A digitalização da economia portuguesa será, certamente, uma das principais tendências de 2018. Há de facto uma maior consciência, por parte das nossas empresas, de que as tecnologias digitais permitem ganhos efetivos de gestão, competitividade e produtividade.

As tecnologias digitais possibilitam, por exemplo, uma relação mais próxima com os clientes, o desenvolvimento de novos produtos, a otimização das atividades industriais, a adoção de novos modelos de negócio e uma série de melhorias ao nível da produção, inovação, distribuição e internacionalização. Como tal, não tenho dúvidas de que a estratégia de crescimento de muitas empresas passará pela desmaterialização e automação dos seus processos.

Importa, contudo, que essa digitalização se faça de forma eficiente, nunca perdendo de vista o cumprimento de objetivos estratégicos pré-definidos. A disrupção digital não pode ser encarada como uma moda, mas sim como um fator fundamental para o crescimento e a competitividade das empresas. Neste sentido, a digitalização deve ser um processo que tenha em conta a cultura organizacional, os recursos materiais e a massa crítica da empresa.

Daí que a transformação digital ganhe em ser, preferencialmente, um processo interno. Ou seja, um processo que nasça dentro das organizações e que envolva todo o seu capital humano, sem prejuízo de eventuais (e bem-vindas) parcerias com start-ups, centros de I&D ou mesmo empresas não concorrentes.

Dito isto, há um desafio que imediatamente se coloca às empresas nos seus processos de digitalização: a gestão dos recursos humanos que deve acompanhar a introdução de novas tecnologias. Por um lado, é conhecida a dificuldade de identificar e recrutar talento tecnológico, tanto em Portugal como no resto do mundo. As empresas são, por isso, muitas vezes forçadas a recrutar profissionais menos adequados às funções tecnológicas requeridas ou a pagar salários acima das suas possibilidades para atraírem talento. Por outro lado, há que ultrapassar eventuais resistências internas à adoção de tecnologias digitais e reconverter pessoal sem competências tecnológicas.

O défice de qualificações nas áreas tecnológicas é, sem dúvida, o grande obstáculo à digitalização da economia portuguesa. A capacidade formativa do nosso ensino superior não é ainda suficiente para atender aos desafios tecnológicos do tecido empresarial, ao mesmo tempo que o ensino profissional não desempenha cabalmente a sua função de satisfazer as necessidades de pessoal especializado das empresas. A tudo isto se soma um sistema de ensino que, desde os primeiros ciclos de estudo, não predispõe os alunos para as tecnologias.

Mas há sinais que nos deixam esperançados e que indicam um ajustamento da sociedade portuguesa às novas necessidades do mercado de trabalho. No último concurso de acesso ao ensino superior, cinco dos dez cursos que registaram as médias de entrada mais elevadas eram de engenharia: Engenharia Aeroespacial, Engenharia Física Tecnológica, Engenharia e Gestão Industrial, Bioengenharia e Engenharia Biomédica. Isto traduz a crescente procura de cursos eminentemente tecnológicos pelos estudantes, motivada, em boa medida, pelas perspetivas de integração profissional abertas pela economia do conhecimento.

Estou, por isso, otimista em relação à digitalização da economia portuguesa e à consolidação da indústria 4.0, processos que, creio, vão ser impulsionados pela conjuntura favorável de 2018. É esperado, para este ano, um novo crescimento do investimento privado, que não deixará de contemplar a digitalização das empresas.

*Associação Nacional de Jovens Empresários

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Sobre o autor

Adelino Costa Matos

Adelino Costa Matos é Presidente da Direção Nacional da ANJE desde janeiro de 2017, tendo já integrado a Direção Nacional precedente (entre 2013 e 2017). É chairman e CEO da ASM Industries, sub-holding do grupo A. Silva Matos, criada precisamente com o intuito de diversificar a atividade do mesmo, por via da aposta no setor das energias renováveis. A ASM Industries exporta 95% da sua produção e tem como mercados... Ler Mais