Quando se fala de empreendedorismo, há uma certa tendência para realçar ou destacar os casos de sucesso, contar as histórias daqueles que, com muita ou pouca dificuldade, com muita ou pouca ajuda, conseguiram levar a sua ideia avante.

Mas essa tendência, que é natural, não contribui assim tanto para a formação de uma cultura de empreendedorismo e, consequentemente, para o surgimento de instrumentos adequados para a sua consolidação em Portugal.

Na verdade, se há coisa que distingue os países com forte cultura de empreendedorismo face aos países com deficiências a esse respeito, não é tanto a forma como se lida com o êxito ou com sucesso, mas, isso sim, a forma como se lida com o fracasso.

De alguma forma, com mais ou menos inveja, todos temos tolerância com o sucesso e, havendo certezas de sucesso, logo surgem as condições necessárias para tentar replicá-lo. Sucesso ajuda muito a trazer mais sucesso.

E o que dizer do fracasso? Pensemos na forma como o fracasso é encarado em Portugal.

Basta lembrar o que dizemos e pensamos da falência daqueles que não conseguem levar o seu negócio avante. Aquela expressão de “X levou o negócio à falência” é toda um tratado. A falência é apresentada como consequência direta de alguém, da sua imperícia, da sua impreparação. Que incentivos dá esta intolerância ao fracasso? Quem se vê tentado a arriscar assim?

Olhemos para o regime jurídico da falência, pesado, protegendo sobretudo os credores, criando a convicção de que qualquer falência implica o arrastar de uma penosa situação e o delapidar de património. Podemos arriscar assim?

Mas não esqueçamos as consequências de uma falência nos créditos e financiamentos posteriores, quase sempre aparecendo como um currículo negativo, quase se exigindo uma garantia de sucesso, antes mesmo do projeto começar. Quem arranja financiamento assim, se não puder ter fracasso, se não puder garantir sucesso na primeira hora?

Agora que o empreendedorismo começa a ser uma realidade em Portugal, pelo sentido positivo que carrega, talvez fosse a hora de resolvermos este nosso problema com o fracasso. Sem tratarmos disto, o empreendedorismo nunca deixará de ser uma boa ideia que podia ter acontecido.

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Sobre o autor

Adolfo Mesquita Nunes

Adolfo Mesquita Nunes tem mais de treze anos de experiência em advocacia nas áreas de direito público, nomeadamente em políticas públicas, contratação pública, regulação, contencioso, arbitragem e contratos públicos, em vários setores de atividade. É Sócio da sociedade Gama Glória.... Ler Mais