A função política está tão desacreditada, com muitas culpas próprias, que a única forma de a reabilitar passa necessariamente por uma alteração na forma de comunicar.

Na verdade, quando todos os setores da vida passaram por transformações na forma de comunicar, a política e os políticos permanecem quase imutáveis, utilizando as mesmas técnicas e as mesmas regras.

A política dos afetos é talvez a primeira tentativa, em Portugal, de transformar a comunicação política. Mas ela tem efeitos circunscritos, não pode estender-se a cargos executivos, que diariamente são confrontados com situações que precisam de bem mais do que de afetos.

O que nos falta, então? Onde podemos ir buscar outra forma de comunicar que não seja através de discursos que parecem enlatados, iguais, sem interatividade?

Creio que aquilo que nos falta, e assumindo a quota-parte de culpa que me é devida, é naturalidade e autenticidade, uma predisposição para não encarar a política como uma trincheira, como um debate entre bons e maus, como uma competição de ideologias. Enredámo-nos num discurso conflitual que as redes sociais e a comunicação social amplificam, e estamos a perder contacto com as pessoas, ou elas connosco, até por má utilização dessas ferramentas.

Se queremos ser ouvidos, temos de falar diretamente e sem trincheiras, temos de saber reconhecer os nossos erros e as qualidades de outros; temos de encarar um acordo ou um consenso como uma vitória de todos e não como uma cedência de perdedores; temos de saber responder às perguntas sem lhes fugir, de ter a noção de que as pessoas não têm obrigação de perceber, à primeira, a dificuldade ou o contexto das decisões.

Foi o que tentei fazer na minha primeira campanha eleitoral, a que dei o nome de Nova Energia: contacto muito direto com as pessoas, resposta a todas perguntas e a todos os cenários, presença constante e apresentação das ideias nas redes sociais, discurso autêntico em vídeos diretos e espontâneos, ausência de críticas às outras candidaturas. O resultado foi melhor do que o esperado, num concelho onde o meu partido não elegia ninguém há 40 anos.

É por isso que isto passa também por uma transformação e evolução dos partidos políticos, um tema que me interessa especialmente, já que, por variadas vezes, manifestei opiniões contrárias ao meu partido. Um partido político que não evolui, tal como as pessoas, é um partido político morto. Por isso, os partidos têm que evoluir com a sociedade em que se inserem, aprender a comunicar com ela e dar-lhe respostas.  A singularidade daqueles que militam ativamente num partido político deve ser traduzida e deve ser demonstrada nesse partido e nesse discurso, para que possamos aproximar-nos das pessoas.

Tudo isto é muito fácil de escrever, menos fácil é de executar. Mas estou convencido de que, ou mudamos a nossa forma de comunicar e de agir, ou estamos a oferecer a política de bandeja aos radicais e aos populistas.

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Sobre o autor

Adolfo Mesquita Nunes

Adolfo Mesquita Nunes tem mais de treze anos de experiência em advocacia nas áreas de direito público, nomeadamente em políticas públicas, contratação pública, regulação, contencioso, arbitragem e contratos públicos, em vários setores de atividade. É Sócio da sociedade Gama Glória.... Ler Mais