Pese embora as sérias dúvidas quanto à verdadeira autoria da frase, atualmente já não atribuída nem a Einstein nem a Benjamin Franklin, a verdade é que o acerto da expressão “insanidade é continuar a fazer sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes” é por demais evidente e, seja quem for o iluminado que proferiu este sentimento, ele continua tão atual nestes tempos como no momento da sua origem.

Quando olhamos para falhanços de algumas empresas, independentemente da dimensão ou peso de mercado das mesmas, não é assim tão pouco frequente constatar que o mesmo pode ser diretamente relacionado com a repetição de condutas que, amiúde, mostraram não conduzir aos resultados esperados. Insistir num determinado produto que não tem aceitação de mercado, manter políticas de má remuneração e inexistente reconhecimento dos trabalhadores, apostar em investimentos de elevado risco – e potencial de lucro – sem garantias mínimas de sucesso, enfim, os exemplos são muitos e todos conhecemos um ou mais casos em que estas ou outras razões conduziram ao insucesso de um determinado negócio, com todas as consequências que daí resultam.

Pode perguntar-se o porquê de, face às evidências, existir quem persista nos comportamentos ou atitudes que levaram a uma ou mais situações de fracasso. Numa primeira reação é óbvio que parece no mínimo um comportamento ilógico, falhar e insistir no mesmo, persistir no erro, mas acima de tudo julgo que é importante perceber que tal resulta da própria condição de quem decide, o ser humano.

É bem verdade que por natureza somos seres insatisfeitos e que procuramos sempre mais mas, curiosamente, essa situação cria igualmente um paradoxo quando vemos que, pese embora a insatisfação com que nos deparamos, insistimos em ações que nos conduzem a uma espiral dessa infelicidade quando, na verdade, deveríamos procurar exatamente o contrário. Existirão, sem dúvida, imensas teorias para justificar esta situação mas, para mim, defendo que acima de tudo rege a aversão do ser humano à mudança, a sua zona de conforto, tal como amplamente definida pelos especialistas.

Há alguns anos li um texto muito interessante de Alasdair White, “From comfort zone to performance management”, sobre este tipo de situações. É apenas natural que, independentemente do resultado final, todos nos sintamos mais confortáveis a realizar e agir de acordo com o que conhecemos, evitando e resistindo à mudança face aos “perigos” que a mesma apresenta. Veja-se como exemplo clássico desta situação a famosa “Alegoria da Caverna” de Platão.

Dito isto, é importante reconhecer que o verdadeiro desafio reside efetivamente na mudança, em saber mudar, sair da tal zona de conforto e lidar com uma realidade diferente que poderá não trazer logo o que se espera mas, acima de tudo, terá o condão de permitir evitar a citada “insanidade”. Este é um conselho que me dou a mim mesmo com regularidade, fazer diferente, mudar quando não estou certo, quando falho e, acima de tudo, e julgo que este é o caso mais complicado, mudar quando temos sucesso pois este não deve ter limites e há sempre mais para almejar. Assim seja esta ode à mudança uma regra na gestão.

Comentários

Sobre o autor

Nuno Madeira Rodrigues

Nuno Madeira Rodrigues é atualmente Chairman da Lusitano SAD e da BDJ S.A. Anteriormente, foi Administrador do Grupo HBD e Presidente do Conselho de Administração da Lusitano, SAD, e do Conselho Fiscal da Associação Lusófona para as Energias Renováveis. É... Ler Mais