Antes de mais, é importante dizer que este artigo, mais do que uma qualquer recomendação ou teoria sobre um determinado assunto, visa apenas e tão-só servir de testemunho pessoal para uma realidade com a qual me tenho visto confrontado, a qual seguramente encontrará eco em muitos daqueles que lerem estas palavras.

Feita essa ressalva, desde há vários anos que, por via da minha atividade profissional e empresarial, tenho tido a oportunidade de conhecer um pouco melhor a realidade de África, esse continente que, paulatinamente, a todos continua a encantar e seduzir, assegurando um ritmo constante de crescimento económico que apenas empalidece perante os números verdadeiramente incontornáveis vindos da Ásia, nomeadamente da China.

Em virtude das referidas atividades, vi-me colocado diversas vezes em situações nas quais era expectável que, perante autoridades e populações, levasse adiante determinadas propostas de investimento nas mais diversas áreas, desde hotelaria e restauração, construção de infraestruturas, saúde e bem-estar, telecomunicações, desenvolvimento social, entre outras. Invariavelmente, as ideias iniciais abrem sempre muitas portas e granjeiam uma aceitação generalizada, seja por parte das referidas autoridades, seja pelas populações ou profissionais dos setores que poderão beneficiar do investimento em questão. O problema verifica-se sempre no momento posterior, aquele em que é preciso passar das palavras aos atos. Aí, como costuma dizer o nosso povo, “é que a porca torce o rabo”…

Pelas mais variadas razões, as quais entendo que, para salvaguarda das pessoas e entidades envolvidas, não cumpre esmiuçar, a maioria – sim, a maioria – das propostas apresentadas acaba por “morrer na praia”. E não julgo que seja porque não existe mérito no que se pretende fazer, tanto mais quando se apresenta capacidade financeira para o efeito. Simplesmente as coisas não andam, falham algures, carecem de resposta, enfim, tudo o que concorre para o desinteresse de um investidor que procura algum tipo de garantias e certeza quanto ao seu projeto.

E aqui cumpre uma confissão adicional. É complicado não ter preconceitos, e eu não fujo à regra. Sempre assumi que muitos destes falhanços, ou até mesmo de alguns sucessos inesperados, estavam ligados ao famoso “this is Africa” e, como tal, impunha-se simplesmente aceitar, rolar os dados novamente e seguir em frente. Como estava enganado.

Com todo o Simplex, a pretensa Administração Pública (central ou local) próxima dos cidadãos, as facilidades tecnológicas, os apoios, etc., etc., etc., não posso dizer que tenha encontrado cá um cenário muito mais encorajador. Concretizando, e novamente por virtude de afazeres profissionais, tive a oportunidade de poder apresentar, em pelo menos três municípios diferentes do país, propostas de investimento que, em meu entender, contribuiriam de forma relevante para o desenvolvimento económico e social dos municípios e zonas em questão.

Recordo com ironia as caras sempre disponíveis das nossas autoridades, interessadíssimas nos projetos, nos resultados, disponíveis para apoiar, estudar e analisar os pormenores. Recordo igualmente, agora com tristeza, os incontáveis emails, as repetidas tentativas de contacto telefónico, o dinheiro gasto em projetos, o tempo investido em ideias que não passaram do papel, sem nunca ter tido propriamente a capacidade de entender o desaparecimento súbito ou gradual dos tão ávidos representantes do nosso povo. Falta de tempo? Falta de capacidade para apoiar? Desinteresse? Creio que nunca saberei dizer com toda a certeza.

Nem quero especular sobre os motivos que levaram a grande maioria destas empreitadas a ficarem pelo caminho, mas, ligando este caso às minhas experiências em África, recordo uma lição que uma vez aprendi localmente, pela boca de um célebre político. Dizia este ancião, quando instado por mim a justificar o porquê de tamanha inércia para saber receber e apoiar o investimento: “Não se admire meu caro, aprendemos tudo convosco. Portugal deixou cá muito”. E dizia-o com o sorriso de quem sabia claramente mais do que eu, como infelizmente vim a aprender anos mais tarde…

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Sobre o autor

Nuno Madeira Rodrigues

Nuno Madeira Rodrigues é Administrador do Grupo HBD e Presidente do Conselho de Administração da Lusitano, SAD, e do Conselho Fiscal da Associação Lusófona para as Energias Renováveis. É Vice-Presidente do Conselho Fiscal da Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários, Membro do Conselho Consultivo da Plataforma Sustentar e Presidente da Direção da Associação Empresarial de São Tomé e Príncipe.