Em outubro de 2014, numa apresentação feita na inauguração da Semana Mundial do Empreendedorismo, apresentei alguns dados sobre este fenómeno nos Estados Unidos.

De entre diversos factos interessantes relatados no estudo que baseou a apresentação, é oportuno realçar a forma como professores e políticos olham para os jovens empreendedores:

“Business professors celebrate the geniuses who break the rules and change the world and Politicians praise them as wealth creators”.

O poder político em Portugal, que se vangloria de receber uma Web Summit, que pomposamente anuncia a tentativa de trazer a Tesla para o nosso país e que muito gosta de se promover através dos nossos empreendedores, implementa, ao mesmo tempo, um sistema educativo totalmente contraditório às características de uma cultura empreendedora, apostando numa educação baseada na falta de exigência e facilitismo.

A vontade de agradar faz com que se esqueçam (ou, se calhar, não sabem mesmo) de que empreendedorismo é sinónimo de exigência, iniciativa, ambição, disciplina, responsabilidade, e que empreendedorismo é o oposto de facilitismo.

Sim, disse mesmo que, atualmente, a nossa educação é baseada na falta de exigência e no facilitismo.

E não sou só eu que o digo. São professores de escolas do ensino secundário. E não pense que são professores das escolas dos betos de Lisboa ou do Porto. São professores do interior norte e interior alentejano, de escolas públicas, escolas do país real, que muitos teimam em ignorar e outros nem sabem o que isso é.

E as expressões utilizadas são:
“Hoje em dia um aluno tem que se esforçar muito para chumbar”
“Não é com falta de exigência que se promove a educação”

De uma escola a Norte, vem o comentário: “tenho alunos de 15 anos que não sabem ler nem escrever, e cada ano é cada vez pior”.

O outro lado da moeda é o chavão “qualificação do tecido empresarial e dos portugueses”. Desculpem lá! Como é que se qualifica sem educar? Como é que se qualifica a facilitar? Queremos criar empreendedores, tendo como base o sistema educativo atual?

É preciso esclarecer o leitor de que o tipo que escreve esta linhas, não é nenhum académico, nem vive sentado em Lisboa ou no Porto e passeia nos fins-de-semana por qualquer shopping daqueles que cheiram a consumo, pipocas e conforto balofo. É um tipo que criou uma empresa no interior profundo deste maravilhoso Portugal e que, em vésperas de Natal, entrevistava, em pleno Martim Moniz, 6 cidadãos do Bangladesh, tal é o desespero para arranjar trabalhadores, num país que festeja uma taxa de desemprego de 10,5%.

E porque é que isto tudo me horroriza?

Porque só os tolos poderão engolir que Portugal quer ser empreendedor, quando não é capaz de assumir que educar não é facilitar e não é fechar os olhos, para que os nossos alunos passem de ano sem saber ler, escrever e falar.

Sim, sem saber falar. E isso no Turismo, a minha área, é o básico. Já nem pedimos que falem mais línguas. Pedimos que saibam falar português.

Mas, agora, está o leitor no direito de perguntar. Mas os tipos do Bangladesh falam português?

Não, alguns não falam, falam inglês. Mas o que os diferencia, é o facto de quererem trabalhar. Sim de quererem. Coisa que, com políticas nacionais de facilitismo, não se promove. Ou alguém espera promover a dinâmica, proatividade, ambição e brio profissional, num país em que não se pode chumbar um jovem que não sabe escrever?

Enfim, é assim, desta forma, que Portugal continua agarrado à popular esperança de ter “Sol na eira e chuva no nabal”, talvez acreditando num sonho utópico em que a indisciplina e o laxismo poderão ser o motor do empreendedorismo.

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Sobre o autor

Luís Ahrens Teixeira

Luís Ahrens Teixeira é Sócio-Gerente Herdade da Cortesia Hotel e Presidente da Federação Portuguesa de Remo. Licenciado em economia pela UNL, foi atleta de Alta Competição de Remo entre 1993 e 2004, onde venceu a medalha de bronze nos Mundiais de Remo de 1994.