Existe um mito que é causa de muitas desgraças. É frequente ouvir dizer que para se ser empreendedor é preciso abandonar tudo o que fazemos, incluindo o nosso emprego, para nos dedicarmos de corpo e alma à criação de um novo negócio. Que se deve arriscar tudo, incluindo o salário no final do mês, e avançar com força e determinação na construção de uma empresa.  Afinal, “quem não arrisca não petisca”, certo?

O problema com esta ideia é que assume várias coisas que não são necessariamente verdade. Assume que todos os empreendedores querem criar os chamados “unicórnios”, ou seja, criar uma empresa que um dia irá valer milhões e milhões de euros (ou, mais frequentemente, dólares). Assume que todos os empreendedores têm de sacrificar uma boa parte da sua vida, muitas vezes a família e a saúde, para alcançarem o sucesso. E assume ainda que é necessário encontrar investidores com os bolsos largos, muito largos, para poder fazer crescer o negócio.

O problema com esta ideia é que raramente funciona, como demonstra a enorme taxa de mortalidade de novas empresas. Se limitarmos a análise apenas a negócios criados de acordo com os pressupostos acima referidos rapidamente chegamos a taxas de mortalidade superiores a 90% ao fim de três anos. Três anos em que pouco se vendeu e quase nenhum destes projetos conseguiu atingir a rentabilidade. Três anos em que no fim tudo se perdeu.

E se em vez de pensarmos em empreendedores aventureiros, sem medo algum, enorme capacidade para o sacrifício e uma excessiva atenção dedicada mais a encontrar investidores do que clientes, se em vez disto, pensássemos num modelo diferente? Um modelo em que quem tem o sonho de ser empreendedor apenas necessita de destinar uma parte do seu tempo a desenvolver, mais lentamente, um negócio. Um modelo em que o principal sacrifício são as horas antes dedicadas a ver televisão ou algo semelhante.

Temos em Portugal mais de 1 milhão de pessoas consideradas inativas. Destas, muitas têm mais de 50 anos. E se conseguíssemos que estas pessoas experimentassem ser empreendedores, criando um negócio capaz de as sustentar e, ainda mais importante, de as realizar como seres humanos?

Eu acredito que todas as pessoas devem ter a oportunidade de serem empreendedores. Muitos não o pretendem, mas todos deviam ter essa possibilidade. Mas para que isto seja possível temos de mudar o paradigma.

Hoje é possível a uma pessoa criar um negócio enquanto continua empregado ou a realizar outras atividades.  Hoje é possível iniciar uma experiência como empreendedor dedicando cerca de 10 horas por semana ao negócio. São os chamados “side projects” que em outros países são cada vez mais comuns.

Avançar com um projeto empreendedor em “part-time” não só é possível como frequentemente é o mais adequado. São muitas as tarefas a realizar por quem quer ter um negócio próprio, mas nada impede estas que sejam feitas de forma mais prolongada no tempo. Desenvolver um negócio enquanto empregado tem a vantagem de assegurar que as contas do fim do mês continuam a ser pagas. Têm também a vantagem de descobrirmos se realmente queremos ser empreendedores, antes de tudo abandonarmos, incluindo um emprego, e de tudo gastarmos, incluindo as nossas poupanças. E por fim, preparar os empregados de hoje para a eventualidade de amanhã já não o serem.

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Sobre o autor

António Lucena de Faria

António Lucena de Faria é sócio Fundador e Presidente da Fábrica de Startups, empresa criada em Abril de 2012. É também membro fundador da StartupPortugal, em representação da Fábrica de Startups. Foi o responsável pela organização e realização em 2012... Ler Mais