Muitos têm sido os portugueses a receberem apoio da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD). Exemplo disso é o programa de empreendedorismo feminino “Connect To Success”. Ao Link To Leaders, Jorge Gabriel falou do futuro deste projeto e de outras iniciativas que vão realizar ao longo do ano.

A Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento é a nova casa do programa de apoio ao empreendedorismo feminino criado por Kim Sawyer, ex-embaixatriz dos Estados Unidos, o “Connect To Success”.

Este programa, que já apoiou centenas de portuguesas, não é o único promovido pela FLAD a favor do empreendedorismo. A fundação desenvolve também iniciativas ao nível de apoio à exportação e proporciona que os empreendedores nacionais tenham contacto direto com o sistema empreendedor norte-americano.

O Link To Leaders falou com Jorge Gabriel, administrador da FLAD, sobre os programas desenvolvidos e sobre o ecossistema empreendedor português.

O que é que a FLAD tem feito nos últimos anos para apoiar o empreendedorismo, especialmente de jovens fundadoras?
Temos um programa que inclui uma série de ações, o Connect To Success, uma iniciativa da ex-embaixatriz Kim Sawyer, que apoiamos desde o primeiro dia e que, quando esta regressou aos EUA, tivemos muito gosto em acolher. Neste momento a iniciativa está connosco, sendo que a Kim vai ser a sua diretora executiva do programa. É um programa que tem tido um impacto interessante e que tem tocado muitas empreendedoras. Não é fácil ser-se empreendedor. Talvez seja um bocadinho mais difícil ser-se empreendedora.

Temos estado envolvidos também num programa em conjunto com a Startup Braga, no âmbito do qual levamos um conjunto de empreendedores aos EUA. Fizemos a primeira edição há dois anos e no ano passado estivemos em Seattle e na Califórnia, em São Francisco. É sempre interessante porque são empresas jovens, umas já com investidores institucionais, outras ainda não, num estágio menos maduro. O objetivo é expor estes empreendedores a um ambiente muito maduro e exigente como é o ambiente americano.

Qual o balanço que faz?
O resultado destas missões foi que os empreendedores se sentiram de facto muito enriquecidos por serem confrontados com os vários atores deste ambiente, viverem experiências com outros empreendedores portugueses que estão nos Estados Unidos e ficarem a conhecer um pouco melhor a trajetória daquilo que é uma empresa que nasce e que vai ao mercado e que procura apoios.

Temos também uma iniciativa, cujo primeiro passo já se concretizou com o lançamento de um manual de apoio ao exportador, porque percebemos que a maior parte das empresas de menor dimensão sentem dificuldades em irem para os mercados estrangeiros,  nomeadamente para o mercado norte-americano, onde é difícil, em primeiro lugar, identificar qual o Estado a abordar, qual a rede de negócio que funciona, se há importadores, se há grossistas, como funciona o negócio, qual é o maior diferenciador para conseguir o negócio, e esse é o primeiro passo. Estamos agora a concretizar novas passos no sentido de apoiar os empreendedores.

O que precisa o governo português para fazer crescer o ecossistema empreendedor no país?
Acho que o governo não precisa de fazer muito mais. O empreendedorismo é por definição uma iniciativa privada. Os empreendedores privados acreditam que têm uma boa ideia e que podem fazer uma boa empresa a partir desta. Os investidores são privados ou devem ser privados. O Estado não tem a missão de se envolver nas empresas, não o deveria fazer. O que o governo pode fazer é criar condições para facilitar a vida aos investidores, aos intermediários, às entidades que trabalham no empreendedorismo, fomentando o empreendedorismo, aos empreendedores e, em última análise, às empresas. Diria que esse não é o ponto. Não gostaria de ter muito mais intervenção do governo. Gostaria é de ter muito mais investidores. Acho um mau princípio dizermos que é o governo que deve fazer as coisas. Nós é que temos de fazer as coisas e pedir ao governo que ajude no enquadramento nas questões legais.

É fácil ser-se empreendedor em Portugal?
Acho que neste momento Portugal é um país onde é relativamente fácil instalar uma empresa do ponto de vista burocrático, arranjar quem lhe trate da contabilidade é relativamente simples. Aquilo que é menos simples tem a ver com a própria essência do empreendedorismo. Temos de estar preparados para o facto de num ambiente de empreendedorismo morrerem muitas empresas, pelo que o empreendedor tem que ser resiliente, não se pode deixar vencer, quando falha uma vez tem que tentar uma segunda. Talvez o sistema bancário pudesse ter uma atitude diferente relativamente aos empreendedores. Não é necessário recorrer apenas a capitais próprios, e o empreendedorismo tem muito disso.

Portanto o sistema bancário deve ser um parceiro importante. Talvez os sistemas de incentivos, o Horizonte 2020, o Portugal 2020, possam ser mais rápidos na tomada de decisão relativamente aos projetos para investidores. Isso era uma medida absolutamente fantástica, que passasse a demorar pouco meses, em vez de muitos meses ou às vezes um ano. Isso era fantástico porque o empreendedor não se pode deixar arrastar, tem de ver rapidamente se tem negócio e, não tendo, de cessar essa atividade e de passar a trabalhar outra ideia diferente. Acho que este sistema em que a tomada de decisão relativamente aos apoios é muito lenta é muito nefasto para os empreendedores. Aí está uma coisa que o Estado podia fazer, acelerar o processo de decisão relativamente às candidaturas e aos apoios que se dão aos empreendedores.

Que conselho dá aos empreendedores que estão a começar a trabalhar as suas ideias?
Há duas ou três coisas que são importantes para os empreendedores. Primeiro, uma boa ideia não é um bom negócio. Segundo, mesmo quando uma boa ideia pode ser um bom negócio é necessária uma grande dose de resistência e de resiliência. O empreendedor tem que ser à prova de bala, tem que aceitar as dificuldades inerentes à criação do negócio, tem que ter uma enorme capacidade de persuasão, não só junto dos investidores, que nem sempre são necessários, até pode ser um negócio que careça de um investimento mínimo. Os negócios dos serviços muitas vezes não precisam de muito dinheiro numa fase inicial. Hoje em dia há muitas pessoas que são empurradas para serem empreendedores, mas um empreendedor tem de ser alguém que esteja disposta e disponível para perder, para correr mal e não desanimar.

É a história dos empreendedores de sucesso, ninguém acerta à primeira. É preciso ter esse espírito. Acho que no meio do empreendedorismo há um processo de seleção natural que vai eliminar aqueles que não são verdadeiros empreendedores. O teste é chegar uma empresa e oferecer um emprego ao empreendedor. Se este aceitar não há nada de mal nisso, mas não tinha a postura de um empreendedor, que não aceita e prefere acreditar na sua ideia mesmo em tempos difíceis até a fazer vingar. Esse tem espírito de empreendedor.

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