Adiar consecutivamente a realização de uma tarefa é quase inato ao ser humano. Mas no mundo dos negócios essa atitude pode trazer-lhe dissabores se não conseguir dominar a vontade de procrastinar.

A procrastinação é uma compulsão ímpar. Dificilmente haverá alguém que não tenha passado por isso: adiar, consecutivamente, algumas tarefas. O que varia, certamente, são as razões de cada um nós subjacentes a essa atitude. A realidade revela que a  procrastinação atrasa as atividades que aproximam as pessoas dos seus objetivos, seja a implementação ou o desenvolvimento de um negócio próspero ou uma simples ida ao ginásio.  Mas afinal, porque é que os humanos não fazem simplesmente um sprint rumo ao sucesso dos seus projetos, sejam eles quais forem, e deixam de procrastinar?

Estudos científicos sobre procrastinação são recorrentes ao longo dos anos e alguns investigadores até consideravam esta questão um problema básico de gestão de tempo, mas agora veem-no como um fenómeno complexo e altamente individual.

O autor Eric Jaffe escreveu na revista Observer que a “verdadeira procrastinação é uma complicada falha de auto-regulação. Os especialistas definem-no como o atraso voluntário de alguma tarefa importante que temos de fazer, apesar de sabermos que sofreremos com esse adiamento. Um conceito pobre de tempo pode exacerbar o problema, mas a incapacidade de gerir as emoções parece estar na origem desta questão”.

Eis alguns fatores, indentificados pelo Entrepreneur, que podem estar por trás do seu mau hábito, conjuntamente com algumas ideias que podem ajudar a refletir na melhor forma de ultrapassar esta atitude.

1. O progresso não acontece suficientemente rápido
Pense na última vez que iniciou um novo projeto ou um empreendimento empresarial. Provavelmente sentiu-se animado e motivado pelo desafio. Alguns meses, ou anos, mais tarde, o brilho esmoreceu. Talvez se sinta desencorajado e até um pouco entediado. Está a “lutar” com o tempo e a biologia.

A dopamina muitas vezes é descrita como a “recompensa química” do cérebro, ativada pelo toque de um smartphone ou por um prato de massas. Mas novas pesquisas mostram que a dopamina está mais intimamente relacionada com o comportamento de procura de recompensas do que com a recompensa propriamente dita.

Quando o cérebro encontra novidades, libera dopamina. O químico natural motiva-o a procurar uma recompensa. Mas quando a novidade do projeto desaparece, a sua mente revolta-se. A motivação cai enquanto o seu cérebro pensa: “o meu trabalho duro não foi recompensado. Isto já não tem piada!”. A procura por uma gratificação instantânea torna ainda mais difícil manter-se motivado.

BJ Fogg, um cientista comportamental da Universidade de Stanford, sugere que lute contra a queda de dopamina, configurando “pequenas vitórias” e comemorando cada etapa. De acordo com Fogg, cada tarefa deve ser acompanhada por uma simples recompensa. Imagine que pretende criar um curso online. Você poderia comprometer-se a escrever um parágrafo depois de cada copo de água, e em seguida, continuar este comportamento durante todo o dia. Uma vez que a tarefa esteja feita, é hora para a celebração maior. Você poderia ouvir uma música favorita, fazer uma breve caminhada, ou ler um livro. Pequenas vitórias recompensam o seu cérebro e entusiasmam-no até à meta. Este feedback constante também estabelece um hábito poderoso que pode eliminar a necessidade permanente de motivação.

2. Não sabe por onde começar
É comum sentir-se oprimido no acelerado mundo que se vive hoje. As aparentemente intermináveis listas de afazeres podem fazer com que não saiba por onde começar. Infelizmente, a atenção dividida leva muitas vezes as pessoas a procrastinaren de uma forma sorrateira: primeiro, envolvem-se em atividades “menores”, como esvaziar a caixa de entrada dos emails ou verificar as redes sociais, adiando as tarefas mais importantes.

Os fundadores são especialmente propensos a esses sentimentos, porque raramente há um caminho claro sobre a melhor forma de seguir em frente. Se for como a maioria dos empreendedores, também deve estar fazer algum malabarismo para contornar as tarefas mais espinhosas da sua agenda.

Mas os empreendedores sabem que é normal ter incertezas, sobretudo quando se começa algo novo. Lembre-se que não há problema em não ter todas as respostas. Dê-se ao direito de começar por onde pode.

As soluções de brainstorming com amigos, mentores e conselheiros podem ajudá-lo a estabelecer prioridades claras. Procure pessoas que não estejam perdidas nas “miudezas” do dia-a-dia do negócio. Muitas vezes podem ajudá-lo a perceber onde deve aplicar melhor ou seu tempo ou se deve delegar algumas funções.

3. Tem medo de falhar
Os fundadores adoram repetir o mantra “falham rápido, falham muitas vezes”. Debaixo da bravura, no entanto, muitos vivem com medo de tomar más decisões.

Durante uma recente visita a Silicon Valley, o escritor Rob Asghar falou com um fundador invulgarmente sincero, que lhe disse que “muitas pessoas aqui falam sobre abraçar o fracasso, mas geralmente isso é apenas conversa”. Alguns temem o fracasso tão intensamente que cortam etapas. Outros podem atrasar datas de lançamento, perder prazos ou serem obcecados com pequenos detalhes em vez de avançarem com uma primeira versão, seja do que for. Lutar contra o perfecionismo pode ser uma forma de começar a colocar as coisas em perspetiva. Talvez assim consiga crescer mais rapidamente.

Joseph Ferrari, professor adjunto de psicologia na Universidade de Paul de Chicago, apelida as pessoas que fazem procrastinação baseada no medo de “avoiders”. Se estão a evitar o fracasso ou mesmo o sucesso, então estão profundamente preocupados com as opiniões das outras pessoas. “Eles preferem que os outros pensem que houve falta de esforço do que de capacidade”, escreveu Ferrari.

Ter padrões elevados não é necessariamente uma coisa má. Todos sabemos que o sucesso envolve coragem, perseverança e princípios fortes. “O perfecionismo e a procrastinação estão ligados”,  afirmou a psicóloga da Universidade de Boston, Ellen Hendriksen, “mas não são necessariamente os padrões elevados que o atrasam, mas os padrões elevados misturados com a crença de que o seu desempenho está vinculado ao seu valor próprio. Essa combinação pode colocá-lo num impasse”. Você não é o seu trabalho. E só fazendo a diferença entre quem somos e o que alcançamos pode ajudar a parar a procrastinação baseada no medo.

4. Não gosta da tarefa
Algumas atividades não são divertidas. Poucas pessoas gostam de ir ao dentista ou de fazer os impostos. Construir um negócio também requer algumas atividades menos emocionantes. Quando há tantas coisas mais interessantes para fazer, quem quer gastar horas preciosas a fazer  faturação?

Este é talvez o tipo mais mundano de procrastinação. As pessoas adiam tarefas aborrecidas ou sem inspiração porque não se sentem com coragem para enfrentá-las.

“Em algum lugar, ao longo do caminho, todos nós compramos a ideia, sem percebermos conscientemente, que para ser motivado e eficaz precisamos sentir como queremos agir”, escreveu o psicólogo social Heidi Grant. “Eu realmente não sei por que acreditamos nisso, porque é 100% absurdo”. Grant sugere que em vez de esperar por um “relâmpago” motivacional para atacar,  aplique uma técnica chamada “então e se planeasse.” Primeiro, identifique as etapas necessárias para concluir uma tarefa. Em seguida, e o mais importante, determine onde e quando vai agir. Diga a si mesmo, por exemplo, “quando for 10 da manhã, então vou fechar o meu e-mail e começar as minhas pesquisas”.

Este processo requer força de vontade. E isso é importante, porque a falta de força de vontade, no sentido tradicional, pode levá-lo a adiar as coisas em primeiro lugar. Abrace sua resolução e, recomenda Grant, o tal auto-planeamento como uma ferramenta de backup.

O poder do auto-conhecimento
Todos têm diferentes motivações, metas e personalidades, por isso faz sentido que tenham razões diferentes para procrastinar. Depois de entender o que o está a bloquear é mais fácil escolher a melhor solução. Ignore os outros. Afinal, é mais importante conhecer-se a si mesmo, experimentar e ficar com o que funciona para você. E conforte-se porque  todos os seres humanos enfrentaram  o mesmo  desafio, desde os antigos sábios gregos antigos até aos fundadores de Silicon Valley.

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