Os professores Pedro Oliveira e Filipe Santos, coordenadores do Programa Avançado em Empreendedorismo e Gestão da Inovação da Católica, traçaram os objetivos da 15.ª edição deste programa de formação executiva com arranque agendado para 2 de março. Mais: passam em revista o estado do empreendedorismo nacional.

Como apresentam este programa?
Pedro Oliveira: O programa foi criado com o objetivo de fomentar a inovação e o empreendedorismo e de ajudar dois grupos distintos a tornarem-se mais inovadores e empreendedores. Desde todos aqueles que trabalham em empresas em áreas ligadas à inovação e desenvolvimento de novos produtos e que querem fomentar internamente um espírito mais inovador de modo a tornar a empresa mais inovadora. Este é um target importante deste programa. O outro público-alvo são as pessoas que, estando ou não ligadas a uma organização, querem tornar-se empreendedoras e criar o seu próprio negócio e que precisam de ferramentas para essa tarefa. O que é muito curioso é que, ao longo dos anos, constatamos que havia sempre mudanças de grupo. Posso dar um exemplo: tivemos pessoas que vieram de uma empresa e que quando acabaram o programa criaram uma empresa. E o contrário também acontece, pessoas que queriam tornar-se empreendedoras e que por causa da formação que tiveram enriqueceram o currículo e, quando acabaram o curso, conseguiram emprego numa empresa estabelecida. Tentamos dar às pessoas um conjunto de ferramentas importantes, para que estes gestores e empreendedores consigam fazer com sucesso esta caminhada até ao mercado.

Enquanto fundador do programa, qual foi a evolução mais significativa ao longo dos anos?
P.O.: Quando criámos o programa ainda ninguém falava de empreendedorismo, nem estava nada na moda. Aliás, uma pergunta que nos faziam eram se “o empreendedorismo e a capacidade de empreender pode ser ensinada…”. Hoje sabemos que o ambiente mudou. Toda a gente fala de empreendedorismo, temos o Web Summit… Há um estudo internacional, o Global Entrepreneurship Monitor, que avalia num conjunto de países a atitude das pessoas perante o empreendedorismo e Portugal era um dos países, juntamente com a Bulgária, em que havia uma atitude menos positiva. E isso está a mudar completamente, basta ver o que aconteceu em Portugal nos últimos dois ou três anos.
Podemos dizer que também tivemos a nossa quota-parte nessa mudança porque há 15 anos não havia mais nenhum programa de empreendedorismo. Ao longo dos anos, houve uma aceleração da quantidade de iniciativas, não apenas no PAEGI mas também na Católica. Hoje esta oferta é completamente transversal a todos os programas, desde a licenciatura aos mestrados e MBA. É natural que hoje haja muito mais atividade. Há 15 ou 16 anos, os nossos alunos de licenciatura queriam acabar o curso e arranjar emprego numa empresa bem estabelecida. Hoje querem ser empreendedores. A atitude mudou.

Em relação ao PAEGI, quais as áreas mais revelantes?
P.O.: Não consigo destacar uma em especial. Fizemos um programa em que tudo é imprescindível. É natural que para os diferentes participantes haja coisas mais interessantes que outras. Mas uma das coisas que fazemos, e que é bastante importante, é um plano de negócios. Por ventura para uma pessoa que quer ser empreendedor, e que até precisa de fazer um plano de negócios, esse módulo pode ser mais importante do que para outras pessoas. O programa tem uma lógica de conjunto. Eu e o Filipe Santos começamos o programa a falar de gestão de inovação e depois eu particularizo num tipo de inovação e o Filipe noutra. Não diria que haja uma área mais importante do que outra.

Filipe Santos: Creio que apesar de tudo há um mindset, uma estrutura lógica na forma como o PAEGI foi desenvolvido. Hoje em dia a inovação já está em todo o lado, mas exige uma atitude e um conjunto de abordagens diferentes das usadas na gestão do dia- a-dia. E é isso que tentamos colocar no programa.

Diferente em que aspetos?
F.S. : A inovação acontece quando um indivíduo se apercebe de certas falhas no mercado, de tendências, e consegue antecipar que vai haver uma oportunidade ou um gap que pode ser abordado. E, portanto, temos algumas sessões que ajudam os participantes a perceberam quais são as grandes tendências, quer a nível tecnológico quer ao nível da gestão dos desafios competitivos que as empresas podem enfrentar.
Depois há algum mindset que é essencial para os inovadores e empreendedores, como por exemplo, a orientação para o cliente, o marketing de novos produtos ou serviços. Como se pensa o marketing para algo que não existe? Como se financiam projetos que são inovadores e que não têm uma rendabilidade óbvia ou imediata? Que modelos de financiamento existem para os empreendedores e empresas poderem apostar na inovação? São respostas que procuramos dar.
E depois o programa tem peritos de nível mundial em certas áreas de inovação e, portanto, os participantes irão beneficiar também de uma visão única. A Católica-Lisbon tem competências únicas que traz para este programa, e, por isso, há módulos muito específicos que vão a fundo em certos tipos de inovação, como a inovação em plataformas abertas ou a inovação com impacto social. O conteúdo que os participantes recebem é único.

O PAEGI conjuga a vertente prática com a teórica. Como fizeram esse equilíbrio?
P.O.: Diria que a abordagem em quase todos os módulos é bastante prática. Por um lado, queremos dar conhecimento sólido, a que se calhar podíamos chamar de teoria, sobre as diferentes áreas, mas depois damos indicações de como o conhecimento pode ser utilizado na prática. Porque este tipo de participantes vem cá muito com essa lógica, as pessoas querem levar daqui ferramentas que possam aplicar no dia seguinte. Acho que o nível de satisfação das pessoas também tem muito a ver com isso, realmente o programa é prático. Têm mesmo de pôr a mão na massa e fazer um plano de negócios e aí estão a aplicar o conhecimento que trouxeram dos outros módulos.

F.S.: E até têm sessões de como estruturar e comunicar a sua ideia de negócio no âmbito do plano de negócios. E este ano vamos introduzir uma estrutura de mentoria após a conclusão do programa através do nosso Centro de Inovação Tecnológica e Empreendedorismo e da Cátedra de Empreendedorismo Social. Podemos prestar acompanhamento após o programa para os participantes que, nos meses seguintes, queiram continuar a desenvolver o seu projeto inovador, internamente à empresa ou como start-up. Gostaria também de salientar a diversidade dos participantes e das formas de abordar a inovação. Também temos pessoas que são da administração pública e que querem perceber como é que a lógica da inovação os pode ajudar. A partilha de experiências entre os participantes ao longo do curso é muito importante.

As pessoas que frequentam o programa já tem noção do que é o universo da inovação?
P.O.: Aparece um pouco de tudo. Para serem selecionados já são obviamente candidatos que nos impressionam e que têm uma enorme curiosidade para perceber mais, até porque há um grande investimento de tempo e dinheiro para fazer o curso. Basicamente é alguém que tem uma vontade intrínseca para investir em aprofundar o seu conhecimento e prática nesta área. Nos últimos anos, o empreendedorismo tornou-se um tema sexy e se as pessoas querem fazer uma start-up, independente ou ligada à sua empresa, nada melhor que perceberem que ferramentas e conhecimento existe sobre o tema que possa ajudá-las nessa tarefa. Temos pessoas com formações muito distintas, desde psicólogos a engenheiros, e isso também é muito rico porque as pessoas aprendem umas com as outras. E não só ganham porque se conhecem, mas também porque depois muitos acabam por colaborar com as pessoas que estiveram com eles na sala de aulas. Eu lembro-me sempre que na primeira edição nasceu uma grande empresa chamada By, pertencente atualmente à WYgroup, que fez logo os logótipos para outra grande empresa, que também nasceu ali, que foi a AnubisNetworks. E ao longo dos anos tem havido imensa colaboração.

Houve mais algum exemplo de sucesso saído do PAEGI?
P.O.: Há outros casos de empresas que nasceram no seio do programa, iniciativas tão diferentes como uma empresa que faz passeios de balões de ar quente no Alentejo, ou outra que faz pintura e limpeza exterior de prédios em suspensão.

Enquanto diretores do programa, qual é o sentido de missão cumprida quando terminam mais uma edição?
F.S
.: O ideal é que num programa como este as pessoas sintam que têm as ferramentas certas e os conhecimentos necessários, que têm rede, que percebem o processo de inovação e como ele se desenrola tanto nas empresas como nas start-ups. Se sentiram que isso é o que querem fazer, para nós o objetivo foi cumprido: empoderar, inspirar os participantes para que consigam realizar mais e melhor na sua vida.

P.O.: O programa não acaba verdadeiramente. Deixamos de nos encontrar regularmente, mas para os participantes é um projeto de vida. Para quem quer ser empreendedor não acaba ali. Pelo contrário começa ali. Dá-me imenso prazer ouvir pessoas a falar do impacto positivo que o programa teve nas suas vidas.

“Diria que há enorme potencial em muitos sectores das empresas portuguesas (…)”

Globalmente, como é que avaliam o mercado nacional nesta vertente do empreendedorismo?
F.S.: Às vezes associa-se muito a inovação à parte mais tecnológica, a esta vaga digital. É interessante e importante para Portugal mas é sempre um nicho que não irá ser necessariamente o motor da economia portuguesa. Apesar de ser importante e revelante, sobretudo, pela forma como se consegue trazer para Portugal centros de competência e grandes empresas multinacionais que veem Portugal como um país atrativo na área digital.
Mas se calhar fala-se muito da inovação na área digital e pouco sobre outro tipo de inovação que talvez seja mais estrutural na economia portuguesa. Temos excelentes exemplos de inovação em sectores muito tradicionais como o calçado, o têxtil ou a metalomecânica, que nos últimos 10 anos tiveram uma transformação surpreendente através da inovação. Por exemplo, hoje em dia o calçado é um sector líder em termos de criação e valor dos produtos. O par de calçado português exportado é o segundo mais valioso do mundo depois do italiano. Ou seja, já há marca, design e inovação em certas áreas. Como a cortiça, por exemplo, que tem tido imensa inovação, ou a área vinícola ou o retalho. Por exemplo, vemos os modelos de retalho nacional irem para fora. Ou seja, já há muitas áreas em Portugal em que os gestores estão de facto a abraçar a inovação. Diria que há enorme potencial em muitos sectores das empresas portuguesas e há também clusters que se estão a formar à volta dos principais polos de engenharia em Portugal. Estão a criar-se também hubs de inovação e empreendedorismo. Nesse sentido, tem sido feito um caminho muito interessante e que está a acelerar. Na minha opinião, a trajetória e o caminho estão corretos.

P.O.:  Concordo. E gostava de lhe dar um exemplo de uma empresa familiar que já existia, que passou pelo programa e que recebeu um enorme input, a Pelcor, uma empresa do sector da cortiça. Os sectores tradicionais são importantíssimos e têm sido também um dos nossos focos.

Então Portugal está no bom caminho da inovação e do empreendedorismo?
P.O.
: Acho que sim. A crise que vivemos foi devastadora em muitas dimensões mas foi importante para a inovação. Muitas vezes é nos períodos difíceis, em que a economia não está a correr bem do ponto de vista dos indicadores mais tradicionais, que muitas pessoas pensam em meter mãos à obra e fazer qualquer coisa de verdadeiramente diferente. Acho que esta onda de empreendedorismo que está a acontecer em Portugal, em grande parte, é também devida a estas necessidades. Os mais novos perceberam que já não há empregos garantidos para a vida. Quando nós acabámos a universidade a taxa de empregabilidade era de quase 100%.

F.S.:  E não havia menção à inovação e ao empreendedorismo no nosso curso. No final, ou íamos para o marketing de uma multinacional, para um banco, uma consultora ou para a Academia. Os cenários eram esses. Hoje em dia o panorama é diferente e ainda bem que o é. O desafio agora talvez seja fazer com que esta dinâmica de empreendedorismo não fique só nas start-ups e nas empresas mas se dissemine para a sociedade, nos nossos comportamentos como cidadãos, no nosso comportamento na economia social, na administração pública… Acho que a inovação, enquanto lógica de atuação, é algo importante para qualquer pessoa. Os cidadãos devem estar atentos, perceber onde há um gap e se há uma oportunidade de criar valor. Essa deve ser a lógica. Um programa como este, pelas sessões de discussão e partilha entre os participantes e professores, pode ajudar a mudar esse chip e a dar, de facto, as ferramentas para as pessoas conseguirem alavancar e implementarem com sucesso projetos novos.

Então a Católica está a fazer a sua quota-parte para dinamizar a inovação em Portugal, é isso?
F.S.: Sim. Não só na parte das licenciaturas e mestrados mas também nos próprios projetos de investigação que desenvolvemos, muito aplicados à prática. O Pedro Oliveira é um caso interno de empreendedor em série. Por exemplo, a plataforma de crowdfunding mais usada em Portugal, a PPL, foi cofundada pelo Pedro com alunos no programa do Lisbon MBA. Outro projeto do Pedro, o Patient Innovation, uma plataforma aberta de partilha de práticas médicas geradas pelos doentes e cuidadores, foi considerado a melhor start-up  non- profit do mundo pelas Nações Unidas na área médica. Temos também um cento de investigação à volta do tema das smart cities, o Smart City Innovation Lab.
E agora estamos a lançar um Centro de Inovação Tecnológica e Empreendedorismo para ser uma âncora de ligação à promoção do empreendedorismo, não só para os alunos da Católica mas também a todo ecossistema do empreendedorismo e inovação. No fundo, há que praticar tudo aquilo que defendemos. E essa prática também acrescenta muito à investigação e à teoria. A aliança entre o fazer e o pensar, e o desenhar as ferramentas certas é fundamental no próprio processo de inovação académica.

P.O.: Depois há uma dimensão particularmente interessante numa universidade como a nossa, que tem uma dimensão especial, católica, que é inovação que chamamos de social. Acrescenta muito valor mas esse valor muitas vezes não é medido em indicadores financeiros. O Filipe trabalha com projetos nesta área com muito impacto em Portugal e em países em via de desenvolvimento

F.S.: Criámos em 2016 uma Cátedra de Empreendedorismo Social que tem uma parceria com a Fundação Girl Move, um projeto criado em Portugal mas desenvolvido em Moçambique. Trata da questão da educação das mulheres, do empoderamento das jovens mulheres para continuarem a sua educação e quebrarem o ciclo da pobreza. Muitas vezes nas minhas aulas trago empreendedores sociais para apresentarem os seus projetos. Um deles criou uma escola de línguas que ajuda a integração dos refugiados o Speak. Nasceram em Leiria e já estão em Berlin e Turim a replicar o projeto. Há também o Fruta Feia, projeto de reaproveitamento de frutas e vegetais que evitam o desperdício, ou o EKUI, uma empreendedora que criou um sistema de ensino de para crianças com necessidades especiais… Em termos de empreendedorismo social há imensos exemplos. Hoje em dia há esta lógica de inovação em modelo aberto, que tem um enorme potencial de escala e de impacto a nível mundial. Esta é outra lógica que procuramos dar no programa: como se podem fazer crescer os projetos de inovação, quais os mecanismos de escalabilidade desses projetos e como, às vezes, com certas alavancas tecnológicas, se pode ajudar a dar esse impulso.

Comentários