferência de conhecimento para as empresas. Sem essa política integrada, abre-se a porta à duplicação de esforços, à dispersão de investimentos, ao agravamento de custos, à adoção de medidas inconsequentes e ao desperdício de know-how.

Bem sei que muito se evoluiu em Portugal ao nível das políticas públicas de promoção da I&D, do investimento das empresas em inovação e da transferência de conhecimento para o tecido produtivo. Mas, sem uma estratégia concertada, os avanços que o país conheceu na ciência e tecnologia não têm a devida valorização económica. Ou seja, não se traduzem em patentes, protótipos, produtos ou tecnologias.

Para gizar uma estratégia nacional para o conhecimento e a inovação é necessário desde logo saber quem faz o quê. Ora não temos em Portugal um retrato fiel das atividades, competências e recursos dos atores do sistema de ciência, tecnologia, inovação e ensino superior. E sem esse retrato é difícil harmonizar políticas, concertar estratégias, gerar sinergias e partilhar recursos entre o meio académico-científico e o meio empresarial. Em suma, é preciso um conhecimento profundo de ambas as realidades para que uma estratégia nacional integrada possa vingar.

Por outro lado, a concertação torna-se mais difícil se empresas e instituições do ensino superior não definirem para si um determinado perfil de especialização. Quero com isto dizer que, de um lado e do outro, deve haver a capacidade para identificar o melhor interlocutor para as respetivas necessidades de conhecimento especializado. Se uma empresa procura na academia um parceiro científico e tecnológico, ou vice-versa, tem toda a vantagem em saber que determinada instituição se caracteriza por uma série de competências específicas.

Há ainda a questão da concretização no terreno da transferência de conhecimento. Parece-me não existir ainda a flexibilidade necessária para que os investigadores intervenham mais substantivamente na atividade das empresas, ao mesmo tempo que da parte das empresas o recrutamento de doutorados continua abaixo do desejável, apesar dos apoios públicos para esse fim. Tornam-se, pois, necessárias medidas que valorizem, nas carreiras académicas, o papel dos investigadores dentro das empresas. Por seu turno, um investigador deve beneficiar nas empresas de alguma liberdade para produzir conhecimento, não se limitando à resolução de problemas concretos.

Também me parece importante que os contratos-programa de I&D com as empresas visem não apenas a produção científica para proveito próprio, mas também a disponibilização de conhecimento para a economia no seu todo. As empresas funcionariam, assim, como verdadeiros laboratórios, onde cientistas e engenheiros teriam apoios contratualizados para, em conjunto, desenvolverem investigação aplicada que conduza à criação de novos produtos, processos, sistemas ou tecnologias.

Dito isto, importa ressalvar que o processo de valorização económica do conhecimento é enfraquecido pelos constrangimentos financeiros e burocráticos com que as universidades portuguesas se debatem. O subfinanciamento do ensino superior e da ciência, a precariedade de muitos dos nossos investigadores, o envelhecimento do corpo docente e a incapacidade de renovar equipamentos por parte das instituições têm, inevitavelmente, consequências negativas na transferência de conhecimento para o tecido empresarial.

*Associação Nacional de Jovens Empresários.

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Sobre o autor

Adelino Costa Matos

Adelino Costa Matos é Presidente da Direção Nacional da ANJE desde janeiro de 2017, tendo já integrado a Direção Nacional precedente (entre 2013 e 2017). É chairman e CEO da ASM Industries, sub-holding do grupo A. Silva Matos, criada precisamente com o intuito de diversificar a atividade do mesmo, por via da aposta no setor das energias renováveis. A ASM Industries exporta 95% da sua produção e tem como mercados... Ler Mais