Todos concordaremos que as cidades, como polos de atracção e inovação social, têm e continuarão a ter um papel importantíssimo no desenvolvimento humano.

Planear e organizar as cidades, de modo mais racional, sempre foi, ao longo dos séculos, um desejo de governos locais que enfrentavam o crescimento caótico das malhas urbanas, com a crescente complexidade de questões como a qualidade de vida dos seus habitantes, a gestão de recursos e a sempre crítica mobilidade. Se a evolução no planeamento urbano foi frequentemente incremental, a novidade mais disruptiva é, desde há 15/ 20 anos, a tecnologia digital aplicada à interacção e tomada de decisão. Efetivamente, na atualidade, a tecnologia oferece-nos possibilidades de inovar na gestão urbana, de forma nunca antes vista: no planeamento de espaços, numa maior conectividade entre pessoas e instituições, na busca de soluções que maximizem a eficiência energética, na gestão de resíduos e sustentabilidade ambiental, em novos modelos de mobilidade urbana e mesmo na alavancagem da uma cidadania mais ativa – e estamos a falar, claro, das chamadas smart cities.

O potencial desta área é imenso. De acordo com a consultora Frost & Sullivan, o mercado global de Smart Cities deverá atingir mais de $1,5 trilhões de dólares até 2020. As experiências variam entre projetos ainda embrionários e experiências mais consolidadas. Estudos recentes estimam mais de 600 projetos de “cidades inteligentes” a nível global, até final da presente década. Muitas são iniciativas de “refundação” inteligente de cidades com séculos de história, como Santander, Barcelona ou Amesterdão. Já outras, são parte da ambição de construção de cidades de raiz, de que são exemplos Masdar (Emirados Árabes Unidos) e Songdo (Coreia do Sul). Desde há uns anos que as smart cities estão na agenda da União Europeia (com a “Smart Cities and Communities European Innovation Partnership”), com o objetivo de incrementar a qualidade de vida urbana dos cidadãos – através de projetos integrados de energia, mobilidade e comunicação.

Ora o talento, capacidade de inovação e competências tecnológicas de instituições portuguesas, pode ser decisivo, com ideias a aplicar na inovação local e, quem sabe, a exportar. Iniciativas meritórias, como eventos, debates e plataformas (ex. o Cluster Smart Cities Portugal), têm emergido nos últimos anos, agregando os esforços de dezenas de entidades para potenciar o desenvolvimento de soluções inovadoras nestas áreas.

Governar é tomar opções e definir uma estratégia é decidir o que fazer e o que não fazer. Parece-me, pois, que criar condições para uma maior atratividade e qualidade das nossas cidades devia ser um desígnio para a próxima década. E, nesta como noutras áreas, parece-me pertinente e exequível desenvolver aqui um centro de competências, que nos permita desenvolver conhecimento e exportar serviços de elevadíssimo valor acrescentado. É um desafio que deve ser assumido por vários agentes da sociedade – não só o estado central, como também autarquias, universidades, centros de investigação e empresas (em particular, os operadores de telecomunicações). E, passando da estratégia à ação, definir áreas de expertise, desde a eficiência nas redes de energia (onde estamos na linha da frente do InteGrid, projeto promovido pela União Europeia), iluminação pública inteligente, sistemas de controlo de trânsito em tempo real, gestão inteligente da mobilidade e do estacionamento, os novos conceitos de smart homes, os serviços de interacção simplicados entre munícipes e a administração autárquica ou instrumentos de suporte à participação pública. Investimentos-chave como a implementação das novas redes 5G serão essenciais para conectar os milhões de sensores inerentes a esta nova realidade.

Tudo isto não é, certamente, uma moda passageira ou um soundbyte vazio, será uma prioridade crescente neste mundo cada vez mais urbano. Será, pois, uma aposta clara, com impactos bem definidos: capacidade de atração e sustentabilidade das nossas cidades e desenvolvimento de competências com foco no mercado global.

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Sobre o autor

Carlos Sezões

Carlos Sezões é, deste 2010, Partner em Portugal da Stanton Chase, uma das 10 maiores multinacionais de Executive Search – também dedicada às áreas de Talent Management e Executive Coaching. Começou a sua carreira no Banco BPI em 1999. Assumiu... Ler Mais