Eduardo Sette Camara tem mais de uma década de experiência no mundo de venture capital. O brasileiro aterrou em Portugal no início deste ano e atualmente exerce o papel de head of acceleration na Beta-i. Ao Link To Leaders o especialista na área de capital de risco falou sobre o estado atual do ecossistema brasileiro, português e europeu.

Depois de ter sido responsável pelo Lisbon Challenge, um programa de aceleração de dez semanas da Beta-i focado em start-ups pre-seed, Eduardo Sette Camara tornou-se líder de aceleração da entidade portuguesa de fomento ao empreendedorismo. Antes disso trabalhou como manager na Finep, uma agência pública brasileira que financia a inovação, onde apoiou fundadores de start-ups que desde a fase de pre-seed até pre-IPO. Para além disto, trabalhou como investidor de capital de risco durante mais de dez anos, e tem experiência enquanto empreendedor, CEO e business angel.

Da sua experiência, em quantas start-ups é que um investidor tem de injetar dinheiro para atingir um ponto em que o risco seja perto de zero?
Isso é uma grande discussão. Às vezes até coloco em xeque aquilo que fazemos para ver como é que conseguimos melhorar. Temos um grande problema na indústria de venture capital a nível global. Todos os negócios são privados, o que significa que as informações não são públicas. As únicas informações que chegam ao público são as boas notícias ou os grandes escândalos – que acabam por aparecer de qualquer forma. Muitos dos estudos empíricos que existem que apontam para um retorno de 20% ao ano para venture capital são baseados em informações públicas – que só incluem as histórias boas. Se conversarmos com pessoas que trabalham em fundos (dos fundos globais), que têm experiência de investimento no mundo inteiro e têm acesso a informação estatisticamente relevante para fazermos uma estimativa de mercado, poderíamos dizer que o retorno médio da indústria de venture capital é algo entre os três e os seis pontos da bolsa de valores, ou seja, traz um retorno entre 9% a 12% ao ano. O que significa que não se devia investir o dinheiro todo em venture capital, porque a diferença de risco é muito grande, mas seria interessante investir alguma coisa. Ao mesmo tempo paramos e pensamos “será que todo o esforço que levamos a cabo, agregando valor e trabalhando com as start-ups é suficiente para que, em média, tenhamos apenas três a seis por cento a mais de retorno?” Portanto, o desafio é perceber como é que consigo maximizar o trabalho que fazemos para que a maior parte, e não apenas uma das dez start-ups, esteja na cauda longa de retorno.

Costumo falar tanto com empreendedores, como com investidores e costumo dizer que erramos de duas maneiras: por investir na empresa errada ou por dizer não à empresa certa. Mas isso é ok desde que tenhamos uma tese de investimento bem montada, que nos permite ir da incerteza para o risco. Trabalhei como limited partner, já fui investidor de capital de risco, business angel e empreendedor e posso dizer que existe uma semelhança entre estes cargos: nos problemas que temos, nas coisas que temos de fazer – que são muito grandes. As lições são comuns para todos. De certa forma, quando um administrador está a captar um fundo novo para investir numa tese de investimento nova, está numa posição muito semelhante à de um empreendedor que está a captar dinheiro para desenvolver uma estratégia de negócio para um projeto no qual acredita. Ou seja, tecnicamente a procura é diferente, mas essencialmente é a mesma: como é que saio da incerteza e entro só no risco e como é que quantificamos qualitativamente ou quantitativamente as premissas para que me sinta confortável em correr este risco.

 A par da Business Angel Summit, realizada recentemente, também trouxeram a Fuckup Nights, um evento onde o fracasso é um motivo de celebração. Tendo em consideração a sua experiência, qual é a importância de aprendermos com os nossos fracassos?
Costumamos dizer muito [na Beta-i]que errar não é um problema, desde que duas coisas aconteçam. Primeiro,  admitir que errou e, segundo, aprender com o erro que cometeu. Portanto, uma estrutura como a Fuckup Nights permite exatamente isso.

“Temos de ‘agarrar’ em dinheiro inglês, americano, alemão, brasileiro… São outras experiências, outras perspetivas e outras portas”.

Em Portugal, há quem diga que existem investidores suficientes para a fases embrionárias, mas que é difícil recolher investimento em fases mais avançadas dos projetos. Com base naquilo que conhece do ecossistema, diria que é falta de experiência, de dinheiro, medo…?
Acho que falta uma mistura de várias coisas. Todos os novos ecossistemas têm este problema, mas em estágios diferentes. No Brasil, a indústria de venture capital começou numa altura de series D no meio de venture capital porque tínhamos um stock de empresas familiares de médio-grande porte que poderiam ser profissionalizadas para serem mais rentáveis. Portanto, o lowest-hanging fruit no Brasil eram empresas de médio porte, que foi por onde começámos. À medida que este segmento se foi desenvolvendo e os investidores começaram a ter retorno, isto foi-se revelando um modelo de sucesso e começámos a ter alguns administradores a migrar para fundos maiores e outros para fundos menores.

Hoje, no Brasil, o que vemos é alguma atividade no meio de venture capital, muita coisa a acontecer na fase seed, uma “mega” lacuna entre as series B e E e depois temos as grandes operações de buyout. Aqui, em Portugal, até pelo momento em que esta onda de empreendedorismo se iniciou [em plena crise económica], acabaram por começar pelas start-ups que se encontravam em fases seed. É um bocado mais fácil começar por aí porque as exigências de track record são menores e até porque, normalmente, é menos dinheiro e porque há menos pessoas com experiência na área. Então damos um impulso no ecossistema desta maneira.
À medida que o tempo passa, da mesma forma que hoje exigimos muito mais das start-ups antes de fazermos o investimento do que exigíamos há cinco anos – em termos de métricas e de qualidade -, existem muito mais administradores de fundos experientes. Portanto, é normal que Portugal ainda só tenha um pre-seed e seed forte. Uma das coisas que conversamos muito com os empreendedores, e gosto disso aqui em Portugal – o facto de ser internacional -, é que não podemos só pedir dinheiro português. Temos de “agarrar” em dinheiro inglês, americano, alemão, brasileiro… São outras experiências, outras perspetivas e outras portas.

“Até porque no Brasil temos um problema que não existe aqui: se trabalharmos numa empresa pública existe sempre a possibilidade de algum político acordar e decidir que a empresa deixou de existir.”

Em relação à Europa. O continente continua a precisar de dinheiro público, através do Fundo Europeu de Investimento, para financiar outros fundos de capital de risco. Conseguiremos criar um cenário autossustentável onde os investidores só recolhem dinheiro de privados, como acontece na China ou nos Estados Unidos?
Existem dois mercados no mundo que conseguem gerar um unicórnio por si só, que são só os Estados Unidos e a China. Eu diria, sem uma base concreta, que só estes dois países têm quem tem unicorn making money. Todos os unicórnios têm dinheiro chinês ou americano por trás. É normal que os empreendedores procurem dinheiro noutro outro lado se não forem chineses ou americanos. Mesmo no Reino Unido vão ter, eventualmente, de ir buscar dinheiro aos Estados Unidos. Então não deveria causar esta estranheza toda ir buscar dinheiro de outras nacionalidades.

Isto é uma coisa, outra são os governos. Trabalhei durante sete anos no governo brasileiro e lembro-me muito bem do dia em que entrei na sala da minha chefe e disse-lhe: “sabe que o maior sinal de sucesso do programa [de fomento ao empreendedorismo]que estamos a desenvolver é o dia em que pararmos de fazer isto porque é sinal de que o setor privado não precisa mais de nós a investir em fundos, para capacitar pessoas …”. Achei que ia ser demitido, mas depois a minha chefe começou a dizer isto publicamente. Todas as ações que planeávamos para desenvolver o ecossistema tinham uma preocupação muito grande:  fazer com que o ecossistema se tornasse autossustentável, com parceiros privados, sem necessidade de dinheiro público. Até porque no Brasil temos um problema que não existe aqui: se trabalharmos numa empresa pública existe sempre a possibilidade de algum político acordar e decidir que a empresa deixou de existir. Portanto, para nós, é mais fácil ter este mindset para fazer isto e tornar o ecossistema autossustentável. Ao mesmo tempo acabamos por ter um problema muito grande, que é a facilidade com que as pessoas tiram benefícios privados do bem público.

Mas a necessidade não cria o inventor? Se a Europa deixasse de ter um fundo público a apoiar outros fundos não acabaríamos por conseguir recolher o dinheiro através de outras fontes?
Acho que para impulsionar o ecossistema é necessário dinheiro público, especialmente nesta fase seed. A partir do momento em que se começa a ter um track record de sucesso e bons players na indústria começamos a ser autossustentáveis. Aí poderíamos entrar numa discussão em que o dinheiro público ajuda à diluição de poder dentro do mercado porque só quem tem track records é que levanta dinheiro e quem não tem não levanta, portanto só quem tem é que domina… entraríamos numa bola de neve de discussões. Mas existem formas e formas de o fazer…

“Se fizermos uma análise, os unicórnios brasileiros são as start-ups que conseguiram atingir uma massa crítica da população.”

2018 foi um ano de ouro para a cena brasileira de start-ups. Nasceram vários unicórnios, como a 99 e a PagSeguro. Como é que antevê 2019? A tendência vai-se manter ou é simplesmente o culminar de um ciclo de trabalhos feito pelos investidores, empreendedores e entidades públicas?
Não sei se vamos ter quatro ou cinco unicórnios de novo para ano, mas acho que a tendência se vai manter. Apesar de acreditar muito no Brasil, sou uma pessoa muito crítica. Acho que é muito fácil perdermo-nos numa mística de tamanho que o Brasil tem e, ao mesmo tempo, não tem. O que eu quero dizer com isto é que atualmente o Brasil tem 207 milhões de habitantes e existem 260 milhões de telemóveis. O que significa que a ideia: “vou desenvolver uma app, vou lançar no Brasil e vai dar certo porque tem um grande mercado”, está correta, verdade?

Mentira. Porque destes 260 milhões, 70% são pré-pagos, o que significa que não têm acesso à internet regularmente, a não ser que tenha acesso a wi-fi. As pessoas têm acesso a WhatsApp e às redes sociais porque as operadoras dão esse acesso gratuitamente. Então o marketing via Facebook faz sentido, mas as pessoas não vão fazer o download da sua aplicação mobile porque não têm internet. O salário médio no Brasil é 2 mil reais [460 euros], o que significa que não sobra dinheiro para comprar a app. De todos os habitantes, apenas 35 milhões declaram imposto de renda. Isto significa que existe um mercado informal gigante e que, geralmente, se traduz por haver uma parte muito grande da população sem acesso à banca. Isto traz desafios, mas também  oportunidades. Se fizermos uma análise, os unicórnios brasileiros são as start-ups que conseguiram atingir uma massa crítica da população em áreas como fintech [Nubank], entrega de comida [iFood] e mobilidade [99]. Acho que começamos a ver cada vez mais start-ups que percebem isso e que, de facto, conseguem transformar-se em unicórnios. As outras que ainda não conseguiram perceber isso e que olham para o seu desenvolvimento de negócio numa ótica americana, por exemplo, e não de acordo com a realidade em que estão inseridas, ou se expandem para fora do Brasil ou então vão morrer a meio do caminho.

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