Regozijava-me na passada semana quando lia sobre a 3.ª edição das Olimpíadas de Educação Financeira. Sublinhava o texto que 850 crianças do 1.º e 2.º Ciclos do Ensino Básico oriundas de 34 concelhos nortenhos reunir-se-iam na Fundação Dr. António Cupertino de Miranda, no Porto, para participarem num quizz sobre questões de educação financeira. Acrescentava que as Olimpíadas de Educação Financeira pretendiam, sobretudo, incutir nos jovens estudantes de uma forma lúdica comportamentos, atitudes e reações responsáveis do ponto de vista financeiro.

A notícia narrava ainda que as Olimpíadas de Educação Financeira integravam o “No Poupar Está o Ganho”, um projeto no terreno desde 2010 que terá até ao momento abrangido mais de 24 mil jovens. Um programa integrado, implementado em regime de continuidade e que disponibiliza todos os recursos educativos necessários à aprendizagem de conceitos, concretização de objetivos e definição de prioridades.

Ora, e depois do justificado entusiasmo inicial, as Olimpíadas de Educação Financeira levaram-me à pesquisa dos níveis de literacia financeira nacionais. Os resultados são esclarecedores de acordo com o 2.º Inquérito à Literacia Financeira da População Portuguesa: dentro dos segmentos populacionais com menor índice de literacia financeira encontram-se os estudantes, os jovens entre os 16 e os 24 anos, e as faixas de cidadãos com baixa escolaridade. Outras conclusões anunciam que quase 30% dos portugueses não planeiam o orçamento familiar, perto de 40% dos portugueses não poupa qualquer valor (e apenas 60% teriam capacidade de resposta a uma despesa inesperada), e 95% dos portugueses não conhece o conceito de capital garantido de um valor mobiliário, 80% não sabe definir o conceito de spread, e 40% não consegue calcular um juro simples.

Quadro que justifica a adoção da Educação Financeira como uma das políticas públicas prioritárias sem olhar a ideologias, cores partidárias ou querelas esquerdas versus direitas. De resto, e na sequência da Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania do atual Governo, a Educação Financeira é hoje obrigatória em termos curriculares em dois dos três ciclos do ensino básico. Na verdade, a educação é uma alavanca fundamental para o florescimento de oportunidades, o desenvolvimento social e o crescimento económico de qualquer país. Depois, cidadãos melhor preparados financeiramente terão obrigatoriamente práticas mais conscientes, ponderadas e refletidas. Finalmente, esses mesmos indivíduos escrutinariam de forma assertiva os responsáveis socias, políticos e económicos, induzindo outras normas, rotinas e condutas.

Aliás, e voltando às Olimpíadas de Educação Financeira, o relato terminava referindo que o “No Poupar Está o Ganho” tinha um impacto social positivo tanto no que concerne a um conjunto pré-definido de competências próprias da literacia financeira, como também na promoção de relações familiares empáticas relacionadas com a gestão quotidiana do dinheiro. Traduza-se a segunda parte da equação: mudança de mentalidades, menor conflitualidade, noções de orçamento familiar. Um resultado micro com as devidas extrapolações macro na procura do bem-estar financeiro, material e social.

Até porque a dívida pública nacional aumentou três mil milhões de euros entre dezembro do ano passado e janeiro deste ano, situando-se agora nos 247,9 mil milhões de euros (segundo dados revelados pelo Banco de Portugal a 1 de março). Um valor que representará 121,5% do Produto Interno Bruto (PIB), elegendo Portugal como um dos países com uma das dívidas mais elevadas do mundo em percentagem do PIB (no contexto europeu apenas surge atrás da Grécia e da Itália). Provavelmente, será tudo menos inócua a escolha da marca Todos Contam pelo Programa Nacional de Formação Financeira em vigor até 2020.

*Associação Nacional das Empresas das Tecnologias de Informação e Eletrónica

Comentários

Sobre o autor

Jose Pedro Salas Pires

Licenciado em Engenharia de Electrónica e Telecomunicações, pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa (1984/1989), José Pedro Salas Pires é atualmente presidente da ANETIE – Associação das Empresas das Tecnologias de Informação e Electrónica. Isto depois de ocupar outros cargos em... Ler Mais