Quando era adolescente, vi um filme que me deixou a pensar se devia ter mesmo ido para a área de economia e gestão no liceu. Era um filme com o Dany de Vito. O título original era “Other People’s Money.”

A personagem do Dany de Vito chamava-se Larry o liquidador, porque o que ele fazia era liquidar empresas: comprava empresas cujo valor na bolsa estava abaixo do valor dos seus ativos e depois fechava (liquidava) a empresa para vender os ativos e ganhar dinheiro. Nos anos 80, isto não acontecia só nos filmes. Quem pagava eram os trabalhadores que ficavam sem emprego. Também aconteceu na realidade com empresas como a TWA, uma grande linha aérea americana na altura.

Hoje em dia estamos habituados a ver as empresas comprar outras para fins estratégicos. A Apple comprou a Siri, para incorporar no sistema operativo do iPhone a tecnologia de reconhecimento de voz e o assistente inteligente que a empresa tinha desenvolvido. O Facebook comprou o Instagram para incorporar esta rede social online na sua estratégia de desenvolvimento.

Apesar dos trabalhadores não ficarem todos sem emprego, uma compra destas nunca é agradável. Nem para quem trabalha na empresa que é comprada, nem para quem trabalha na empresa que está a comprar.

Na gestão o problema é óbvio, só pode haver um diretor geral, um diretor de marketing e assim por diante. Nos casos que conheço, isto leva a politiquice da mais suja, mesmo por parte das pessoas que estão na empresa compradora. É que essas pessoas podem tentar ser promovidas para lugares que antes estavam fora do seu alcance.

Para quem faz o trabalho de todos os dias nas duas empresas também é mau. Não é preciso que haja gente a mais. Nem é preciso que quem manda use os trabalhadores para as suas jogadas políticas. Basta que passe cá para baixo o medo que há em cima.

Felizmente, passado algum tempo a integração está feita. A politiquice acalma. Não desaparece, porque a politiquice faz parte da vida das empresas. Mas pelo menos deixa de ser a principal preocupação das pessoas. O medo desaparece. O que fica são os estragos causados pelas lutas por manter ou ganhar poder. Mas o que é pior é que também ficam os conflitos e as mágoas entre colegas trabalhadores que não tiveram força para resistir ao medo.

Um líder competente é capaz de reduzir muitos destes efeitos negativos. Mas também há líderes incompetentes a liderar estes processos. São líderes que podem ser muito bons a mexer no Excel para mostrar serviço, mas que não conseguem distinguir a real competência de quem luta pelos objetivos da empresa, da fachada de competência de quem luta pelos seus próprios interesses e pela sua carreira. Estes gestores que lideram para melhorar os números no Excel nunca são permanentes. Só estão na empresa a prazo. Enquanto os números forem bons. Depois partem para outra, deixando atrás de si um rasto de relações destruídas e de empresas que perderam muito da sua competitividade, porque a competitividade das empresas vem das relações entre as pessoas.

As vezes vem outro líder, que até pode ser melhor. Outras vezes a empresa é vendida e começa de novo a triste dança do poder.

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Sobre o autor

João Vieira da Cunha

João Vieira da Cunha é escritor. Utiliza uma variedade de meios para partilhar as suas ideias, desde as mais prestigiadas revistas científicas na área da gestão até uma conta rebelde no Twitter. É doutorado em Gestão, pela Sloan School of... Ler Mais