A Energiekontor está em Portugal desde 1995 e já implementou seis parques eólicos com 46 turbinas, num investimento total de cerca de 100 milhões de euros.

Fundada há 25 anos na Alemanha, a Energiekontor desenvolve diversas atividades na área da operação de parques eólicos e solares.

Atualmente, a empresa conta com um departamento dedicado ao desenvolvimento de protótipos de extensão de pás, o Rotor Blade Extension, que funciona como uma start-up dentro da Energiekontor e cujo desenvolvimento está alocado à equipa em Portugal.

O Link To Leaders falou com Raquel Salavessa, diretora do departamento Rotor Blade Extension da Energiekontor AG e gerente das empresas portuguesas do Grupo Energiekontor AG, para saber quais os projetos para o futuro da empresa em Portugal e no mundo.

O que é a Energiekontor?
Nos últimos 25 anos, o grupo Energiekontor AG tem feito um percurso sólido e sustentado na área das energias renováveis. Fundada em Bremerhaven em 1990, a empresa foi uma das pioneiras na indústria e agora é uma das principais empresas, no mercado alemão desta área de negócio. O core business da empresa abrange o planeamento, construção e gestão operacional de parques eólicos na Alemanha e no estrangeiro e foi expandido, para incluir a energia solar, em 2010. Além disso, a Energiekontor detém 33 parques eólicos, com uma potência nominal total de cerca de 269 MW e opera parques eólicos num total de cerca de 600MW.

Além da sua sede em Bremen, a Energiekontor também mantém escritórios em Bremerhaven, Hagen, Aachen, Bernau, Dortmund e Neubrandenburg. No estrangeiro, a Energiekontor tem subsidiárias na Inglaterra, Escócia, Holanda e Portugal. No total, a Energiekontor tem cerca de 180 colaboradores.

A nossa estratégia inclui uma expansão gradual e ponderada a outros países, nomeadamente França e EUA, a fim de desenvolver um potencial de crescimento adicional para os próximos anos. A empresa entrou em bolsa a 25 de Maio de 2000. A Energiekontor AG está cotada no segmento Frankfurt Stock Exchange e as ações da Energiekontor podem ser negociadas em todas as bolsas alemãs.

Qual o volume de negócios da Energiekontor no mundo?
160 milhões de euros (15 milhões euros de Portugal – 9%) anuais.

O que é que uma empresa de energia eólica alemã pode “ensinar” a Portugal e o que Portugal pode “ensinar” à Energiekontor?
Existem, naturalmente, diferenças culturais na forma como as empresas se organizam e são geridas, dependendo do país onde se localizam. A Energiekontor tem, em todas as suas filiais, uma forte predominância de cultura alemã, em termos estruturais. No entanto, tem existido, ao longo do tempo, capacidade de adaptação da organização da empresa ao país onde se insere. É esta extraordinária flexibilidade que tem permitido ao nosso grupo uma incursão de sucesso e sustentada em países estrangeiros. Também o facto de existir uma forte autonomia das regiões permite às sucursais estrangeiras gerirem o trabalho, de forma mais integrada com os valores culturais de cada país. Considero que existe um enriquecimento do grupo com este intercâmbio cultural entre os diversos países, no que diz respeito às diferentes formas de atuação. No entanto, os padrões culturais evoluem e considero que há hoje uma tendência clara de uniformização nas estruturas organizacionais, principalmente a nível europeu.

Como é que a Energiekontor consegue desenvolver soluções e adaptar-se a cada local e conseguir uma interação harmoniosa com o ambiente, a paisagem, a fauna e a flora?
Todos os projetos desenvolvidos na área das energias renováveis obrigam ao cumprimento legislativo respetivo, onde se inclui a questão da interação com o meio envolvente. A par das obrigações legais da empresa, a cultura vigente determina que se desenvolvam boas relações com as comunidades locais que acolhem os projetos, promovendo apoios sociais e estruturais, a nível regional. No que diz respeito a questões do ambiente em geral, existe um trabalho contínuo de cooperação com a Agência Portuguesa do Ambiente e com o Instituto da Conservação da Natureza, assim como associações dedicadas à proteção de determinadas espécies, no sentido de se monitorizar a atividade da fauna e flora e, com isso, promover ações de melhoramento nas condições de habitat, como plantar novas árvores, criar sementeiras, abrigos artificiais, etc.

Quantos parques estão, neste momento, em construção e os que estão adjudicados à Energiekontor?Está prevista a conclusão da construção e comissionamento de um total de cerca de 40MW em 2017, na Alemanha e Reino Unido.

Qual o investimento já feito pela Energiekontor em Portugal?
A Energiekontor está em Portugal desde 1995 e, desde então, implementou 6 parques eólicos, com um total de 46 turbinas, num investimento total de cerca de 100 milhões de euros.

O que tem sido feito para aumentar a produção anual de energia de um parque eólico no País?
O grupo Energiekontor AG desenvolve diversas atividades na área da operação de parques eólicos e solares, no sentido de melhorar a eficiência do funcionamento dos mesmos. Dentro destas atividades, incluem-se rigorosos planos de manutenção preventiva e preditiva, repowering e introdução de inovações. A Energiekontor disponibiliza-se frequentemente para que os seus parques sejam alvo de testes de protótipos, que visam melhorar a performance da turbina. Alguns destes protótipos são desenvolvidos por empresas terceiras, com as quais estabelecemos acordos de cooperação.

A Energiekontor tem também um departamento totalmente dedicado ao desenvolvimento de protótipos de extensão de pás –  Rotor Blade Extension – RBE. Esta RBE consiste no aumento do diâmetro do rotor, incrementando a quantidade de energia produzida. Esta RBE é patenteada pela Energiekontor e todo o seu desenvolvimento está alocado à equipa em Portugal. Temos, neste momento, dois produtos RBE para turbinas de platforma 1MW e 1.3MW, devidamente testados e certificados. Está em curso a instalação de extensão de pás nos parques detidos pela Energiekontor em Portugal, num total de 26 turbinas. Estão em curso também dois novos desenvolvimentos de protótipos de RBE para plataformas de 1.5MW e 2MW, cujos protótipos serão instalados e testados nos nossos parques na Alemanha, em 2017. O objetivo é incrementar a produção em cerca de 9,5%, num total de 40 turbinas detidas pela Energiekontor na Alemanha e Reino Unido, no decorrer de 2018.

Quais as diferenças entre o mercado energético português e o alemão?
Apesar das naturais diferenças organizacionais, o sistema é muito similar, até porque temos uma orientação europeia comum. As tendências são as mesmas, embora o ciclo económico em Portugal seja mais acelerado, devido a questões económicas. A redução das tarifas pagas pela energia produzida através de fontes renováveis só agora está em vigor na Alemanha, enquanto que em Portugal esse ajustamento à situação económica e maturidade da tecnologia teve lugar em 2009.

Casos de sucesso da Energiekontor…
Do trabalho desenvolvido até agora, temos 101 parques eólicos concluídos, com cerca de 580 turbinas e uma potência nominal total de mais de 840MW. Isto corresponde a um volume de investimento superior a 1.300 milhões de euros.

A criação de um departamento de R&D dedicado ao desenvolvimento de protótipos de extensão de pás – Rotor Blade Extension (RBE), visando o incremento da produção, é, sem dúvida, um grande passo na diversifcação do negócio e na melhoraria da performance dos nossos ativos. Este departamento funciona como uma start-up dentro da Energiekontor e pretende, com os produtos aí desenvolvidos, alcançar clientes a nível internacional. A par da estratégia de internacionalização do core business da Energiekontor, está também esta área de negócio que se pretende expandir a nível europeu e EUA.

A Alemanha já conseguiu ser líder mundial na energia eólica. O que está a ser feito para ter também a dianteira na energia solar?
Regista-se um decrescimento de instalações desta natureza desde 2013, na Alemanha. No final de 2015, verificaram-se 40GW instalados em toda a Alemanha. Este ano foram a concurso 400MW e, para 2017, está previsto um incremento de 300MW. Esta desaceleração deve-se à diretiva legislativa EEG – German Renewable Energy Sources Act, que entrou em vigor a 1 de janeiro de 2012, prevendo uma redução nas tarifas (remuneração pela energia produzida) para as instalações de energia solar. No entanto, e como se verificou na tecnologia eólica, o amadurecimento da tecnologia solar irá permitir preços mais acessíveis dos painéis solares, tornando os projetos economicamente viáveis, ainda que a preços de tarifa mais reduzidos.

Qual o futuro do negócio das energias renováveis em Portugal?
Portugal é um país com excelentes condições para a implementação de sistemas de produção de energia por fontes renováveis, tendo já uma razoável capacidade eólica instalada. Existe espaço para muito mais, podendo dotar Portugal como um país energeticamente independente, considerando obviamente a limitação gerada pela intermitência das fontes renováveis. Não havendo e não se prevendo haver, num futuro próximo, subsídios na produção de energia por fontes renováveis, as empresas e os mercados financeiros deverão adaptar-se a um novo modelo económico de negócio. Também as tecnologias aplicadas deverão atingir um estado de maturidade que permita preços compatíveis com os novos valores de remuneração. Creio que essa adaptação irá levar algum tempo, no caso de Portugal, pois exige que haja uma efetiva recuperação económica do país em geral e a restauração da confiança por parte dos investidores estrangeiros no nosso país.

Considera que Portugal é um país comprometido com o combate ao aquecimento global e com as energias renováveis?
Considero que Portugal está há muito comprometido com ambas as metas, a par com a maior parte dos países, e que, no passado, teve condições que lhe permitiram alcançar uma posição de relevo, no que diz respeito à produção de energia por fontes renováveis. Embora a situação económica atual não favoreça grandes investimentos em iniciativas que possam dar continuidade a essa posição, considero que existem boas perspetivas para o futuro, para que Portugal possa retomar esse caminho na convergência dessas metas.

Quais os projetos para o futuro da Energiekontor em Portugal e no mundo?
A Energiekontor AG está a desenvolver uma estratégia de internacionalização, prevendo-se a incursão em novos mercados durante o decorrer de 2017, nomeadamente EUA e França. Existem diversos projetos em diferentes fases de desenvolvimento, em curso neste momento para Alemanha e Reino Unido, num total de 1.000MW.

Como consegue gerir o tempo entre a Alemanha e Portugal?
O facto de trabalhar em dois países obriga a uma gestão mais otimizada do tempo, a um planeamento de atividades mais antecipado e detalhado, o que, na verdade, resulta numa maior organização do trabalho a desenvolver.

As tecnologias de comunicação resultam num facilitador dessa gestão, embora considere que o contacto pessoal é muito mais eficaz do que qualquer outro, mas a realidade obriga-nos a trade-offs. Outro desafio é conseguir criar um equilíbrio entre a vida profissional e pessoal, o que nem sempre é fácil, obrigando a uma apertada coordenação de agenda.

Sendo portuguesa, o que mais aprendeu com a cultura de uma empresa alemã?
As organizações que operam em vários mercados internacionais, têm que tomar em linha de conta o contexto cultural dos países onde atuam. Considero enriquecedor podermos trabalhar com pessoas de cultura diferente. O planeamento antecipado que permite uma melhor gestão do fluxo de trabalho, e a pontualidade são, sem dúvida, características culturais alemãs que considero serem uma mais-valia para um melhor desempenho.

Respostas rápidas:
O maior risco: 
A não realização dos projetos que temos em pipeline por não conseguirmos ser competitivos devido à conjuntura europeia que é a da baixa das tarifas.
O maior erro:  
Investimentos que não correram tão bem projetos que nem sequer vingaram. Não foram muitos, mas aconteceu.
A melhor ideia: 
Extensão da pá.
A maior lição que a Energiekontor pode ensinar: 
Persistência e apoio/ suporte por parte da direção e administração a tudo o que é inovador.
A maior conquista da Energiekontor
: 800MW construídos em 25 anosmais o sucesso de duas extensões de pá para duas plataformas diferentes.

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