Numa carta de autor desconhecido, jóia da Antiguidade Cristã, escrita a um certo Diogneto, pagão erudito do império romano, que se indagava sobre a força e o vigor com que um grupo de incógnitos, chamados cristãos, estavam a mudar estruturalmente as raízes do império, deparei-me há uns tempos com a possibilidade incrível de uma perfeita analogia aos tempos modernos e ao contexto do empreendedorismo social da sociedade contemporânea.

A comparação é direta e tão sui generis que a escolhi como pedra angular desta pequena reflexão que vos trago. Diogneto era, segundo o que se estuda deste escrito primitivo do século II, um homem culto, preocupado com os temas da polis e da sociedade, com uma certa curiosidade sobre a revolução imprimida pelos cristãos no império, nunca talvez chegando a conjeturar o poder definitivo da mudança que estes iriam trazer.

Os cristãos, incluindo o desconhecido autor do texto, viviam normalmente como os demais, mudando, com as suas vidas, as cidades onde habitavam, através da sua própria forma de atuar. Achei sublime o paralelismo que vivemos hoje com o novo movimento do empreendedorismo social em Portugal e no mundo.

O empreendedor social é também aquele que, independentemente do setor onde trabalha, do local onde habita e da atividade que desenvolve, se predispõe a ser um agente de mudança. A partir da sua zona de atuação muda de forma inovadora e replicável a sociedade, endereçando os mais graves problemas societários com soluções sustentáveis, mais eficazes que as existentes. Por isso os vemos como iguais, como cidadãos, tais como os cristãos de Diogneto.

O Hugo Menino Aguiar com o Speak, que integra migrantes em Portugal e desde Aveiro já está em três países no mundo. A Celmira Macedo que criou uma linguagem universal de leitura que incluí todos, independentemente de problemas auditivos e visuais, e até o Miguel Neiva, que desde o Porto já levou o ColorADD ao mundo com o código de identificação de cores que acabará com os problemas de todos os daltónicos no mundo.

Mas os empreendedores sociais não são só estes. São as empresas que querem adaptar os seus sistemas produtivos e produzir valor para sociedade, sem o captar apenas, e é o nosso Governo que tem sido exemplar nas pastas da Presidência e da Modernização Administrativa, ao trazer a inovação social para o centro do futuro mais inclusivo que todos estamos a construir no nosso país.

Recentemente temos brilhado na Europa. É Carlos Moedas que nos põe no Centro da Inovação Social e que com a Fundação Calouste Gulbenkian organizou a primeira conferência de Inovação Social de alcance europeu e abriu portas ao que chamamos uma “Nova Era de Inovação Social na Europa”. É Poiares Maduro, que liderou recentemente um estudo que nos coloca em 5.ª lugar com o país mais avançado na área da inovação social na Europa, e o próprio “The Economist” que considera Portugal como um dos sete países no mundo que conseguiu nota máxima em termos de política nacional de estímulo à inovação social.

Esta mudança está a começar, mas para quem a vive, já sabemos que as bases já foram lançadas e que o futuro “não poderia ser de outra maneira”, como nos canta Rui Veloso.

Faltam-me o espaço e sobram-me as palavras que aqui gostaria de escrever sobre empreendedorismo social e da mudança imensa que este nos traz rumo a uma nova Economia (de Impacto), mas contento-me a escrever como o autor desconhecido: “Os empreendedores sociais são a incrível mudança que a sociedade precisa, superam as leis com as próprias vidas, são pobres mas enriquecem muita gente, de tudo carecem mas em tudo abundam”. Numa palavra: o que a alma é no corpo isso são os Empreendedores Sociais para Sociedade que almejamos: mais próspera e onde todos somos capazes de ser humanos em toda a nossa potencialidade.

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A Filipa é atualmente Gestora de Negócios de Impacto, sendo responsável pela gestão de comunidade no IES-Social Business School, ao qual se juntou em 2015 e onde coordena a rede de alumni e a rede de mentores IES-SBS. Conta com experiências profissionais no setor público e privado, tendo, anteriormente, trabalhado como Policy Advisor para os assuntos económicos no Parlamento Europeu, na Comissão de Economia e Assuntos Monetários, onde acompanhou os desenvolvimentos da crise económico-financeira Europeia e os seus efeitos em Portugal. Anteriormente passou pela Critical Software no Brasil, onde trabalhou na área de Business Development, pela Católica Lisbon School of Business & Economics, tendo lecionado como professora-assistente a disciplina de Microeconomia, e pela Deloitte Consulting, na área de Estratégia e Operações. É licenciada em Economia pela Universidade Católica do Porto e Mestre em Estratégia e Empreendedorismo pela Católica Lisbon School of Business & Economics.

*Equipa de Coordenação – Portugal Agora

 

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