Será que ainda sou do tempo em que o maior ativo das empresas são as pessoas?

Não necessitamos de estar muito atentos para rapidamente compreendermos a importânca que as questões relacionadas com a Inteligência Artificial, e outras transformações tecnológicas de relevo, ocupam na ordem do dia. Estes aspetos refletem-se do ponto de vista do debate e na prioridade com que cada vez mais as instituições e organizações olham para estes temas.

No Global CIO Survey 2018 da Deloitte, a Inteligência Artificial, o Machine Learning, a IoT (Internet of Things) e o RPA (Robotic Process Automation) aparecem no topo da lista de preferência das tecnologias emergentes da grande maioria dos CIO globalmente consultados. A esta distância parece assim inevitável que estas tecnologias se massifiquem e cada vez mais se tornem acessíveis, criando um “mar” de oportunidades, mas também de potenciais ameaças.

Estamos a abrir caminho para a já falada singularidade tecnológica, teoria segundo a qual as máquinas entram num processo de autoaperfeiçoamento repetitivo, resultando num estado em que superam toda a inteligência humana. Encontrando-nos ainda um pouco longe dessa realidade, interessa refletir seriamente sobre os passos que estamos a dar e o caminho que estamos a traçar para a nossa sociedade.

Um estudo do Fórum Económico Mundial (WEF) intitulado “O Futuro dos Empregos 2018” dá conta de que as máquinas e os algoritmos no local de trabalho podem vir a criar 133 milhões de novos postos de trabalho, causando a perda de 75 milhões de empregos a serem deslocados até 2022. De acordo com o mesmo estudo, o crescimento da inteligência artificial vai criar 58 milhões de novos postos de trabalho nos próximos anos.

Vista a questão desta forma, estamos perante um saldo positivo, e ao que parece a empresa e a gestão robot estão ao virar da “esquina”. O que não me parece ainda claro é como vamos preparar a nossa sociedade para este novo paradigma, como vamos estabelecer estas linhas de colaboração entre “homem” e “máquina”. Se em alguns casos, por exemplo na indústria automóvel, existem já métodos de produção colaborativa e processos de divisão de trabalho entre ambos, no que toca a outras indústrias e serviços ainda existe um longo caminho a percorrer.

Essa viagem rumo a este admirável mundo novo já começou sendo que o bilhete de entrada são as competências. E é aqui que reside a questão central! Temos de preparar os mais jovens para esta realidade, embora não nos possamos esquecer que esta profunda transformação social tem impactos multigeracionais e que, a prazo, afetarão de forma significativa também as atuais gerações ativas em termos de mercado de trabalho.

Torna-se crucial a criação de uma estratégia de aquisição de competências ao longo da vida que nos valorizem, e caso necessário reorientem competências para uma inclusão efetiva de todos nesta transformação em curso. Caso isso não aconteça, corremos o risco de vermos delegadas mais funções e de termos muitos “atores secundários” num filme que pode ser dirigido criando uma história que não seja a da nossa melhor vontade.

O CEO robot & The robot enterprise podem ainda ser figuras de ficção, mas certamente teremos melhores empresas, melhores recursos e melhores gestores se tivermos melhores competências. Só assim podemos criar espaço para continuarmos a afirmarmo-nos a peça central desta transformação, o maior ativo para uma Sociedade Digital inclusiva onde se opte para entrar e onde não nos seja vedada a entrada.

Na certeza de que, no futuro, as pessoas para continuarem a ser os melhores ativos das empresas terão de fazer a diferença pelo humanismo, pelo constante enriquecimento e valorização das suas competências e pela criatividade.

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Sobre o autor

Jorge Delgado

O percurso profissional de Jorge Martins Delgado esteve sempre ligado à indústria das Tecnologias de Informação e Comunicação, universo onde consolida a carreira desde 1982. Hoje presidente da comissão executiva da COMPTA, a mais antiga tecnológica portuguesa em atividade, Jorge... Ler Mais