A evolução tecnológica registada nas últimas décadas e que tem tornado o mundo cada vez mais digital tem induzido um processo de inovação crescentemente não linear em todas as áreas da inovação.

No seu famoso livro “Being digital”, Nicholas Negroponte já afirmava na década de 90 do século passado que a digitalização permitia que pequenas operações, pequenos países e pequenas economias tivessem acesso, nunca antes possível, a mercados e a fontes de capital.

O que se passa presentemente em África ao nível dos serviços financeiros e de pagamento é um exemplo claro desta nova realidade. A ausência de infraestruturas fixas de telecomunicações permitiu uma rápida disseminação de serviços de telecomunicações móveis, que conduziu à massificação da penetração dos telemóveis. O caráter digital destes equipamentos e das soluções de “software” conduziu a que a baixa bancarização desses países fosse suprida pelo desenvolvimento de soluções de transferência bancária e de pagamento através do terminal telefónico.

Assim, o “mobile money” encontrou soluções inovadoras e de vanguarda num continente que, à partida, estava no último lugar do desenvolvimento nestas matérias. A utilização das inovações tecnológicas tem permitido também encontrar soluções de resposta às necessidades de abastecimento energético descentralizado (associado à produção de energia fotovoltaica e eólica).

Da mesma forma, a inovação tecnológica não linear está a gerar uma nova área de negócios e de oportunidades em todas as matérias relativas à gestão das cidades. É muito provável que, a curto prazo, a infraestrutura de tecnologias de comunicação passe a ser tão standard como as canalizações de água e de gás, ou a rede de eletricidade e de televisão. Sistemas generalizados de gestão de consumos, de otimização de temperatura e de gestão inteligente da atividade de cada lar vão ser uma realidade. Tonar-se-á possível, por exemplo, estabelecer preços de mercado individualizados para o consumo de eletricidade, em função das necessidades específicas de cada lar.

Até hoje, a área da construção civil é das que adotou menos mecanismos de inovação na forma de gerir o espaço de uma casa. Se forem introduzidas todas as possibilidades tecnológicas já atualmente disponíveis, estima-se que uma cidade possa vir a ter reduções globais de 50% no consumo da energia. E os mesmos princípios aplicados à gestão do tráfego e até da criminalidade permitirão igualmente elevados ganhos de eficiência.

Todas estas tecnologias estão integradas no conceito presentemente designado por internet of things (IOT) que abrange muito mais matérias, mas que, inevitavelmente, será uma realidade a breve prazo (5 anos, ou talvez menos???). A Intel prevê que o negócio associado à IOT possa gerar diretamente 1,5 biliões de US$ e mais 2 biliões de US$ em serviços adicionais.

Todos estes desenvolvimentos têm um aspeto comum: o papel do empreendedorismo e das “start-ups” no desenvolvimento e desenho de novas soluções. Os empreendedores são – em qualquer parte do mundo – uma reserva de “brainware” e de agilidade única, que cada vez mais aliam a criatividade das suas iniciativas ao potencial económico dos mercados e à cada vez mais eficiente capacidade tecnológica disponível.

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Sobre o autor

Franquelim Alves

Franquelim Alves é Diretor-Geral da 3anglecapital, sociedade especializada em operações de M&A e serviços de “advisory” financeiro. Licenciado em economia, pelo ISEG, detém um MBA em Finanças pela Universidade Católica Portuguesa e o Advanced Management Program da Wharton School of... Ler Mais