A liderar a Axians Portugal há um ano, o CEO Pedro Afonso fala do projeto, da estratégia de internacionalização da empresa a partir de Portugal e das dificuldades de recrutamento na área das TIC.

Sendo o vosso core business as TIC, quais as prioridades empresariais?
Começo por clarificar que vemos o mundo dos negócios no longo prazo. Qualquer exercício anual está ao serviço daquilo que queremos ser enquanto empresa, e isso materializa-se em planos de desenvolvimento para prazos de três a 10 anos. Acreditamos neste conceito de trabalhar para desenvolver operações “infinitas” no tempo, como, aliás, indica o tempo do nosso grupo. O ativo mais antigo ainda operacional na VINCI Enegies, data de 1735. Há quase 300 anos a reinventar-se. Daqui que o nosso papel é desenvolver pessoas que possam fazer perdurar no tempo a nossa capacidade de nos reinventarmos. Isto é tão importante, às vezes até mais, que os resultados do próximo trimestre.
Algumas empresas anunciam que vão recrutar 50, 100, 150 ou mais pessoas. Só em 2017 contratámos 119 pessoas. Neste ponto particular gostamos de mudar o tempo do verbo: fizemos acontecer. Quantas vamos contratar em 2018? Depende da evolução do negócio e das necessidades, mas posso adiantar que só em janeiro 15 novas pessoas integraram a equipa. O ritmo de novas admissões é bastante acelerado. Neste contexto, um dos fatores essenciais é garantir que a cultura da empresa – um dos nossos grandes ativos -, se consegue disseminar e manter em rota de desenvolvimento, mesmo com o constante crescimento das equipas.
Quando temos projetos a acontecer em diversos países do mundo, quer na Europa quer em África, e queremos deixar a nossa marca Human Touch, a cultura empresarial é um ponto estratégico e central.

A internacionalização é importante?
Acredito que em qualquer projeto empresarial que se desenvolva a partir de Portugal, a internacionalização é um ponto higiénico. O talento português é disponível e compete ao melhor nível do que existe no mundo. O nosso negócio para as instituições europeias e internacionais colecionou vários sucessos em 2017. Entrámos em cinco novos projetos de dimensão muito relevante, dois dos quais já em produção. No caso do cliente EUMETSAT, iniciámos os serviços em 2017, com um elevadíssimo nível de automação, e todo prestado a partir de Portugal. Competimos lá fora por elevado valor acrescentado. Não queremos ser baratos. Neste espaço, gostamos de competir quando a diferenciação é um fator crítico. Acrescento ainda que um dos fatores de sucesso a incorporar valor para a operação portuguesa e, por conseguinte, para Portugal, é o facto de ser a equipa portuguesa a liderar diretamente a atividade de desenvolvimento de negócio nestes clientes, bem como a implementação das suas operações.
A Axians Portugal serve ainda como braço de TIC para África no grupo, quer com operações locais com empresas constituídas, quer na implementação de projetos específicos em alguns países. Mas neste espaço temos, há muitos anos, portugueses com elevada experiência que conduzem estas operações de forma bastante autónoma. O grupo VINCI é também ele rico em oportunidades. Uma curiosidade: a Axians Portugal é fruto de uma dessas oportunidades.
Voltando às pessoas. Um dos desafios para qualquer empresa do setor é o recrutamento. Não há pessoas suficientes. A nossa forma de procurar os projetos com elevado valor acrescentado, com muita automação sempre que o nível de sofisticação do cliente o permita, é a nossa resposta a este drama da falta de talento. Vemos empresas a trazer para Portugal os centros de nearshore para vender horas a metro mais baratas. Isto vai originar, já no médio prazo, um problema de sustentabilidade no delivery do setor. Um dia surge um país mais competitivo, que venda horas mais baratas, e colocamos em causa a sustentabilidade do setor. Devemos resistir à tentação dos resultados fáceis do curto prazo.

Reforçar a liderança em Portugal é um objectivo?
Reforçámos fortemente as nossas equipas comerciais, aproveitando o momento positivo que se vive no país, como resultado de bons indicadores que vêm também de fora. Os próximos dois ou três anos vão ser favoráveis para a economia, mas é preciso trabalhar junto dos clientes para os ajudar a percorrer este caminho da digitalização dos seus negócios. Hoje um parceiro de TIC é aquele que vira uma organização do avesso. Para que seja eficaz, precisamos de ter pessoas que saibam do negócio do cliente, mas sobretudo que saibam como ajudar as pessoas do cliente a fazer essa viagem. E voltamos às pessoas. E muito importante: fazer alguma aquisição, se necessário, no nosso caminho de desenvolvimento. A VINCI Energies, rede onde se integra a Axians, adquiriu só em 2017, 34 empresas, maioritariamente na Europa. Este caminho das aquisições faz parte do nosso ADN, quer para crescer em países onde ainda não estamos, quer para desenvolver as operações dos países onde estamos presentes. Quase todas as aquisições foram ao serviço do desenvolvimento da estratégia nos países onde já estamos presentes.

Alguma área de especialização que marque a diferença?
Do lado da tecnologia, sublinho a cybersegurança, as plataformas de IoT, big data e analytics, com grande foco na utilização de “bots” para a automação dos nossos serviços e dos serviços dos clientes. Está adoptado por centenas de clientes nossos e a crescer a um ritmo muito rápido. O desafio será garantir que o interface “Pessoa-bot “mantenha o human touch que é desígnio da nossa marca.
O futuro da vida nas cidades e a mobilidade são também dois dos temas que estamos a endereçar. O Hybrid IT, em que o cliente compra o seu IT na Cloud e on-prem, interagindo com o nosso cockpit de gestão, é uma área em franco crescimento, mas é uma área já bastante madura para nós. Do lado dos setores de atividade, sublinho o caminho de reforço em alguns setores em desenvolvimento acelerado, como a área da Energia ou Indústria e Serviços, onde incluímos o Turismo. Os restantes setores que já trabalhávamos, como a Administração Pública, Banca, Seguros e Telecomunicações, têm também o seu desafio próprio de transformação. Historicamente, temos feito bem essa viagem com os clientes nestes mercados que nos são mais tradicionais.

Como é que a Axians se têm preparado para o desafio da transformação digital?
A Axians é uma marca ao serviço da transformação digital dos clientes. Neste contexto, damos o exemplo de como é trabalhar em rede num grupo com a dimensão do nosso… numa cultura altamente descentralizada – esta é que é a novidade! Mas pode pensar-se que o exemplo vem da adoção da tecnologia, uma vez que se fala da migração massiva para o digital. Também o é. Mas creio que o mais importante é estarmos a fazê-lo mantendo a cultura da empresa, mantendo os seus valores, mantendo o que faz a nossa rede viva todos os dias: o human touch. A digitalização tem de estar ao serviço dessa aproximação das pessoas. Temos várias histórias reais de pessoas e equipas que poderíamos contar, neste particular. Por exemplo, um conjunto de pessoas propôs-se lançar uma iniciativa a que chamaram “DNA Shakers” e que são os nossos valores mapeados em comportamentos e materializados em super-heróis. A ação consiste em qualquer colaborador poder dar a um colega uma carta com o super-herói que simboliza o comportamento que observou. Essa carta pode ser física ou digital. A equipa pensou inicialmente que a carta pudesse ser apenas digital, mas a carta física, neste caso, é um motivo de aproximação. O olhar “olhos nos olhos” é importante para que exista empatia. Mas acredito que, em breve, irão apenas existir as cartas digitais. A transformação digital é um tema de pessoas; a tecnologia é um detalhe.

As empresas portuguesas estão atentas a esta nova realidade digital?  Estão a conseguir acompanhar o ritmo?
Há ainda um longo caminho a percorrer. Hoje as empresas vêm e ouvem falar de digital todos os dias. Podem demorar a tomar decisões concretas, mas já temos bons casos de transformação para o digital. O ritmo da mudança podia sempre ser mais rápido, mas isso nem sempre depende da vontade dos decisores ou da tecnologia. Numa conferência, ouvi um orador falar sobre isto do ritmo da mudança. Para a digitalização ser efetiva e eficaz, a mudança de comportamentos e de formas de pensar, que têm consequências na forma de fazer, tem de acompanhar o ritmo da mudança. Ora o ritmo biológico de uma pessoa para a mudança nem sempre acompanha o da tecnologia e das decisões. Imagine-se, então, numa organização com muitas pessoas.

Tem sido fácil encontrar e recrutar especialistas em TIC no mercado nacional?
Este é um dos dramas do setor. A qualidade da formação em Portugal, ao nível técnico, é irrepreensível. O que falta é quantidade. A nossa forma de procurar os projetos com elevado valor acrescentado, com muita automação sempre que o nível de sofisticação do cliente o permita, é a nossa resposta a este tema da falta de talento. Vemos algumas empresas a trazer para Portugal  centros de nearshore para vender horas a metro, uma vez que os nossos custos são mais competitivos. Isto vai trazer, já no médio prazo, um problema de sustentabilidade no delivery do setor. Um dia aparece um país mais competitivo, que venda essas horas ainda mais baratas, e colocamos em causa o trabalho de anos. Estou seguro que devemos aproveitar a onda do momento de que o país está na moda, mas devemos pensar que tipo de setor TIC queremos ter daqui a 10 anos. Muitas multinacionais têm feito bem este caminho. Temos, no entanto, outros casos, até mesmo de empresas portuguesas, que estão apenas a “aviar” serviços. Devemos resistir à tentação dos resultados fáceis do curto prazo. Internacionalizar focados no outcome das necessidades dos clientes finais, é o caminho a trilhar no presente, para termos um setor TIC sustentável no futuro.

Como surgiu a marca Axians? Com que motivação?
A VINCI Energies é a área do grupo VINCI que se dedica às duas revoluções em curso no mundo: a transição energética e a transformação digital. São duas revoluções que estão a acontecer, em simultâneo, com impacto na forma como trabalhamos, como vivemos, e, sobretudo, como nos relacionamos. São temas transversais a todas as organizações e a todos os aspetos da nossa vida prática.
Em 2014, a VINCI Energies decidiu consolidar todas as suas operações de TIC numa plataforma, uma marca, para se tornar num dos principais players internacionais desta área. Após um trabalho com centenas de contribuições internacionais, entrevistas e workshops, nasceu a marca Axians, para unir 7000 colaboradores em 15 países. Hoje somos já 9000, espalhados por 22 países, com uma faturação consolidada de 2 mil milhões de euros. A motivação maior é estarmos com um grande sentido humanista, como é apanágio da VINCI Energies, no coração da transformação digital do mundo em que vivemos, servindo o nosso propósito que é construir valor de longo prazo para clientes, acionistas, colaboradores, parceiros, e para a sociedade em geral.

Quais os planos para Portugal da rede Axians, já que a empresa integra um grupo presente em 22 países?
O desenvolvimento da Axians passa pelo desenvolvimento em cada país do seu mercado, mas também pelo desenvolvimento internacional de cada operação, quando isso faz sentido. No caso de Portugal, a Axians nasceu logo com algumas operações internacionais integradas no seu perímetro. Quando falamos em operações internacionais, queremos dizer Portugal a internacionalizar. Num grupo como o nosso, há também muitas oportunidades que surgem dentro do próprio grupo para endereçar uma oportunidade específica num cliente. Aliás, antes de sermos Axians Portugal, conhecemos este grupo precisamente num cliente internacional. Agora reparamos que isso se repete para vários temas, porque a equipa portuguesa está dotada das melhores competências que podemos encontrar no setor em qualquer parte do mundo. E criámos uma cultura internacional já há alguns anos. Todos sabemos da disponibilidade que precisamos para abraçar desafios internacionais.Para Portugal estamos a trazer várias operações de TIC de clientes internacionais, em que a relação direta com o cliente é das equipas portuguesas. No nosso grupo gostamos pouco de intermediários, ou seja, se temos um cliente, por exemplo, na Holanda ou na Alemanha, e a competência está em Portugal, então Portugal captura todo o valor dessa oportunidade. Temos já vários casos concretos. É a forma que temos de usar a rede para internacionalizar com serviços de elevado valor acrescentado. Depois, Portugal está muito bem visto na nossa rede. Os resultados do primeiro ano, acompanhados de várias conquistas estratégicas, foram determinantes para a operação portuguesa ganhar a confiança do grupo. E exportamos o que de melhor temos: o desenvolvimento do talento.

Planeiam investir em que sectores?
Equipa, soluções/produtos, novas ferramentas de trabalho…

Além de Lisboa e Porto está na vossa estratégia avançar para outras regiões?
Em Portugal temos hoje três escritórios, dois em Lisboa e um no Porto. Um dos escritórios da zona da grande Lisboa é o nosso centro de Operações e Engenharia. Com o desenvolvimento da atividade, é provável que venhamos a ter outro numa outra cidade, até para usufruir do talento que existe também em outras zonas do país. Isso está na nossa agenda, mas temos tempo.

Depois de um ano à frente dos destinos da Axians como avalia, passado este tempo, o desafio que assumiu?
Encontrámos uma empresa com uma enorme consciência do seu impacto e com elevado sentido de responsabilidade no contributo para o desenvolvimento da sociedade. O que mais nos impressionou é o facto das decisões concretas terem por base valores muito fortes, presentes em tudo o que fazemos. Pessoalmente, acho este um dos fatores mais diferenciadores para um grupo desta dimensão. O nosso grupo está entre as 50 maiores empresas da Europa e as 210 maiores do mundo. A dimensão e longevidade que o grupo conquistou, foram conseguidas a partir de um enorme respeito pela identidade e autonomia das inúmeras equipas que a ele se foram juntando. Quer na proximidade da relação, quer na solidariedade entre as várias operações, há uma forma de viver que se sente todos os dias. Digamos que fomos muito bem recebidos. E também recebemos muito bem centenas de colegas internacionais.
Algumas vitórias que tivemos no primeiro ano foram também a prova de que a promessa afinal se concretiza. Isso trouxe algumas oportunidades a que, de outro modo, dificilmente teríamos acesso. Ganhámos o primeiro Hackaton VINCI Energies. Para além do acesso a clientes do grupo com a necessidade da solução vencedora, conseguimos ainda financiamento para investigação e desenvolvimento da solução até um estágio mais comercial. Depois, uma das nossas pessoas mais seniores foi escolhida pelo grupo para trabalhar em Paris diretamente na brand team. É a equipa que faz a cola da rede Axians, numa organização altamente descentralizada e com muita autonomia. É uma posição de gestão global. Entrámos com o pé-direito. Isso deve-se ao forte sentido de missão da equipa, que esteve ao mais alto nível. É uma equipa de luxo, de que me orgulho muito todos os dias. É muito gratificante o que as pessoas dão quando se sentem realizadas com o propósito do que estão a fazer.

Como gostaria de ver a empresa daqui a um ano?
Uma vez ouvi um cliente dizer: “Numa empresa está sempre muito por fazer,  é preciso é irmos andando no sentido certo e ir entregando alguns resultados.” Sinto exatamente isto, que estamos no sentido certo dos nossos clientes, do que o nosso grupo espera – em Portugal e para fora -, e que temos uma equipa verdadeiramente mobilizada e motivada para agarrar os desafios presentes, que terão impacto no futuro. Assim, gostaria apenas que a energia que estamos a investir nesta viagem seja alimentada pelos relacionamentos fortes que estamos a construir com clientes e parceiros, começando, é claro, dentro de casa. É assim que se constrói confiança. É assim que se obtêm as conquistas. É assim que nos realizamos e, no fim do dia, geramos e partilhamos valor com todos os stakeholders.

Respostas rápidas:
O maior risco: Deixar o Medo minar a Coragem que precisamos para tomar as decisões certas para o futuro.
O maior erro: Sucumbir à urgência dos resultados do imediato.
A melhor ideia: A empresa: como fórmula de organização económica e social para gerar valor (tangível e intangível) para uma comunidade, para a sociedade em geral; ouvi um orador numa conferência dizer: “ A única forma de criar emprego no mundo é através duma empresa: o emprego direto que ela cria, ou o emprego indireto, através dos seus impostos.”
A maior lição: Duma pessoa que muito estimo e prezo, que me disse num grande momento de transição de vida profissional: “Pedro, muitos Parabéns, mas lembra-te que “Os relacionamentos são mais importantes que as realizações!””
A maior conquista:
Pessoal: Ver os meus filhos crescer como Pessoas e fazerem-me perguntas difíceis.
Profissional: Ver Pessoas de equipas portuguesas que ajudámos a desenvolver  a crescerem e ocuparem papéis internacionais no nosso grupo.

Comentários