É comum no mundo do futebol ouvirmos os treinadores das principais equipas dizerem, após uma vitória num jogo com muita polémica e com golos marcados nos últimos minutos, que vão continuar na luta CONTRA TUDO E CONTRA TODOS.

Uma mensagem de força que pretende transmitir que a equipa está mais unida que nunca e que não vão desistir independentemente do que aconteça.

O mais recente episódio que tem vindo a abalar o ecossistema português relacionado com a Chic-by-Choice fez-me pensar que, na verdade, qualquer empreendedor/empresário que esteja a pensar criar, ou tenha já criado o seu negócio em Portugal, é que poderia começar a usar regularmente esta expressão. Para se ter sucesso com o nível de risco que se assume, tem mesmo de ser CONTRA TUDO E CONTRA TODOS. Senão, vejamos uma tipificação das forças contrárias que os empreendedores enfrentam nos seus primeiros tempos de atividade:

  • CLIENTES EMPRESARIAIS (B2B) – Uma start-up não tem histórico nem track-record, falta-lhe credibilidade e dimensão. Para começar a trabalhar com um cliente terá de ser através de um piloto, provavelmente a custos muito reduzidos (se não for grátis). Durante o piloto, a margem de erro tende a ser mais reduzida quando comparada com outras empresas mais maduras. No final, a conversão do piloto tem de ter em consideração que os clientes assumiram o risco com eles e foram pioneiros.
  • CLIENTES INDIVIDUAIS (B2C) – Uma start-up não tem marca, poucos a conhecem. Para atrair tráfego tem de se investir muito dinheiro (um bem escasso) em marketing. Se conseguir convencer os clientes a comprar (sem antes fornecer um bom desconto), o nível de serviço tem de ser exemplar para assegurar recorrência. Se alguma coisa falha no início, a crítica negativa dos clientes terá um peso relativo enorme. Quem vai usar um serviço de uma empresa que tem 25% de reviews negativas mesmo que estejamos a falar de apenas 5 pessoas em 20?
  • FORNECEDORES – Uma start-up tem demasiado risco no fornecimento o que resulta numa política restrita de abastecimento com tudo pago a pronto. Caso a empresa não tenha recursos suficientes, o pagamento poderá ser feito através de quota no negócio, mas uma quota importante uma vez que o risco do negócio é muito elevado.
  • EMPREGADOS – Uma start-up exige os melhores recursos humanos, principalmente nos negócios baseados em tecnologias de ponta. Mas têm de ser remunerados abaixo do valor de mercado e ser motivados pelo projecto e pela cultura de uma empresa que acabou de começar.
  • INVESTIDORES – Uma start-up necessita de apresentar resultados sem ter muitos recursos (financeiros e humanos) antes do investimento. Após o investimento é necessário crescer exponencialmente limitando o uso dos recursos que, entretanto, foram injectados.
  • OPINIÃO PÚBLICA – Uma start-up com sucesso será subvalorizada em termos do mérito e esforço associado. Por outro lado, o insucesso tenderá a ser sobrevalorizado prevendo-se uma desqualificação meteórica dos empreendedores que lideraram o projecto.

No entanto, mesmo nestas circunstâncias continuamos a conseguir identificar um ecossistema pujante, com empresas a serem criadas diariamente sem receio do futuro e com equipas com vontade de assumir riscos. Entendo que estes potenciais obstáculos acabam por alimentar e unir os empreendedores focando a empresa nos seus objectivos e na obtenção de resultados, um pouco à semelhança do que acontece nos balneários das equipas de futebol.

Conseguir ultrapassar estas adversidades é uma enorme fonte de aprendizagem e é a procura por estes desafios que verdadeiramente distingue o espírito de um empreendedor de alguém com um perfil mais corporativo e que valoriza uma maior estabilidade.

Mas, ter tudo e todos contra não é naturalmente produtivo, não mata mas mói e acaba por ir causando um desgaste gradual nas equipas. É certo que estes obstáculos não surgem na grande maioria dos casos todos em simultâneo, permitindo uma melhor gestão dos mesmos, mas será que os resultados não seriam ainda mais entusiasmantes com algum “apoio”? Acredito que com uma maior maturidade do ecossistema e com cada vez mais casos de sucesso seja possível reduzir o impacto das limitações anteriormente referenciadas e que o país seja capaz de consolidar uma cultura de abertura e valorização do risco, actualmente ainda a dar os primeiros passos.

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Sobre o autor

Francisco Ferreira Pinto

É sócio e administrador executivo da Busy Angels, um investidor em capital de risco com mais de 20 investimentos em start-ups tecnológicas nas áreas digital, ciências da vida e bens de consumo. Atualmente, é também membro da direção da APBA – Associação Portuguesa de Business Angels. Anteriormente, esteve mais de cinco anos em consultoria de estratégia e gestão na Deloitte, liderando projetos em Portugal e em Angola. Tem uma licenciatura... Ler Mais