Candace Johnson é presidente da EBAN-European Business Angels Network. Com uma longa carreira no mundo do empreendedorismo, conversou connosco sobre o estado atual do ecossistema europeu, do Brexit e de como os empreendedores têm de ser motivados para criarem um impacto positivo na sociedade.

Qual é a sua opinião sobre o ecossistema europeu de start-ups atual?
Acho que o primeiro nível de start-ups está muito bom. Contudo, há alguns problemas. Primeiro que tudo, ainda há este problema em que as pessoas recebem 50 mil euros para começarem o seu negócio e depois até recebem uma ronda de investimento, um apoio, ou até financiamento de alguns investidores privados. Quando, na realidade, o modelo de negócio ainda não foi validado ou é inexistente. Existem muitas empresas, talvez com uma ou duas pessoas, a tentar fazer negócios durante três anos e depois falham. Considero que antes dos governos darem apoios deviam envolver os investidores privados. Considero isto bastante importante.

O segundo ponto é que precisamos de focar a nossa atenção nas scale-ups. Portanto, tínhamos todas estas start-ups, agora precisamos de escalar esses negócios. Precisamos de ter empresas e equipas, que façam um grande trabalho, e de capital para investir nestas empresas de forma a que façam, aquilo que eu chamo, acordos transformacionais, onde elas conseguem grandes clientes com muitos consumidores ou conseguem um acordo de marketing com uma empresa de telecomunicações – caso tenham uma app ou algo do género – onde consigam angariar um grande número de clientes.

E o que pensa do ecossistema português?
Eu adoro Portugal! Antes de mais, temos aí um ótimo grupo de business angels, a FNABA (Federação Nacional de Business Angels). Tivemos uma conferência da EBAN fantástica no Porto, onde se reuniram redes de business angels de todo o país. Portugal também tem a Web Summit e vários unicórnios a nascer no seu território. É um ecossistema bastante dinâmico. O governo português também tem sido bastante dinâmico a fazer coinvestimentos com entidades privadas. Pessoalmente, considero que Portugal está a fazer um excelente trabalho no geral. Vou estar em Lisboa no dia 28 de maio onde vou fazer um discurso na Space Frontier Foundation.

O que é que a Europa tem de fazer para competir com outros ecossistemas como a Ásia e os EUA, por exemplo?
Não tenho a certeza se a Europa deve competir. Nunca penso em competir com alguém. Penso simplesmente em criar algo que torne o mundo melhor. Pessoalmente, comecei cinco empresas de satélites e, atualmente, mais uma vez, estou muito envolvida em outras cinco empresas desta área, e todas elas são globais.

Também estive bastante envolvida com raspberry pi [computador que apoia a educação de ciências computacionais a crianças e adolescentes]e fiz muitas coisas. Enviei duas das primeiras 10 raspberry pis a um colega do Médio Oriente para traduzir tudo para árabe. Queria desenvolver um projeto educativo na Arábia Saudita, mas devido ao poder destes aparelhos eles não permitiram. O sistema de educação saudita disse basicamente: “não, não vamos tentar nada com isto”. Portanto, comecei no Líbano. Falei com os meus alunos de MBA para ajudarem a comprar raspberry pis aos libaneses para começarmos este projeto. Por essa altura já tínhamos perto de 100 e começamos um programa onde ensinávamos crianças de 10 anos a programar com estes aparelhos. A partir daí, essas crianças ensinaram outras. O projeto foi tão bem-sucedido que foi colocado num campo de refugiados no Líbano e a UNICEF disse-nos que queria ter esta iniciativa em campos de refugiados de todo o mundo.

Portanto, só temos de pensar que tudo é possível e avançar. Acho que a Europa não deve tentar competir. Sou americana, mas vivo há muitos anos na Europa onde temos uma cultura fantástica, uma grande diversidade, sabemos cumprir padrões que são funcionais em todos os diferentes tipos de tecnologia e temos um grande entendimento da História. Devemo-nos focar nos nossos pontos fortes. Eu comecei o Astra Satellites porque queria celebrar a diversidade e a cultura de todos os países europeus. Digo sempre que temos de construir tudo à volta dos nossos pontos fortes e podemos fazer muitas coisas na Europa que não é possível fazer na Ásia ou nos Estados Unidos.

Diria então que um empreendedor tem de ser orientado para criar um impacto positivo na sociedade e a partir de aí escalar o negócio?
Isso é o que eu tenho feito sempre. Consigo acertar em tudo, mas por uma variedade de razões relacionadas com a minha situação pessoal não sou rica, mas tudo o que quero que aconteça acontece. O meu objetivo era tornar o mundo melhor. Comecei o ICS e construi-o para ser o maior sistema de satélites do mundo. Em 1990, comecei o Teleport Europe para conseguir que as organizações da Europa conseguissem comunicar entre o Este e Oeste. Fundei também o Europe Online, o primeiro serviço online baseado na Internet e depois o primeiro serviço de banda larga do mundo. Fiz todas estas coisas que foram bem-sucedidas, mas que não me tornaram rica. Não estou preocupada com isso porque esse não era o meu objetivo, mas outras pessoas ficaram ricas e estou bem com isso. Pessoalmente, acho que toda a gente tem a sua maneira de fazer as coisas e o que me conduz é a responsabilidade pessoal. Outras pessoas têm ambição ou querem ficar ricas e é isso que as motiva. Portanto, pode ser qualquer coisa que conduz os empreendedores, desde que seja algo positivo.

Que tipos de start-ups é que são mais atrativas para os business angels europeus atualmente?
Os business angels estão a investir mais em ciência e deep tech. Há 10 anos, houve muitos business angels que investiram em energia eólica e solar, mas esses foram subsidiados por governos e não acabaram bem. Hoje, estamos a investir em todos os tipos de energias sustentáveis também.
Outros investimentos seriam, claro, em tudo o que tenha a ver com inteligência artificial e conectividade, em particular com a conectividade móvel. Estamos a investir no Espaço, em e-health e a olhar profundamente para a blockchain. Estamos até a pensar em abrir um fundo dedicado a este tipo de tecnologia.
Estamos, sem dúvida, a criar investimento de impacto – apesar de dizer sempre que os investimentos anjo têm sempre impacto porque trazemos a nossa experiência, especialidades, a nossa rede de contactos e dinheiro –, porque hoje o mundo precisa de soluções para os problemas. A educação também é uma área “gigante” atualmente.

Porque é que a educação está a ser alvo de tantos investimentos?
A tecnologia está a trazer uma mudança paradigmática à educação. Professores e pais precisam de ter novas ferramentas para terem a certeza de que os alunos estão realmente a aprender aquilo que necessitam. Acredito que isso seja uma das razões.
Um segundo ponto é que as pessoas também estão a viver durante mais anos e muitos dos empregos que existiam há 20 anos já não existem. Há novos trabalhos, portanto as pessoas precisam de se reeducar e de adquirir novas competências.
A base da educação é muito maior. Por exemplo, tenho uma amiga de 55 anos que vai voltar à escola durante dois anos para aprender uma nova competência de trabalho. Portanto, acho que é a tecnologia, a base, a globalização – as pessoas querem aprender diferentes línguas e competências – e as empresas aperceberam-se de que precisam de educar os seus trabalhadores de maneira a que estejam sempre a par das últimas tecnologias.

Que conselho daria a uma mulher que se quisesse tornar empreendedora?
Jamais pensei em mim como sendo uma mulher. Simplesmente via uma solução e pensava: “oh meu Deus, porque é que ninguém está a fazer isto?”. E depois executava-a sem pensar que era impossível fazer o quer que fosse. Depois as pessoas ficavam surpreendidas e diziam “ainda por cima és uma mulher”, algo que nunca me ocorria.
Portanto, pensem apenas naquilo que querem fazer e tenham a certeza que são as melhores a fazer o quer que seja que estão a fazer e que são vocês que têm conhecimento. Depois rodeiem-se de boas pessoas, que acreditem em vocês e que vos consigam ajudar.

Se eu tivesse uma start-up promissora e estivesse indeciso entre receber investimento da Candace ou de um fundo de capital de risco (VCs), que pitch é que me faria?
Depende da fase do projeto. Os VCs não têm tempo para serem mentores das start-ups e também não estão a investir o dinheiro deles, o que significa que têm de devolver o investimento das pessoas que injetaram dinheiro no fundo.

Os business angels não têm nada disso. Investimos o nosso próprio dinheiro e gostamos de trabalhar com os empreendedores porque já temos essa experiência – por norma, os business angels são serial entrepreneurs –, já passámos pela mesma situação. Trazemos isso para cima da mesa.

Mas se o empreendedor já tiver tração de mercado e for uma questão de receber dinheiro para crescer, então é melhor optar por um VC. Basicamente, os VCs são como universidades, como Harvard, onde conseguem que as melhores pessoas se candidatem e dessas escolhem algumas. Acontece o mesmo com os VCs.

Os business angels, por outro lado, são um bocado diferentes. Servimos de mentores, mas a start-up também tem de ter um produto ou serviço, os seus primeiros clientes e as primeiras receitas. Caso contrário não investimos porque também temos de ter a certeza de que o nosso dinheiro tem uma saída. Muitas vezes, quando invisto num empreendedor, ou numa equipa, ligo às pessoas que eles acham que vão ser suas clientes, ou possíveis compradores, e pergunto-lhes: “se investir nesta empresa, se trabalharmos com eles, teriam interesse numa aquisição?”. Desta maneira sabemos logo se vamos ter retorno.

O Reino Unido é o ponto da União Europeia onde existe um cenário financeiro mais forte e com o Brexit vai ser mais complicado para as start-ups encontrarem um hub com uma estrutura financeira semelhante. Vê isto como um problema? Como é que isto pode ser resolvido?
O que eu posso dizer é que assim que o Brexit foi anunciado escrevi ao CEO da UKBAA (United Kingdom Business Angels Association) e disse-lhe que queria que ele soubesse que para nós nada tinha mudado. E nada mudou. Nós – business angels – vamos continuar a investir além-fronteiras. Para nós nada vai mudar e para os empreendedores acho que também não vai haver alterações.

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