Ao ver recentemente a capa da revista TIME onde se aglomeravam pilhas de crianças sem vida, dilaceradas pela guerra e ceifadas da sua vida pela indiferença e desumanidade mundial, resolvi escrever sobre a questão do desaparecimento do sentido de humanidade no mundo, nas organizações, na política e no homem.

No seu mais recente livro A Estranha Ordem das Coisas, António Damásio escreve que “sem educação os homens vão matar-se uns aos outros”. Também em meados do início do século passado Edgar Morin afirmava que é preciso ensinar a “condição humana” aos homens e mulheres deste mundo. Mais recentemente, no final do século passado, no relatório da Unesco, Educação um Tesouro a Descobrir, encabeçado por Jacques Delors mas onde também está o nosso muito querido Roberto Carneiro, afirma-se que é preciso ensinar o homem a Ser, a Fazer, a Conviver com os Outros e a Conhecer.

Também Lao Tsé há muitos milhares de anos, cerca de 600 anos a.c., já afirmava que “para aparecer o líder, primeiro tem de aparecer o ser humano”, numa época onde ainda não existiam escolas de gestão, mas de onde já irradiavam alguns princípios de liderança fundamentais à educação do Ser em detrimento do Ter. Ou como na Paideia, denominação do sistema de educação e formação ética do Ser na Grécia antiga, onde se procurava a excelência física e moral através da beleza e da bondade.

O meu ponto essencial neste artigo é de que não é possível encontrar lideranças positivas, humanas, onde não há humanidade. Como pedir a algumas lideranças políticas ou mundiais ações humanitárias, se não existe no seu seio a própria humanidade. Seria como pedir que fossem o que não são. Que dessem o que não têm.

É preciso ensinar a condição humana.

O modelo económico produtivo está em falência social, desintegrando à sua volta tudo o que resta da humanidade. A desumanidade revelada através das diversas formas de violência a que assistimos, seja nas guerras, nas organizações, na política ou nas relações individuais, são o reflexo da nossa própria autodestruição interior. Torna-se fundamental reconstruir o nosso mundo interior, para que seja possível transformar o mundo exterior.

Também, e principalmente nas organizações, torna-se fundamental encontrar líderes que pratiquem nas suas lideranças, as diversas formas de viver a condição humana como forma de criar um espaço seguro de criação e de desenvolvimento da humanidade em cada colaborador.

A principal responsabilidade dos novos líderes não é de gerir a escassez, como se dizia há 30 anos, ou mesmo de maximizar resultados financeiros, numa negação completa do sentido de humanidade vivente dentro das organizações. A época das pessoas vistas apenas como recursos num todo produtivo terminou.

Nesta fase da humanidade o primeiro compromisso do líder tem de ser com os seus colaboradores. Tudo o mais será o reflexo da forma de viver esse mesmo compromisso. Ensinar a autonomia integral deve ser o seu principal objetivo e o seu maior ato de liderança. Proporcionando a esperança e as condições necessárias no espaço organizacional, para que as pessoas acreditem em si e libertem todo o seu potencial criativo ao serviço de um todo maior. Social, Económico e Ambiental.

A existência de líderes com uma perspetiva maior da vida e das pessoas obriga a que se perceba o seguinte. Descartes na sua célebre frase, “cogito ergo sum”, penso logo existo, esquartejou o corpo inteligente da cabeça pensante, separando a capacidade intuitiva do sentir (proveniente dos sentidos), do pensamento lógico funcional.

A maior parte dos pensamentos, tidos como racionais, têm fonte no inconsciente de cada um. E por isso as empresas estão cheias de irracionalidade, como bem explica Peter Senge no seu livro a Quinta Disciplina.

O que afirmo é que sem os sentidos do corpo, da nossa própria humanidade, o ser humano pensa de uma forma irrefletida e por isso não realista. Além disso, a mente racional é fria e despida de sentimento se não a integrarmos numa corporeidade.

O que acontece hoje em dia é que as pessoas deixaram de ter capacidade para sentir. Pensa-se muito, mas sente-se pouco. Não parando para pensar, não existe reflexão. Não existindo reflexão não existe consciência. A grande patologia da sociedade moderna é mesmo a insensibilidade humana. Pensamos sem sentido de corpo e de uma forma bastante irrefletida. Na modernidade, infelizmente, o corpo serve mais para impressionar do que para viver e pensar bem.

Por isso António Damásio afirma, mas não só, que se impõe uma abordagem emocional e não só racional. Já na década de 90 demonstrava, no seu mais famoso livro O Erro de Descartes, como a “ausência de emoções pode prejudicar a racionalidade”.

A história está cheia de grandes pensadores desposados de emoção e do sentir que, há luz da sua intelectualidade, cometeram enormes atrocidades humanas. Ser intelectual não é sinónimo de inteligência, nem de riqueza moral ou de grandeza social. Muito menos de humanidade. Como dizia Galeano, “confunde-se o grandote com grandeza e o pequenote com pequenez”.

Fazendo um paralelismo interessante também nas organizações, à semelhança de Descartes, se decepou o corpo da cabeça. Certamente por sua influência. Como exemplo disso podemos observar que nas empresas comunica-se muito pouco entre as cabeças executivas e o corpo operacional. Separamos as pessoas por níveis hierárquicos, que não sendo o mesmo, surgem de uma pirâmide militar de comando antiga que tem a tendência de separar as pessoas. Assim como “castas” organizacionais, em que uns têm direito à diferença e outros não. A serem reconhecidos e outros não. Em que uns pela sua literacia acabam por ser mais ouvidos e outros não.

No entanto, o “corpo organizacional” (corporation) é essencialmente composto por colaboradores de segunda linha mais “grounded to life” como diria Bill George. Tradicionalmente menos intelectualizados mas mais operacionais. No final, mais perto da realidade do construcionismo social em que a realidade advém do que se faz e não do que se pensa fazer.

Sem dúvida que nas organizações, Descartes fez os seus estragos separando as cabeças executivas do corpo operacional. É no sentir da inteligência do corpo colectivo, organizacional, social, político ou nacional, que se deve fazer o balanço e a harmonia da humanidade. Querer ver mais humanidade no mundo, sem mais humanidade no nosso mundo interior será sempre impossível.

O sentido maior de todas as lideranças mundiais é assim de desenvolver, e de devolver a cada pessoa, as condições de humanidade essenciais. Em que os nossos valores primários humanos nunca sejam corrompidos pela “realidade” social ou organizacional vigente. A ética sempre antes da estética.

Em primeiro lugar têm de estar sempre as pessoas.

Assim como não podemos aceitar a violência infantil perpetuada através do trabalho infantil, ainda utilizada por tantos fornecedores internacionais, também não podemos perpetuar a violência no interior das organizações de não considerar a individualidade do colaborador através da massificação da sua diferença.

Como escreveu Boaventura Souza Santos, “Temos o direito de ser iguais sempre quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito de ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades”.

Apoiar a diferenciação individual e a aprendizagem da “autonomia integral” em cada cidadão ou colaborador, é a responsabilidade maior dos líderes com valores assentes na humanidade. Autonomia não no sentido de poderem fazer tudo o que querem, mas de poderem vir a ser tudo o que são.

O que é que isto tem a ver com as empresas e com os líderes atuais? Absolutamente tudo. Um mundo diferente será possível se se começar a facilitar e a observar a aprendizagem da condição humana nas empresas, nas escolas, nos liceus, nas universidades, e no Estado como nação protetora da humanidade.

Esta modernidade apresentada socialmente como sendo aceitável, mas brutalmente desumana, inqualificável e mortal, divide o ser humano e a Humanidade no seu desejo e esperança de paz, de serenidade, de saúde e de prosperidade para todos. E não vale a pena apontar nomes, porque todos somos em parte responsáveis por esta situação.

A única solução para o futuro do Mundo parece residir na consciência humana. Enquanto não nos tornarmos mais humanos, no ser, no pensar, no dizer e no fazer, tudo o que a sociedade propõe está longe dos valores da humanidade.

“A crise geral da Humanidade é a crise da humanidade que não se consegue transformarem humanidade”, já dizia Edgar Morin há quase 100 anos.

Até quando vamos ter de esperar para ver o ensino da condição humana universalmente aceite e aplicado? E até que ponto da destruição humana precisamos ir para acordar?

Por muito que nos custe olhar, “a destrutividade do mundo é tão só a representação da nossa própria autodestruição”.

Comentários

Sobre o autor

Manuel Pelágio

O seu próprio processo de desenvolvimento pessoal e profissional determinaram a decisão de Manuel Pelágio ajudar mais pessoas a desenvolverem as suas capacidades profissionais e talentos naturais. Tudo começou com 18 anos de idade quando deixou Portugal rumo à América Latina. Foi o início do seu processo global de aprendizagem e de contacto com a multiculturalidade. Hoje, depois de 25 anos de experiência em funções executivas, exerce a sua profissão... Ler Mais