Ao reconhecer a importância do empreendedorismo para o desenvolvimento económico e social, são muitos os agentes económicos e os próprios Governos que têm procurado fomentar a criação de novos negócios, um pouco por toda a Europa e Estados Unidos.

Portugal não foge à regra, desenvolvendo vários concursos de incentivo à geração de novas ideias e negócios. No que toca aos valores que promovem o empreendedorismo, os especialistas tendem a revelar-se unânimes (ex. Hofstede[1] ou o projecto GLOBE[2]). A criação de novos negócios tende a ocorrer em culturas mais masculinas – que promovem a competitividade e o trabalho árduo – e individualistas – onde a autonomia e a iniciativa pessoal são preponderantes. No mesmo sentido, é nas culturas com menor distanciamento hierárquico – mais igualitárias em termos de poder e acesso aos recursos – e menor evitamento da incerteza – que impele para a vontade de arriscar – que o empreendedorismo tende a predominar.

Estes estudos parecem apontar para a existência de uma forma universal de empreendedorismo, que defende que a criação de novos negócios tem lugar, preferencialmente, na presença de certas características e orientações culturais. Escusado será dizer que esta tende a constituir, hoje, a visão mainstream em matéria de empreendedorismo! No âmbito desta visão, a cultura portuguesa emerge, claramente, como uma barreira ao empreendedorismo, atendendo às características e valores que a constituem: mais feminina (e menos masculina), mais coletivista (e menos individualista) e com maiores níveis de distanciamento hierárquico e de evitamento da incerteza. Talvez com base nestas razões, alguns teóricos e práticos justifiquem os números menos positivos da sobrevivência dos novos negócios em Portugal (a taxa de sobrevivência das empresas recém-criadas com dois anos de vida é de apenas 50%[3])  …

Uma nova corrente tem, contudo, vindo a emergir, contrariando este status quo! A título de exemplo, alguns autores[4] têm vindo a demonstrar que as culturas coletivistas podem facilitar o empreendedorismo, ao fornecerem mais suporte social e mais recursos aos empreendedores, minimizando assim a incerteza que está associada ao arranque dos novos negócios. Do mesmo modo, também um maior distanciamento hierárquico se pode revelar importante, ao proporcionar mais independência e um maior estatuto social aos empreendedores. Por fim, a criação de novos negócios pode sair favorecida numa cultura com maior evitamento da incerteza, dado o incentivo ao planeamento de longo-prazo e à criação de um clima mais seguro.

Esta nova corrente parece romper com o mainstream no campo do empreendedorismo, ao colocar a hipótese da existência de várias formas de empreendedorismo. Como Erick Stam[5] tão bem postulou, o empreendedorismo é, fundamentalmente, um fenómeno cultural, pelo que a sua aplicação deve levar em conta as especificidades de cada país, de cada região!

Neste sentido, porque não considerarmos a possível existência de uma forma de empreendedorismo à Portuguesa, que leva em conta as especificidades e os valores da nossa Cultura? É naturalmente uma questão que merece uma profunda reflexão …

* Coordenadora da Escola de Liderança e Inovação do ISCSP – Universidade de Lisboa

[1] Modelo de Cultura de Hofstede – que define os valores culturais de mais de 40 países
[2]  Global Leadership and Organizational Behavior Effectiveness – que explica as diferenças culturais entre uma gama alargada de países.
[3] Fontes: INE, PORDATA.
[4] Ex. Radziszewska, A. (2014). Intercultural dimensions of entrepreneurship. Journal of Intercultural Management, 6 (2): 35–47.
[5] Stam, E. (2007). Why Butterflies Don’t Leave: Locational Behavior of Entrepreneurial Firms. Economic Geography, 83 (1): 27-50.

Comentários

Sobre o autor

Patrícia Jardim da Palma

Patrícia Jardim da Palma é doutorada em Psicologia das Organizações e Empreendedorismo e Professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP- ULisboa). É coordenadora das Pós-graduações “Gestão de Recursos Humanos” e “Empreendedorismo e Inovação”... Ler Mais